Conto XVII
Academia, três da manhã
Eu trabalho em escala 12 por 36 e saio do hospital às duas e meia. Não dá para dormir depois de doze horas de pé, então eu treino. Isso não é disciplina, é o contrário: é o que sobra quando a pessoa não consegue parar.
A unidade da esquina abre vinte e quatro horas. Às três da manhã tem duas pessoas na sala de musculação, incluindo eu, e um recepcionista chamado Wesley que dorme sentado com uma competência admirável.
A programação da TV é sempre a mesma. Um canal de notícias sem som, com legenda, repetindo uma matéria sobre o dólar.
Meu treino de terça é costas e bíceps.
Ele começou a aparecer em julho.
Homem de uns quarenta, alto, com aquele físico de quem já teve rotina, perdeu, e voltou. Treino dele é bem montado. Dá para ver.
Na primeira semana a gente não trocou uma palavra. Duas pessoas numa sala de quatrocentos metros quadrados às três da manhã não precisam interagir, e nós dois exercemos esse direito com entusiasmo.
Na segunda semana ele passou perto do puxador e falou que eu estava puxando com o braço.
Ele estava certo, o que foi irritante.
— É pra puxar com o cotovelo. Imagina que a mão é só um gancho.
— Eu sei.
— Sei que você sabe. Você estava puxando com o braço.
Eu refiz a série do jeito certo, e senti a diferença, e não agradeci. Ele não esperou agradecimento. Voltou pro leg press dele.
Na terceira semana a gente começou a contar repetição um do outro.
Isso é uma coisa específica de academia que não tem equivalente em nenhum outro lugar. Você fica ali, a um metro de uma pessoa que está fazendo força, e conta. Oito. Nove. E na décima você põe dois dedos embaixo da barra sem tirar o peso dela, só para a pessoa saber que tem alguém ali.
É um contrato inteiro num gesto.
Eu comecei a fazer supino nas terças, que não é do meu treino de terça.
Ele começou a fazer costas.
Nenhum dos dois comentou a coincidência dessas duas mudanças de programação.
Detalhe técnico que importa: para contar direito, você fica de pé atrás do banco, com as pernas abertas na altura da cabeça de quem está deitado.
É a posição correta. É a posição que qualquer instrutor ensina no primeiro dia. Foi assim que eu aprendi em 2016 e é assim que eu faço com todo mundo.
Na quarta semana, quando ele deitou no banco e eu fiquei em posição, eu levei quase um segundo a mais do que o necessário para colocar a mão na barra.
Um segundo é nada. Também é o suficiente para que os dois olhem para cima e para baixo respectivamente, e para que nenhum dos dois diga nada sobre isso.
Ele fez doze. Eu contei as doze em voz alta e a minha voz mudou entre a oitava e a décima.
Na quinta semana o Wesley não estava na recepção.
Tinha um bilhete na mesa dizendo "volto já", com uma caneta em cima, que é a coisa mais universalmente vaga que existe. Depois a gente descobriu que ele tinha ido buscar lanche numa padaria a seis quadras.
Eram três e vinte. A sala estava vazia. O rádio interno tocava pagode em volume baixo para ninguém.
Eu estava alongando no colchonete perto do espelho, que é o canto mais escondido da sala porque fica atrás da estrutura do cross.
Ele veio e sentou no colchonete do lado. Não disse nada. Sentou como quem senta pra alongar, com as pernas abertas e o tronco pra frente, e ficou ali.
— Sua escala termina que horas?
— Amanhã sete da manhã.
— Então você tem hoje.
Eu falei que sim.
Existe uma coisa que ninguém conta sobre academia às três da manhã: é o lugar mais bem iluminado do bairro inteiro.
Luz de LED branca, teto alto, e uma parede de espelho de doze metros que devolve tudo. Não tem canto escuro. O que tem é ângulo morto, que é diferente, e o ângulo morto da unidade da Rua Tabapuã fica entre a estrutura do cross e a parede dos anilhas.
A gente foi para lá sem combinar em voz alta, do jeito que duas pessoas atravessam uma rua juntas sem combinar.
O piso de borracha é morno. Isso me surpreendeu.
A camiseta dele estava molhada nas costas e nos ombros, e a minha também, e nós dois cheirávamos exatamente a uma pessoa que treinou por quarenta minutos, e nenhum de nós dois se importou com isso, o que na minha experiência é a fronteira exata entre gostar de alguém e não gostar.
Ele perguntou uma vez, baixo, se estava tudo bem. Eu disse que estava. Foi a última pergunta.
A gente ficou com o cuidado de quem sabe que a porta da frente é de vidro e dá para a calçada. Isso impõe uma economia de movimento que, sinceramente, melhorou tudo.
O Wesley voltou às três e cinquenta e um.
Eu sei o horário porque tem catraca, e a catraca registra, e eu vi o registro depois na tela dele por cima do balcão enquanto passava o cartão para sair.
Quando ele entrou, eu estava na esteira, andando a cinco por hora, o que é a velocidade de quem não está fazendo nada.
Ele estava no leg press, sem peso nenhum na máquina.
O Wesley perguntou se tinha aparecido alguém. Eu disse que não. Ele falou que aquele horário é morto mesmo e ofereceu metade de um pão na chapa, que eu aceitei.
Faz três semanas.
A gente continua nas terças e nas quintas. Continua contando repetição um do outro. Ele continua corrigindo minha pegada no puxador, o que continua sendo irritante e continua estando certo.
Eu não sei o sobrenome dele. Sei que ele fez cirurgia no ombro esquerdo em 2019 e que por isso não passa de vinte e cinco quilos no desenvolvimento, e sei o horário exato em que ele desiste de fingir que veio treinar.
Três e vinte.
Wesley continua indo buscar lanche.
Ele conta as minhas repetições. Eu conto as dele.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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