VesperaFicção adulta

Conto X

Apagão de três horas

Marina está no meio de uma reunião quando o prédio inteiro cala. Não é só a luz. É a geladeira, o roteador, o ar-condicionado da sala e um zumbido de fundo que ela nem sabia que existia até parar de existir. O notebook continua ligado, e o rosto do cliente segue falando por mais quatro segundos até o wi-fi entender que também acabou.

Ela fica olhando a tela apagada. Oito e dez de uma terça.

Da janela dá para ver que não é o prédio: é o bairro. A avenida está preta até o viaduto, e só o hospital, seis quadras adiante, continua aceso com aquele branco de gerador que não parece luz de verdade.

O celular tem trinta e um por cento.

Ela procura vela e encontra duas, tortas, num pote de macarrão. Acende uma na boca do fogão, que é a gás e continua funcionando, e nesse gesto lembra que a bomba d'água do prédio não é a gás.

Marina mora no nono. A caixa acima dela vai durar o que durar.

Ela abre a torneira da pia e sai um sopro, um chiado e nada. Pega o balde do banheiro e a lanterna do celular e desce.

· · ·

Otávio mora no décimo primeiro e está no chuveiro quando acaba a água, o que é uma forma específica de humilhação.

Ele fica um tempo parado embaixo do chuveiro seco, com shampoo, pensando na sequência de decisões que levou até ali. Depois se enrola na toalha, atravessa o apartamento no escuro e chuta o pé da estante, porque toda casa tem um móvel que espera exatamente por esse momento.

Ele veste bermuda e camiseta com o cabelo ainda cheio de espuma. Pega dois baldes.

A escada do prédio é de 1978 e tem uma janelinha basculante em cada patamar. Sem a luz de emergência, que nunca funcionou porque ninguém troca a bateria, o que sobra é o que entra pelas basculantes: o cinza da rua, os faróis dos carros que passam devagar porque os semáforos morreram, e mais nada.

Ele desce contando os patamares em voz baixa. Onze, dez, nove.

No nono tem uma mulher parada com um balde vazio e o celular apontado para o chão.

· · ·

Marina conhece o rosto. É o cara do onze, o que sempre segura a porta do elevador e sempre pergunta o andar mesmo já sabendo. Ela nunca soube o nome dele.

— Você tem espuma na cabeça — ela diz.

— Eu sei.

— Bastante espuma.

— Eu sei bastante.

Descem juntos. A torneira da garagem fica atrás do portão de serviço, e tem fila: o casal do quinto com uma panela, a senhora do segundo com uma jarra, o menino do sétimo que veio de chinelo e está achando tudo aquilo a melhor coisa que aconteceu no ano.

Enche balde é devagar. Dá tempo de conversa.

Ele se chama Otávio, trabalha com licitação, coisa que ele descreve como "papel, muito papel", e mora ali há dois anos e meio. Ela está no prédio há sete. Os dois calculam quantas vezes pegaram o mesmo elevador e chegam a um número absurdo.

— A gente devia ter feito isso antes — ele diz.

— Conversar?

— Descobrir o nome.

· · ·

Subir com balde cheio é outra coisa completamente diferente de descer com balde vazio.

Otávio para no quinto patamar com os dois braços tremendo e admite, para si mesmo, que a academia do plano básico não cobre isso. Marina para junto. Ela não precisa parar, e para mesmo assim, e ele registra o gesto sem comentar.

A basculante do quinto é a única que dá para o poço interno, então ali é mais escuro que o resto. Eles ficam sentados nos degraus, cada um com o balde entre os joelhos, e o prédio faz aqueles barulhos que só aparecem quando o resto se cala: uma porta em algum lugar, um cachorro no oitavo, água pingando em cano vazio.

— Trinta e um por cento — ela diz, mostrando a tela. — Era o que eu tinha quando começou.

— E agora?

— Dezenove. Porque eu fiquei olhando pra ele sem motivo nenhum.

— Desliga.

Ela desliga. O patamar fica no cinza que vem do poço, e demora uns quinze segundos até os dois enxergarem de novo o contorno um do outro.

Ninguém se levanta.

· · ·

O que Otávio vai lembrar depois é da ordem das coisas.

Que ela riu primeiro, de nada, do absurdo dos baldes. Que ele encostou o ombro no dela porque o degrau é estreito e não havia outro jeito de sentar, e que ela não afastou o ombro. Que passaram uns dois minutos falando de licitação, que é o assunto mais morto do mundo, e que os dois estavam prestando uma atenção completamente desproporcional.

Que ela levantou a mão e tirou a espuma seca do cabelo dele, um pouco de cada vez, como quem tira cascalho de um joelho ralado.

Que ele deixou.

Que a mão dela desceu do cabelo para a nuca e ficou ali um tempo que não é o tempo de tirar espuma nenhuma.

· · ·

O que Marina vai lembrar é do concreto.

Frio nas costas, granulado, com aquela textura de prédio velho que ninguém rebocou direito. O corrimão de ferro gelado. O balde que virou no terceiro degrau e desceu até o patamar de baixo fazendo um barulho que os dois ouviram e nenhum dos dois foi atrás.

Vai lembrar de ter pensado, com uma nitidez estranha, que a qualquer momento a luz podia voltar. Que existia um interruptor no mundo, na mão de um técnico da distribuidora a quilômetros dali, e que aquele técnico decidia quanto tempo aquilo ia durar.

Vai lembrar de ter torcido contra ele.

· · ·

A luz volta às onze e vinte.

Volta do jeito que sempre volta, tudo de uma vez: a lâmpada do patamar, o interfone dando um bipe de reinício, a bomba d'água engasgando no subsolo e depois pegando, e a televisão de alguém no sexto andar em volume de televisão de quem esqueceu o volume alto.

Eles estão sentados no quinto patamar. Um balde no lugar, o outro dois lances abaixo.

Otávio ainda tem espuma atrás da orelha esquerda. Marina descobre isso na luz e não fala nada, porque contar agora seria um jeito de encerrar o assunto.

— Onze e vinte — ele diz, olhando o relógio do interfone pela porta aberta do corredor. — Três horas e dez.

— Você contou?

— Contei agora.

Ela se levanta e alisa a bermuda, e o gesto não resolve nada, e os dois sabem.

· · ·

Marina sobe até o nono com o balde que sobreviveu.

A água do prédio voltou, então o balde não serve mais para nada. Ela deixa na área de serviço mesmo assim, cheio, e ele fica ali por seis dias antes de ela esvaziar.

No sábado seguinte, no elevador, ele pergunta o andar dela.

Ela responde o andar.

A luz volta às onze e vinte. Ninguém pediu.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

Fazer o teste

Continue lendo

I

O elevador parou no sétimo

Ela apertou o oito. Ele apertou o doze. Entre os dois andares havia trinta segundos, e depois não havia mais nenhum.

5 min
IV

O voo das onze não saiu

Dois vouchers de vinte e dois reais, um voo cancelado e um corredor de hotel com duas portas a três metros uma da outra.

6 min
XXVIII

A travessia das quatro

Seis horas de travessia viraram quinze. A cabine de quatro beliches tinha sido vendida duas vezes.

7 min