Conto XXVIII
A travessia das quatro
03h07.
Desembarque com nove horas de atraso sobre o horário impresso na passagem.
A rampa desce com um estrondo de metal contra concreto e os primeiros carros começam a sair do convés de baixo. No terminal não há ninguém esperando. Quem ia esperar foi embora perto da meia-noite, e os que ficaram estão dormindo dentro dos próprios carros no estacionamento.
Teresa sai a pé, com a bolsa no ombro e a chave do carro da filha na mão, e vira à direita.
Ramiro sai dirigindo, onze minutos depois, e vira à esquerda.
A despedida aconteceu antes, no corredor das cabines, e durou quatro segundos.
01h20.
A cabine 12 tem quatro beliches, um ventilador de teto que não gira e uma janelinha redonda com trava enferrujada que dá para o nada, porque do lado de fora é água preta.
A empresa vende cabine por pessoa. Numa travessia lotada, quatro estranhos dormem ali. Nesta noite a balsa está com quarenta por cento da lotação, porque é terça, e a cabine 12 foi vendida duas vezes.
O beliche de baixo da esquerda tem colchão de espuma de oito centímetros e range no segundo movimento, nunca no primeiro.
Ninguém nos dois andares de cima teve o que ouvir, porque não havia ninguém nos dois andares de cima.
Às duas e dez ela levanta para procurar água e volta sem, porque a lanchonete fecha à uma e a máquina do corredor está com a moeda travada desde março, segundo o adesivo colado nela.
23h40.
O convés superior tem vento de través e uns doze graus, o que na ilha ninguém acredita quando se conta.
Eles estão os dois na amurada de bombordo com dois copos de café de máquina, que é o último café que a máquina deu antes de a moeda travar.
Ramiro atende a ilha uma vez por mês. É técnico de refrigeração e o contrato dele cobre as três câmaras do mercado, a do posto de saúde e a máquina de gelo da colônia de pescadores. Conhece a balsa, conhece a tripulação e sabe o nome do comandante.
Teresa faz essa travessia pela segunda vez na vida. A primeira foi em 2004.
Ela está levando o carro para a filha, que se mudou para a ilha em janeiro com um namorado que Teresa viu duas vezes e sobre o qual não tem opinião formada, o que ela repete três vezes na conversa, de um jeito que deixa claro que tem.
Conversam uma hora e vinte na amurada.
Falam do atraso, que já está esgotado como assunto. Falam de câmara fria, porque ela perguntou e ele é do tipo que responde a sério quando perguntam do serviço dele. Falam da ilha no inverno, que segundo ele fica com quatrocentas pessoas e três restaurantes abertos. E falam da filha, que é o assunto que ela quer de verdade e que ninguém na vida dela aguenta mais ouvir.
Não é uma conversa especial. É a conversa que duas pessoas de cinquenta anos têm quando estão presas no mesmo lugar e já falaram do atraso.
Em algum ponto ele diz que tem cabine. Ela diz que também.
Os dois ficam quietos, e o barulho que sobra é o do gerador.
21h15.
O comandante fala no alto-falante pela terceira vez e é a primeira vez que fala um número.
O motor auxiliar de bombordo parou às sete e meia. Com um motor, a embarcação navega, mas navega a seis nós contra uma corrente que naquele trecho dá três, e o que sobra de velocidade real transforma seis horas de travessia em quinze.
Ele diz "não há risco à segurança", que é a frase que se diz, e diz também que a lanchonete vai servir até uma da manhã, que é a informação que interessa às cento e dez pessoas a bordo.
Uma mulher perto da escada começa a chorar de raiva. Um homem tenta ligar para a mulher dele e não tem sinal, porque no meio do canal não tem sinal, e isso ele já sabia.
Teresa está sentada na fileira de cadeiras de plástico do salão com o celular em 12%.
Ramiro passa, olha para o celular dela, tira uma powerbank da mochila e estende.
Ela agradece e não pergunta o nome dele. O nome vem uma hora depois, no convés, e vem errado: ela entende Ramires.
18h30.
Fila da lanchonete, vinte e duas pessoas, dois funcionários.
Teresa está atrás dele e pergunta se o pastel de carne costuma ser bom.
Ele responde que não, que nada ali é bom, mas que o de queijo é o menos ruim porque sai mais e por isso é o mais fresco.
Ela pede o de queijo.
Essa é a primeira frase trocada entre os dois, e foi sobre pastel, e nenhum dos dois vai lembrar dela direito depois.
Nesse momento a travessia ainda está no horário. A previsão de chegada é dez da noite. Ninguém a bordo sabe de nada.
16h00.
A balsa sai do continente no horário, o que raramente acontece e naquele dia aconteceu.
Teresa embarca a pé porque o carro da filha já estava no convés de baixo desde as três, entregue por um serviço de transporte que cobrou quatrocentos reais e valeu cada centavo, na opinião dela.
Ramiro embarca dirigindo, na fila dos veículos de serviço, com uma caixa de ferramentas e três compressores no porta-malas.
Os dois passam pela mesma catraca com quatro minutos de diferença e nenhum dos dois olha para o outro, porque não há motivo nenhum para olhar.
Está sol. O mar está liso. A viagem vai durar seis horas.
Seis horas de travessia viraram quinze. A cabine 12 foi vendida duas vezes.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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