Conto XXIX
O sábado do contrapiso
Sônia e Jandir assinaram o mesmo diário durante vinte e duas semanas, e em vinte e duas semanas ninguém que passou por lá viu os dois discordarem em voz alta.
Ela é arquiteta e tem quarenta e um anos. Ele é mestre de obras e tem cinquenta e cinco, e começou como servente em 1989, o que ele menciona quando alguém novo chega achando que sabe assentar piso.
O apartamento tem setenta e oito metros quadrados num prédio de 1974, com laje maciça, prumada de ferro fundido e um proprietário que mora em Portugal e acompanhou tudo por vídeo, às quintas, sempre com dez minutos de atraso.
O cronograma dizia catorze semanas.
Os dois trabalhavam de um jeito que as equipes comentavam, e comentavam bem.
Ela chegava às sete e vinte. Ele chegava às seis e meia, porque quem abre a obra é o mestre. Os dois faziam a volta juntos antes de qualquer serviço começar, sempre na mesma ordem: área de serviço, banheiro social, suíte, sala, cozinha.
Os dois mediam duas vezes. Ela com trena a laser, ele com trena de fita, e quando os números não batiam eles refaziam os dois, sem discutir de quem era o erro.
Os dois assinavam o diário no fim do dia, em duas linhas, uma embaixo da outra.
Os dois davam a bronca, quando era o caso, e davam separado: ela falava com os fornecedores, ele falava com a equipe, e nenhum dos dois nunca corrigiu o outro na frente de terceiro. Isso é raro. Numa reforma, isso é praticamente inédito.
Numa obra, o casal que se forma primeiro é profissional, e quase sempre é o único que se forma.
Na semana três abriram a parede do banheiro e a prumada de esgoto estava com a parede do tubo em três milímetros, quando o nominal é seis.
Trocar prumada exige autorização do condomínio, acesso ao apartamento de baixo e ao de cima, e uma assembleia. Levou cinco semanas.
Na semana nove chegou o porcelanato, e chegou com duas caixas de lote diferente, o que se descobre quando o sol da tarde bate e a peça do lote errado puxa para o cinza.
Na semana doze o vizinho de baixo entrou com uma reclamação formal por causa do horário do rompedor.
O proprietário de Portugal foi avisado de cada uma dessas coisas na quinta seguinte, por vídeo, e reagiu bem às três, o que ninguém esperava.
As quintas por vídeo duravam quarenta minutos e tinham ordem fixa: ela apresentava o avanço físico, ele entrava na tela para responder o que fosse de execução, e no fim os três falavam de dinheiro. O proprietário desligava sempre com a mesma pergunta, que era se dava para adiantar alguma coisa, e a resposta era sempre não. Em vinte e duas semanas ele perguntou vinte e duas vezes.
O prazo caiu para dezoito semanas. Depois para vinte.
O contrapiso da sala foi lançado numa sexta de julho.
Contrapiso é argamassa sarrafeada com régua de alumínio sobre uma tela, e depois de lançado ele precisa de cura. Nas primeiras trinta e seis horas ninguém pisa. Ninguém entra. A obra para inteira, e é o único momento de uma reforma em que o apartamento fica vazio e limpo ao mesmo tempo.
No sábado de manhã os dois foram até lá conferir o nível, que é serviço de dez minutos e não exige equipe.
Não havia ninguém. O elevador de serviço estava desligado porque sábado o prédio desliga. O apartamento tinha cheiro de cimento molhado, que é um cheiro limpo, e a sala estava com um plano de argamassa cinza perfeitamente liso de ponta a ponta, sem uma marca.
Os dois ficaram na porta olhando aquilo por um tempo que não tinha justificativa técnica nenhuma.
Depois foram para a suíte, que é o único cômodo onde o piso antigo ainda estava, e onde havia dois cavaletes e uma porta de madeira maciça apoiada em cima deles servindo de bancada desde a semana um.
A porta é de cedro, tem oitenta e dois centímetros de largura e aguenta duzentos quilos, segundo ele, que calculou isso na semana um por outro motivo.
Os dois saíram de lá às onze e quarenta.
A conferência de nível foi feita. Deu dois milímetros de caimento em três metros, dentro da tolerância, e está anotado no diário de sábado com a letra dele.
A obra recomeçou na segunda com a equipe inteira e mais oito semanas pela frente.
Os dois continuaram chegando nos mesmos horários. Continuaram medindo duas vezes. Continuaram assinando o diário em duas linhas, uma embaixo da outra, e continuaram sem se corrigir na frente de ninguém.
Não houve segunda vez. Isso não é pudor nem arrependimento: é que uma reforma tem gente dentro dela das sete às dezessete, todos os dias, e o sábado do contrapiso foi o único dia em vinte e duas semanas em que aquele apartamento esteve vazio.
Eles sabiam disso na sexta. Os dois combinaram o horário na sexta, por mensagem, com a palavra "nível" escrita na mensagem.
A entrega foi numa quarta de novembro. O proprietário veio de Portugal, andou pelo apartamento, abriu e fechou todas as portas, o que todo cliente faz, e pagou a última medição na hora.
No começo deste conto está escrito que em vinte e duas semanas ninguém viu os dois discordarem em voz alta. Isso está errado e precisa ser corrigido aqui.
Uma vez discordaram. Foi na semana quinze, sobre a cor do rejunte do banheiro social, e foi alto o suficiente para o pintor descer um andar e esperar passar.
Trinta e seis horas de cura, um apartamento vazio. Não houve segunda vez.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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