VesperaFicção adulta

Conto IV

O voo das onze não saiu

Guarulhos, portão 14. O painel trocou de ATRASADO para ATRASADO às 23h40, que é o jeito educado de avisar que ninguém ali sabia de nada.

Eu ia pro Recife. Às onze e meia me deram um voucher de vinte e dois reais para usar numa praça de alimentação onde nada custava menos de vinte e oito. Fiquei com o papel na mão feito bilhete de rifa vencida.

O cara sentado duas cadeiras à minha esquerda riu. Não de mim. Do voucher dele, idêntico.

— Vinte e dois — ele disse. — Dá um café e metade de um pão de queijo.

— Dá o pão de queijo inteiro na lanchonete do fundo. Eles não conferem.

— Você já testou.

— Estou aqui desde quinta.

Mentira, eu estava desde as sete da noite. Ele riu do jeito certo e eu não corrigi.

Tinha uma etiqueta de bagagem velha ainda amarrada na alça da mochila dele, de um voo para Bogotá, o papel já sem metade das letras. Quem não tira a etiqueta ou viaja demais ou viaja de menos. Eu ainda não sabia qual dos dois ele era.

· · ·

Meia-noite e dez: previsão de nova informação em sessenta minutos. O portão inteiro reagiu como plateia de teatro ruim.

Subimos pro bar do segundo piso porque era o único lugar aberto. Ele pediu uma long neck, eu pedi a mesma coisa por preguiça de ler o cardápio. As banquetas eram altas demais, dessas que deixam o pé pendurado, e depois de uns vinte minutos eu tinha desistido da postura e estava com o calcanhar apoiado no travessão da banqueta dele.

Ele não comentou. Também não afastou a banqueta.

— Ricardo — disse, tarde demais para ser apresentação e cedo demais para ser outra coisa.

— Bea.

— Beatriz?

— Bea.

Ele aceitou. Gostei que ele aceitou.

Conversa de aeroporto às três da manhã não conta como conversa de verdade. Ninguém está no lugar onde mora, ninguém chegou no lugar pra onde vai, e por umas horas as pessoas ficam sem endereço. Ele me contou de um cachorro que morreu em maio e de um irmão que não fala com ele desde o inventário. Eu contei do apartamento que aluguei sem ver e de um cara com quem morei quatro anos e que hoje é só um número que eu não apaguei.

Em nenhum momento ele perguntou o que eu ia fazer no Recife. Reparei. Fiquei com a impressão de que ele não perguntava de propósito, do mesmo jeito que a gente não acende a luz de um quarto onde alguém está quase dormindo.

O bar fechou à uma. A moça avisou vinte minutos antes e ninguém saiu, avisou de novo e aí todo mundo saiu.

Descemos. Guarulhos às três da manhã é um lugar sem hora nenhuma. Um funcionário passava a enceradeira no piso do saguão em linhas retas, sem pressa. Uma família dormia no chão perto do balcão da companhia, quatro pessoas com almofada de pescoço, e a mãe estava acordada com a mochila apertada em cima do peito. Um homem de terno falava sozinho ao telefone havia uns quarenta minutos.

Sentamos de novo nas cadeiras de metal do portão 14. Ele encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, e eu fiquei olhando o perfil dele por mais tempo do que se olha o perfil de quem a gente conheceu às onze e quarenta.

— Você está me olhando — ele disse, com o olho ainda fechado.

— Estou vendo se você ronca.

— E ronco?

— Vou descobrir.

Ele abriu um olho só.

· · ·

Uma e quarenta: cancelado.

A companhia distribuiu hotel. O transporte era um micro-ônibus com cheiro de desinfetante de pinho e um motorista que dirigia como se ainda fosse meio-dia. Sentamos no mesmo banco porque o resto estava ocupado, e o ombro dele batia no meu a cada curva da alça de acesso, e nenhum de nós dois se ajeitou pra que parasse de bater.

Na recepção a moça entregou os cartões sem levantar os olhos do sistema. 214 e 216.

Rimos os dois ao mesmo tempo. O riso durou um segundo a mais do que a coincidência merecia.

O corredor do segundo andar tinha aquele carpete que engole o passo. A porta do 214 ficava logo à esquerda do elevador. A do 216, três metros adiante.

Ele parou primeiro. Passou o cartão. A luzinha ficou vermelha.

— Sempre na segunda tentativa — eu disse.

Passou de novo. Verde.

E ficou com a mão na maçaneta sem abrir, olhando pra mim do jeito de quem já decidiu e está só esperando não ser o único.

Eu não abri a minha porta. Foi a coisa mais parecida com uma resposta que eu consegui dar.

· · ·

A cortina blackout não fechava até o fim. Sobrou uma faixa laranja do estacionamento entrando torta e caindo em diagonal na cama. Foi a única luz que restou depois que ele apagou o resto.

Ele beijou como quem esperou o dia inteiro por aquilo. Tecnicamente falso: a gente tinha se conhecido às onze e quarenta. O corpo dele não estava contando as horas do mesmo jeito que o relógio.

Eu tirei o casaco. Ele deixou a mochila escorregar do ombro e cair no chão com um baque que os dois ignoramos.

A cama era dura. Cama de hotel de aeroporto sempre é. Eu descobri isso com as costas e depois esqueci por um tempo considerável.

Em algum ponto ele parou, com a boca na altura da minha clavícula, e disse meu nome. Só isso. Bea. Como quem confere se ainda está no lugar certo.

Eu disse que sim.

· · ·

O despertador tocou às cinco e quarenta e cinco. O voo remarcado saía às sete e vinte.

Ele dormia com o braço por cima do meu quadril e a cara enfiada no travesseiro. Fiquei uns dois minutos olhando o teto e fazendo a conta do que ainda caberia entre aquele minuto e o check-in.

Não coube nada. Eu levantei.

A roupa dele estava no chão junto com a minha, e a minha estava por cima, o que eu registrei com uma satisfação idiota.

O quarto tinha um daqueles quadros de hotel de aeroporto: uma canoa parada numa água parada, moldura dourada, parafusada na parede pra ninguém levar. Passei os cinco dias seguintes lembrando daquele quadro em horários improváveis.

No banheiro, enquanto lavava o rosto, ouvi ele se mexer e resmungar uma coisa sem consoantes.

Na fila do embarque a gente ficou separado por sete pessoas. Ele acenou. Eu acenei. O assento dele era no fundo, o meu na quinta fileira, e nenhum dos dois propôs trocar com ninguém, o que também é um jeito de dizer as coisas.

Em Recife, na esteira, a mala dele saiu antes da minha. Ele esperou a minha sair.

— Bom — ele disse.

— Bom.

E foi isso. Não trocamos telefone. Ele não pediu, eu não ofereci, e a gente se despediu com um beijo no rosto que era menos do que a noite e mais do que a fila do bar.

Só no táxi eu achei a etiqueta de Bogotá no bolso do casaco. Não lembro de ter tirado da mochila dele. Acho que tirei enquanto ele dormia. Acho que ele viu.

Ela guardou a etiqueta. Você guarda o quê?

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

Fazer o teste

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XXVIII

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