VesperaFicção adulta

Conto XX

Sauna, terça à tarde

O que existe na área da seca, clube da Rua Turiassu, ala feminina e masculina separadas por uma parede de bloco de vidro:

Uma sala revestida de cedro com três degraus de banco. Um forno elétrico com pedras. Uma ampulheta de quinze minutos parafusada na parede ao lado da porta. Um termômetro que marca noventa e dois e que, segundo o Aldo da manutenção, marca noventa e dois desde 2019 independentemente da temperatura.

Um aviso plastificado: Obrigatório o uso de toalha. Proibido despejar água nas pedras. Máximo 15 minutos.

Um balde com concha, que existe apesar do aviso.

Quem usa a seca nas terças, entre uma e três da tarde:

Dona Sueli, 71, que fica sete minutos e sai. O Ricardo, professor de natação do clube, que entra depois da aula das onze e dorme sentado. E, desde março, uma mulher que os dois primeiros não sabem o nome e que a recepção registra como sócia desde 2019, categoria individual, pagamento em débito automático.

Ela se chama Iara. Trabalha em casa e escolheu esse horário porque é o horário em que não tem ninguém.

O que Iara sabe sobre o Ricardo até o dia 12 de agosto:

Que ele tem uma tatuagem de âncora no antebraço direito, malfeita, provavelmente antiga. Que ele cheira a cloro mesmo depois do banho, o que é uma característica de quem passa quatro horas por dia dentro de uma piscina. Que ele dobra a toalha em três antes de sentar, sempre, e que isso é ou mania ou treinamento.

Que ele nunca falou com ela.

O que o Ricardo sabe sobre Iara até o dia 12 de agosto:

Que ela senta no degrau do meio, nunca no de cima. Que ela conta os quinze minutos pela ampulheta e não pelo relógio, e que quando a areia acaba ela vira a ampulheta de novo e fica mais quinze, o que é contra o aviso plastificado. Que ela tem uma cicatriz de uns oito centímetros na parte de trás da coxa esquerda, branca, antiga, do tipo que vem de escapamento de moto.

Que ele nunca falou com ela.

· · ·

Terça, 12 de agosto. Inventário do que acontece entre 13h40 e 14h10:

13h40. Dona Sueli sai. A porta de vidro fecha com o amortecedor, que está com defeito e leva quatro segundos.

13h41. Restam dois na sala.

13h47. Iara vira a ampulheta pela primeira vez.

13h48. Ricardo diz que isso é contra a regra.

13h48. Iara diz que a regra é do clube e a ampulheta é dela.

13h49. Ele ri. É a primeira coisa que os dois trocam em cinco meses de terças.

13h52. Ele muda do degrau de cima para o do meio. Existem dois metros e dez de banco no degrau do meio. Ele senta a um metro e vinte dela, o que é uma distância que não significa nada e que os dois medem.

13h55. Ela pergunta da âncora. Ele conta: dezenove anos, Santos, uma noite ruim, e o cara que fez está preso hoje por motivo não relacionado.

13h58. Ele pergunta da cicatriz. Ela conta: escapamento de uma CG 125, 2004, garupa, e o motoqueiro era o namorado dela na época, e ela ficou com ele mais um ano depois disso, o que é a parte que ela acha pior.

14h02. A areia acaba de novo.

14h02. Ninguém vira a ampulheta.

· · ·

O que muda de posição na sala entre 14h02 e 14h10:

A toalha dele, que sai de baixo e vai para o degrau de cima.

A distância no banco, que passa de um metro e vinte para zero em dois movimentos, e o segundo movimento é dela.

A mão dele, que fica quinze segundos parada na altura do joelho dela sem fechar, esperando, e que só fecha quando ela põe a dela em cima.

O corpo dos dois, que sai do banco de cedro porque cedro a noventa e dois graus é fisicamente impossível, e vai para o piso de tábua corrida perto da porta, que é a parte mais fria da sala e ainda assim está quente.

O balde com a concha, chutado, que não derrama porque está vazio.

O que não muda de posição:

O aviso plastificado.

A ampulheta, com toda a areia embaixo.

O termômetro, em noventa e dois.

· · ·

Inventário sonoro, 14h10 às 14h26:

O forno elétrico, que liga e desliga em ciclos de uns noventa segundos e faz um estalo metálico nos dois extremos.

A piscina do outro lado da parede de bloco de vidro, com a turma da hidroginástica das duas, que é uma turma barulhenta e que naquele dia estava especialmente animada por motivo que ninguém dentro da sala vai descobrir.

Respiração. Dois tipos.

Nada mais. Nenhum dos dois disse uma palavra em dezesseis minutos, e nenhum dos dois vai conseguir explicar depois se aquilo foi por causa da parede de bloco de vidro ou por outro motivo.

· · ·

14h26.

O amortecedor com defeito começa a ceder do outro lado da porta. Leva quatro segundos, que é tempo suficiente para duas pessoas voltarem para degraus diferentes, e é exatamente o que os dois fazem, com uma competência que assusta os dois.

Entra o Aldo da manutenção, de bermuda e camisa do clube, com uma chave de fenda.

Ele diz boa tarde. Diz que vem trocar o termômetro, que está quebrado faz uns seis anos e que finalmente aprovaram o orçamento.

Sobe no banco de cima com a chave de fenda.

Iara está no degrau do meio com a toalha no lugar certo, olhando a ampulheta vazia. Ricardo está no degrau de cima, do outro lado, com a toalha dobrada em três.

O Aldo fala que o novo é digital.

Ele solta o parafuso de cima. Depois começa o de baixo, que está

A areia acabou às 14h02. Ninguém virou a ampulheta.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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