VesperaFicção adulta

Conto XII

Trem noturno, cabine 4

A cabine 4 da carruagem 22 mede um metro e oitenta por dois e dez. Dois beliches, um em cima do outro. Uma pia que dobra para dentro da parede. Uma tomada. Um cabide de arame soldado no metal, que não sai.

Os dois beliches são vendidos separados, e quem viaja sozinho às vezes tem sorte e às vezes não.

Ela entra às 21h04, em Santa Apolónia, com uma mochila e uma sacola de papel do Pingo Doce. Confere o número na porta. Confere o bilhete. Põe a mochila no beliche de baixo e a sacola no chão.

Ele entra às 21h19, no mesmo vagão, com uma mala de rodinha que não passa direito pela porta. Ele vira a mala de lado. Passa.

— Boa noite.

— Boa noite.

Ele olha o beliche de baixo, que tem uma mochila. Olha o de cima, que está vazio. Põe a mala embaixo do de baixo, porque é onde cabe.

O comboio sai às 21h34, com sete minutos de atraso.

· · ·

Nos primeiros quarenta minutos nenhum dos dois fala.

Ela fica sentada no beliche de baixo com as costas na parede e os joelhos dobrados, olhando o celular. Ele fica de pé no corredor, do lado de fora da porta aberta, com o cotovelo no vidro da janela.

A luz do corredor é amarela. A da cabine é branca e tem dois níveis: o botão de cima e o botão de baixo.

Às 22h11 o revisor passa. Os dois entregam o bilhete e o passaporte. O revisor devolve os dois passaportes trocados, e eles trocam de volta, e essa é a primeira vez que um encosta na mão do outro.

— Obrigada.

— De nada.

Às 22h26 ela abre a sacola de papel. Tira um pacote de bolacha, uma garrafa de água e uma laranja.

Ela descasca a laranja em cima do papel, em espiral, sem quebrar a casca.

Ele está na porta olhando isso.

— Isso aí é habilidade.

— É a única coisa que meu avô me ensinou.

Ela parte a laranja ao meio e estende metade. Ele entra na cabine para pegar. Fica de pé, come, e não volta para o corredor.

· · ·

Às 23h40 o comboio para em Coimbra por seis minutos. Fora da janela tem uma plataforma vazia, uma máquina de café e um homem de colete refletor com um rádio.

Dentro da cabine 4 os dois estão sentados no beliche de baixo, um em cada ponta, com as costas nas paredes opostas e os pés quase se tocando no meio.

Ela está com a garrafa de água entre as mãos.

— Onze horas — ele diz.

— Onze e meia, com o atraso.

— Você dorme em trem?

— Nunca.

— Nem eu.

O comboio anda de novo. A garrafa dela, que estava em pé no chão, cai e rola até bater no pé dele. Ele para a garrafa com o pé e não devolve.

Ela olha a garrafa. Olha o pé dele. Não pede de volta.

· · ·

Às 00h12 ele levanta e aperta o botão de baixo, e a luz branca da cabine cai para o nível fraco. Ele não pergunta antes.

Ela não reclama depois.

Às 00h14 ela puxa a cortina da janela até o fim, e o corredor, que já estava vazio, para de existir.

Às 00h15 ele fecha a porta e gira a trava.

A trava da cabine 4 faz um estalo metálico que se ouve do lado de fora, no corredor, e ninguém no corredor está ouvindo.

· · ·

O beliche de baixo tem oitenta centímetros de largura.

Um sapato cai no chão às 00h31. O outro cai às 00h33.

Às 00h40 a mochila que estava no beliche vai para cima da mala, e a sacola de papel do Pingo Doce é empurrada para debaixo do beliche com o pé, e a casca de laranja em espiral fica lá dentro pelo resto da viagem.

O trem em movimento produz um balanço lateral de período curto e um solavanco maior nas junções de trilho, e o beliche de baixo, que é preso na parede por dois suportes de aço, transmite tudo isso para quem está em cima dele.

Às 01h02 alguém no corredor passa arrastando uma mala. A cabine 4 fica quieta por quatorze segundos. Depois não fica mais.

Às 01h20 a luz de nível fraco também apaga. O botão está do lado da parede, na altura do ombro de quem está deitado, e o cotovelo de alguém acerta ele por acidente.

Ninguém acende de volta.

· · ·

Às 04h50 o comboio para na fronteira. Vilar Formoso. A parada é longa: troca de tração, troca de equipe, e um cheiro de graxa quente que entra pela grade de ventilação.

A cortina continua fechada.

Às 05h02 alguém bate na porta da cabine 4 e diz uma frase em espanhol sobre documentos. A voz que responde de dentro diz que já foram conferidos. A pessoa do lado de fora diz obrigado e vai para a cabine 5.

Às 06h30 começa a clarear. A cortina tem uma folga de dois dedos na base, e por essa folga entra uma faixa que atravessa o chão, sobe pela parede e para na borda do beliche de cima, que continua vazio, com o colchão intacto e o travesseiro no plástico.

· · ·

Às 08h44 o comboio chega a Hendaia.

Ela desce primeiro, com a mochila e sem a sacola. Ele desce quarenta segundos depois, com a mala que não passa direito pela porta.

Na plataforma eles ficam parados a um metro e meio um do outro. Ela mexe na alça da mochila. Ele olha o painel de horários e depois olha para ela.

— Eu vou pra Bordéus.

— Eu fico aqui até quinta.

Nenhum dos dois pega o celular.

Passam onze segundos.

— Quinta — ele diz.

— Quinta.

Ele entra na estação. Ela fica na plataforma até o trem dela ser anunciado, e o trem dela é anunciado às 09h06.

A equipe de limpeza entra na carruagem 22 às 09h10. Na cabine 4 recolhem uma garrafa de água vazia, um pacote de bolacha pela metade e uma casca de laranja inteira, em espiral, que um dos rapazes levanta contra a luz antes de jogar fora.

A trava faz um estalo que se ouve do corredor. Ninguém estava ouvindo.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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XXVIII

A travessia das quatro

Seis horas de travessia viraram quinze. A cabine de quatro beliches tinha sido vendida duas vezes.

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IV

O voo das onze não saiu

Dois vouchers de vinte e dois reais, um voo cancelado e um corredor de hotel com duas portas a três metros uma da outra.

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III

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Do outro lado do poço de luz, a cortina nunca fechava por completo. Levou quatro meses até um dos dois acenar.

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