VesperaFicção adulta

Coleção de outono · 2026

Histórias
para depois
que escurece.

Contos originais sobre desejo, hesitação e a hora exata em que alguém decide não voltar atrás. Escritos para serem lidos devagar — de preferência sozinho.

Nesta edição

Quarenta e três histórias
I

O elevador parou no sétimo

Ela apertou o oito. Ele apertou o doze. Entre os dois andares havia trinta segundos, e depois não havia mais nenhum.

5 min
II

Mensagem às 1h47

O nome dela ainda estava salvo do jeito antigo. Ele digitou, apagou, digitou de novo. Enviou antes de pensar.

5 min
III

A vizinha da frente

Do outro lado do poço de luz, a cortina nunca fechava por completo. Levou quatro meses até um dos dois acenar.

5 min
IV

O voo das onze não saiu

Dois vouchers de vinte e dois reais, um voo cancelado e um corredor de hotel com duas portas a três metros uma da outra.

6 min
V

A aula de dança das quartas

A cada oito compassos todo mundo troca de par. Na quarta quarta-feira ninguém trocou, porque não tinha aula.

6 min
VI

Plantão de sexta

Às três e doze o alarme do leito 12 tocou. Às quatro da manhã as mãos dos dois ainda tremiam.

6 min
VII

Praia em maio

Ela foi para uma vila de trinta pessoas fora de temporada justamente para não falar com ninguém. Funcionou por dois dias.

7 min
VIII

A oficina fecha às seis

Ele disse bomba d'água. Ela disse tensor. O barulho durava oito segundos e ela voltou três semanas seguidas.

6 min
IX

Biblioteca, quarto andar

O acervo tem luz de sensor: noventa segundos parado e ela apaga. Nenhum dos dois andou até o meio do corredor.

6 min
X

Apagão de três horas

Três horas sem luz, sem bomba d'água e sem elevador. O prédio inteiro desceu até a torneira da garagem com balde.

7 min
XI

O casamento do Rafael

Ela ficou doze segundos com o cartão na mão, sem abrir a porta do quarto 11. Ele levou nove anos para chegar ali.

8 min
XII

Trem noturno, cabine 4

Dois beliches vendidos separados, oitenta centímetros de largura e onze horas até a fronteira. A trava dá um estalo.

6 min
XIII

O ensaio fotográfico passou da hora

Ela já tinha o retrato às sete menos vinte. Continuou pedindo dois graus de queixo por mais uma hora e meia.

7 min
XIV

Táxi das quatro da manhã

Ele pegou os dois às 4h07 e manteve os olhos na rua. O aplicativo desviou e acrescentou doze minutos, e ele aceitou rápido demais.

6 min
XV

A mudança do apartamento 62

Catorze caixas, duas pilhas e um colchão sem lençol no meio do quarto. As duas chaves voltaram para a portaria com três dias de diferença.

6 min
XVI

Três noites de camping

Seis pessoas, três barracas, e uma delas era individual. Na terceira noite não sobrou desculpa nenhuma, nem o frio, nem a chuva.

9 min
XVII

Academia, três da manhã

Ele corrige a pegada dela no puxador e ela finge que já sabia. Às três e vinte o recepcionista sai para buscar lanche.

6 min
XVIII

A aula noturna de quinta

Oito redações entregues impressas e devolvidas com caneta vermelha na margem. Na sétima, a letra saiu da margem e ocupou o rodapé.

6 min
XIX

A casa de campo emprestada

Sete confirmaram no grupo e chegaram dois. A chave estava debaixo do vaso e choveu a partir das sete da noite.

7 min
XX

Sauna, terça à tarde

Cinco meses de terças sem trocar uma palavra. Às 14h02 a areia da ampulheta acabou e ninguém virou ela.

6 min
XXI

A segunda rodada da entrevista

Estava marcada para quarenta e cinco minutos e durou uma hora e vinte. Ela retirou a candidatura na sexta.

7 min
XXII

O stand vizinho

Três dias de feira, dois stands a dois metros e um cabo de extensão laranja que ficou emprestado até quinta.

7 min
XXIII

A prova de terno

Ombro direito dois centímetros mais baixo. Na terceira prova ele contou que o casamento tinha sido cancelado.

7 min
XXIV

Cinco horas na cadeira

Estavam previstas sete sessões e foram nove. O erro tem meio milímetro e ninguém cobriu.

7 min
XXV

Depois que o salão esvazia

A última comanda entra às 22h40. O que vem depois disso não é trabalho nem folga, e é onde acontece tudo.

7 min
XXVI

Quatro dias sem falar

Dezenove pessoas, lugares numerados e nenhuma palavra em quatro dias. Os dois já pagaram o retiro de março.

7 min
XXVII

Das três às cinco

Com a luz vermelha acesa, é programa de rádio. Com ela apagada, são oito meses de outra conversa.

7 min
XXVIII

A travessia das quatro

Seis horas de travessia viraram quinze. A cabine de quatro beliches tinha sido vendida duas vezes.

7 min
XXIX

O sábado do contrapiso

Trinta e seis horas de cura é o único momento de uma reforma em que o apartamento fica vazio.

7 min
XXX

A latada do fundo

Dezoito dias de safra, doze pessoas num alojamento, e um talhão atrás da lomba que não se vê do galpão.

7 min
XXXI

As visitas de sábado

Seis apartamentos vazios numa tarde. O relatório lista cinco, está correto, e não falta nada nele.

7 min
XXXII

O botão de tosse

Enquanto o botão está apertado, a sala não ouve nada. Onze minutos constam da ata como falha de sinal.

7 min
XXXIII

O forno abre amanhã

Doze horas de resfriamento que não podem ser apressadas. Ninguém foi embora naquela noite.

7 min
XXXIV

A sala 7 não tem câmera

O bastão registra cada ponto com hora e minuto. Entre o 6 e o 7 há trinta e quatro minutos.

7 min
XXXV

Quem dirige na volta

Ela dirigia na ida, ele na volta. Foi a única regra em quatro anos, e o limite era a porta do carro.

7 min
XXXVI

O galpão da Piratini

A matéria do jornal diz cento e vinte voluntários. No turno da madrugada eram trinta e um.

7 min
XXXVII

Corrigido em vermelho

Trinta e uma aulas numa mesa de cozinha de um metro e vinte. Uma frase ficou sem correção nenhuma.

7 min
XXXVIII

A avaliação prática

Vinte e quatro pessoas em duplas, dois dias de treinamento. O instrutor viu tudo e assinou mesmo assim.

7 min
XXXIX

O que se ouve do corredor

Dez noites de acompanhante no quarto andar, aprendendo um andar de ouvido. Na calçada, com sol, ela olhou para ele.

7 min
XL

Motivo da devolução

Doze dias de balcão de troca depois do Natal. A política tem cláusula para tudo, menos para um suéter cinza.

7 min
XLI

Altura de voo permitida

Com os óculos, quem pilota fica cego e alguém precisa ver por ele. O último arquivo do cartão é de 23h47.

7 min
XLII

O sinal de reserva

Doze sinais de mão para tudo o que não se pode falar a cinco metros. Ela sinalizou reserva com oitenta bar.

7 min
XLIII

De zero a dez

De zero a dez, quanto dói. O número é a única coisa da sessão que o paciente controla, e quatro foram falsos.

7 min

Ler é uma coisa. Escolher a próxima é outra.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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