Conto I
O elevador parou no sétimo
Ela apertou o oito. Ele apertou o doze. Depois disso ninguém disse nada, e o silêncio ficou com um peso que nenhum dos dois tinha pedido.
Era quinta-feira, quase onze da noite. O prédio era daqueles de escritório que à noite ficam grandes demais. Corredor aceso sem ninguém dentro, ar-condicionado ainda funcionando por hábito, uma faxineira no quarto andar com o rádio baixo numa estação de sertanejo. Ela vinha de uma reunião que tinha durado três horas a mais do que devia. Ele vinha do andar do jurídico, com o paletó dobrado no braço e a gravata já frouxa.
Ela conhecia o rosto. Não o nome.
Sete meses cruzando com ele na fila do café do térreo, aquela máquina que mói na hora e demora quarenta segundos por xícara. Ele pedia sempre a mesma coisa e nunca colocava açúcar. E sempre aquele olhar de dois segundos a mais do que a educação exige.
Ela tinha começado a contar os segundos por volta do terceiro mês. Nunca contou para ninguém que contava.
O elevador subiu até o sétimo e parou.
Não abriu. As luzes piscaram uma vez, decidiram continuar acesas, e o número no painel congelou no 7.
— Ótimo — ele disse.
A voz era mais grave do que ela tinha imaginado. Ela tinha imaginado a voz dele. Isso também nunca contou para ninguém.
Ele apertou o interfone. Uma moça do outro lado explicou, com a paciência de quem já explicou isso muitas vezes, que a manutenção chegaria em vinte minutos. Talvez trinta. Ele agradeceu, soltou o botão, e os dois ficaram olhando a porta fechada como se ela fosse abrir por vergonha.
— Vinte minutos — ela repetiu.
— Talvez trinta.
Ela riu. Foi um riso curto, quase sem som, e ele virou o rosto para olhar. Foi a primeira vez que os dois se olharam de frente, sem a fila do café no meio, sem outras pessoas atrás, sem o motivo pronto de estar ali.
Na parede lateral tinha um certificado de inspeção plastificado, vencido em abril, assinado por um técnico chamado Wanderley. Ela leu o nome três vezes porque precisava olhar para alguma coisa.
O elevador era pequeno. Ela nunca tinha reparado no quanto. De costas para a parede, conseguia sentir o ar que ele deslocava quando mudava de posição.
— Sofia — ela disse, e estendeu a mão.
— Eu sei.
Ela parou com a mão no ar.
— Está no crachá — ele completou, e foi a vez dele de sorrir. — Daniel.
Ela pegou a mão dele. Foi um aperto normal, de duração normal. O que não foi normal foi ela não soltar no tempo certo, e ele não fazer nada a respeito.
O interfone chiou de novo às onze e quinze. Outra voz, masculina desta vez, avisou que o técnico estava saindo de Osasco e pediu para eles não forçarem a porta.
— A gente não está com pressa — Daniel respondeu.
Soltou o botão. Depois olhou para ela como quem percebe tarde demais o que acabou de dizer.
Ela não corrigiu.
Existe uma coisa que acontece quando duas pessoas ficam presas num espaço pequeno e sabem que ninguém vai entrar. Não é a atração. A atração já estava lá; sete meses de fila de café tinham cuidado disso. É a permissão. O mundo lá fora, com suas regras sobre colegas de prédio e olhares de dois segundos, tinha ficado do outro lado da porta.
Ela tirou o salto. Foi o primeiro gesto que não tinha desculpa.
— Se são trinta minutos — disse, sentando no chão do elevador, as costas na parede —, eu não vou passar em pé.
Ele ficou olhando por um instante. Depois dobrou o paletó, colocou no chão ao lado dela, e sentou. O ombro dele ficou a menos de um palmo do dela. Nenhum dos dois se afastou.
— Sete meses — ele disse.
— Sete meses o quê?
— Você sabe.
Ela sabia. Virou o rosto para ele e o encontrou já virado. Estavam perto o bastante para ela ver que um dos olhos dele era mais escuro de um lado. Uma mancha de nascença na íris, coisa que só se vê a quinze centímetros.
— Você nunca disse nada.
— Nem você.
— Eu estava esperando.
— Esperando o quê?
Ela pensou na resposta honesta e resolveu dá-la.
— Um elevador quebrado.
Ele foi quem se moveu primeiro, mas por pouco. A mão dele encontrou o rosto dela do jeito que se toca uma coisa olhada por muito tempo sem poder tocar. Devagar. Quase perguntando.
Ela respondeu antes que a pergunta terminasse.
O primeiro beijo foi cuidadoso. O segundo não teve nada de cuidadoso.
Ela sentiu o metal frio da parede nas costas e o calor dele na frente, e o contraste foi suficiente para arrancar dela um som que ela não fazia havia anos. A mão dele desceu pela lateral do vestido, parou na cintura, apertou. A dela já tinha encontrado o primeiro botão da camisa e resolvido o assunto.
Vinte minutos é muito tempo. Trinta é uma eternidade. Eles descobriram os dois números.
O certificado do Wanderley ficou torto na parede em algum momento e ninguém endireitou.
Em algum ponto ela riu contra a boca dele. Do absurdo, do lugar, dos sete meses jogados fora numa fila de café. Ele riu junto e não parou o que estava fazendo, e o riso virou outra coisa, e a outra coisa tomou conta do resto do tempo que restava.
O elevador destravou às onze e quarenta e dois.
Deu tempo. Ela calçou o salto, ele fechou os botões na ordem errada e corrigiu, e quando as portas abriram no oitavo andar os dois estavam de pé, a um metro de distância, com a respiração quase normal.
O técnico de Osasco esperava no corredor com uma caixa de ferramentas e cara de sono. Não olhou para nenhum dos dois. Entrou no elevador, apertou alguma coisa atrás do painel e resmungou sobre relé.
Ela saiu. Antes das portas fecharem, virou.
— Amanhã tem fila de café — ela disse.
— Eu sei.
— Não olhe dois segundos.
Ele segurou a porta com a mão.
— E olho quanto?
Ela pensou. Depois deu de ombros, e o sorriso dela foi a última coisa que ele viu antes do metal se fechar entre os dois.
— Descubra.
Sete meses de fila de café. Bastou uma porta travada.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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