VesperaFicção adulta

Conto XXXI

As visitas de sábado

O roteiro tinha seis endereços e uma tarde, e foi cumprido inteiro.

Uma empresa transferiu um gerente de Curitiba e pagou para a imobiliária resolver moradia em um fim de semana. Cléo pegou o roteiro porque é dela a carteira de locação corporativa. Hamilton foi junto porque três dos seis exigem duas pessoas: são vazios, de proprietário ausente, com chave em cofre, e a norma interna manda dois corretores em imóvel vazio.

A norma existe por causa de furto, não por causa de outra coisa.

Os dois trabalham na mesma sala desde 2022 e nunca tinham passado uma tarde sozinhos.

Seis visitas numa tarde é um número ruim, e todo mundo da imobiliária sabe disso. O deslocamento entre dois endereços num sábado leva de doze a trinta minutos, uma vistoria séria leva quarenta, e a conta não fecha de jeito nenhum. Ela fecha porque a pessoa corta canto: deixa de conferir uma coisa aqui, confia na foto do anúncio ali, e escreve "sem observações" num campo que não olhou.

O que segue é o que não foi feito em cada um.

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13h00. Rua Tabapuã, 8º andar, 74 m².

Não abriram a cortina da sala.

Abriram tudo o mais: janelas, armários da cozinha, a caixa do disjuntor, o registro do chuveiro para ver pressão. Cléo fotografou o rodapé do quarto menor, que tem uma mancha de infiltração de uns quarenta centímetros, e anotou na ficha que a mancha estava seca ao toque.

A cortina é blackout e pesada, e os dois concordaram que dava para ver a iluminação pela varanda. Levou quarenta minutos.

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14h10. Alameda dos Arapanés, térreo com quintal, 96 m².

Não conferiram o hidrômetro.

Era o único item da lista que ficou em branco. O relógio fica num nicho atrás do portão de serviço, com uma tampa de ferro emperrada, e Hamilton disse que resolvia na segunda pelo aplicativo da concessionária, o que é verdade e é o que ele faria mesmo.

O quintal tem uma figueira grande demais para o espaço e um piso de pedra que estava escorregadio de limo. Cléo quase caiu, e ele segurou o braço dela, e os dois riram do jeito que duas pessoas riem quando uma quase cai.

Não houve nada aí. Está escrito porque parece que houve.

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15h00. Rua Pamplona, 12º, 61 m².

Não subiram pelo elevador social.

O prédio é de 1978 e tem manutenção no social aos sábados, então os dois foram pelo de serviço, que é estreito, sem espelho, com piso de borracha e uma luz amarela fraca. Doze andares nele levam cinquenta segundos.

Nos cinquenta segundos ninguém falou.

O apartamento é bom. Sol da manhã, piso novo, vaga demarcada. Cléo já sabia que era esse antes de abrir a porta, porque ela viu a planta na quinta e ela faz isso há dezoito anos.

Ela não falou isso para o cliente depois. Falou que os seis mereciam consideração, que é o que se fala.

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15h50. Rua Caiubi, 3º, 58 m².

Não terminaram a vistoria.

Havia uma reforma acontecendo no 41, no mesmo andar, com serra mármore ligada, e serra mármore em corredor de prédio antigo é um barulho que impede conversa e dá dor de cabeça em sete minutos.

Os dois desceram, marcaram de voltar na terça e riscaram o endereço do roteiro do dia.

Isso abriu quarenta minutos livres na agenda, entre as quatro e as quatro e quarenta, e os dois tomaram café numa padaria da esquina da Cardeal Arcoverde, sentados na mesa de fora, e conversaram sobre o que duas pessoas da mesma sala conversam quando finalmente não tem mais ninguém da sala junto.

Ele é separado desde 2023. Ela nunca casou e detesta a pergunta.

Nenhum dos dois falou do assunto que estava acontecendo. Ninguém nunca fala.

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16h40. Rua Original, 5º, 88 m².

Não fecharam a porta do apartamento.

Isso é procedimento e é levado a sério: imóvel vazio com porta encostada é convite. A porta ficou encostada das dezesseis e quarenta às dezessete e cinquenta, sem tranca, com a chave do cofre ainda na fechadura pelo lado de dentro.

O apartamento é de dois quartos, sem um móvel, com aquele eco que só apartamento vazio tem e que faz qualquer som parecer maior do que é.

Tem um beiral largo na sala que joga sombra no chão às cinco da tarde. Tem um espelho embutido no hall, que os proprietários não levaram, e que pega a sala inteira do ângulo errado.

A ficha de visita do 5º andar está preenchida com a letra dela até o campo "observações gerais", que ficou vazio.

Nenhum dos dois levou nada do apartamento, que é o que a norma dos dois corretores existe para impedir.

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17h30 remarcado para 18h05. Rua Wisard, cobertura, 130 m².

Não visitaram.

Chegaram vinte e cinco minutos atrasados e o zelador já tinha ido embora com a chave, porque o combinado era até as dezoito. Cléo ligou duas vezes. O sexto endereço ficou para segunda e o cliente não se importou, porque o cliente escolheu o da Pamplona, como ela sabia desde quinta.

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Na segunda-feira os dois voltaram à mesma sala, às mesmas mesas, que ficam a quatro metros uma da outra.

O relatório da tarde de sábado tem duas páginas e lista cinco imóveis vistoriados de seis, com uma pendência de hidrômetro e uma revisita agendada para a Caiubi.

Está tudo correto. Não falta nada nele.

E a única coisa que os dois fizeram naquela tarde e que não está em lugar nenhum daquele relatório aconteceu no 5º andar da Rua Original, com a porta encostada, entre as dezesseis e quarenta e as dezessete e cinquenta.

Seis endereços, cinco vistoriados. O relatório está correto e não falta nada nele.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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