Conto III
A vizinha da frente
O prédio era antigo, desses com poço de luz no meio, e o apartamento dela ficava exatamente de frente para o dele. Doze metros de ar entre duas janelas. À noite, com as luzes acesas, doze metros não são nada.
Ele se mudou em março, para um apartamento alugado mobiliado, com uma mesa de jantar que ele nunca usou e um sofá de veludo cor de mostarda que não era escolha de ninguém. Trouxe três caixas. Duas continuavam fechadas em julho.
O poço de luz funciona como uma caixa de som mal ajustada. Ele aprendeu, nas primeiras semanas, que o cachorro do quarto andar late para o elevador, que o casal do sexto discute aos domingos por volta das duas, e que alguém em algum lugar toca violão sempre as mesmas quatro músicas e nunca termina nenhuma.
Levou uma semana para reparar a cortina.
Ela nunca fechava por completo. Sempre um palmo aberto, sempre do mesmo lado. No começo ele achou descuido. Depois de um mês, parou de achar.
Ela chegava por volta das dez. Acendia a luz da cozinha, nunca a da sala. Tirava os brincos primeiro, sempre os brincos, e deixava em cima da bancada, num pires de café que devia estar ali havia anos.
Ele sabia disso do jeito que se sabe as coisas que a gente não admite estar olhando.
Em abril ela começou a demorar mais.
Não foi nada declarado. Foi o tipo de mudança que só existe para quem está prestando atenção, e ele estava. Onde antes ela atravessava a cozinha em vinte segundos, agora encostava na bancada e ficava. Olhava o telefone sem mexer nele. Uma vez ficou quatro minutos parada, de costas para a janela, e ele contou os quatro minutos inteiros com o coração batendo de um jeito ridículo para um homem de trinta e oito anos olhando uma parede de vidro.
Em maio ela deixou a cortina um palmo mais aberta.
Ele fez uma lista mental do que sabia sobre ela, e a lista era ao mesmo tempo grande demais e vazia. Que bebia chá, não café, apesar do pires. Que tinha uma planta pendurada que estava morrendo devagar desde abril. Que dormia com a televisão ligada nas noites de quinta. Que morava sozinha, ou pelo menos que nunca teve mais ninguém naquela cozinha em quatro meses.
Não sabia o nome dela. Não tinha perguntado ao porteiro, e a razão de não ter perguntado era exatamente o problema.
Ele testou uma teoria.
Numa terça, apagou a luz da própria sala às dez e cinco, e ficou no escuro como um adolescente. Do outro lado, ela entrou, acendeu a cozinha, tirou os brincos. E então parou.
Virou o rosto na direção da janela dele. Olhou para o escuro por uns bons dez segundos.
Depois apagou a luz da cozinha também.
Ele passou o resto daquela noite sem conseguir ler uma linha do livro que estava na mão. Às duas da manhã foi até a janela outra vez. O apartamento dela continuava apagado, e mesmo assim ele teve a impressão absurda de que os dois estavam fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo, cada um do seu lado dos doze metros.
Levou até julho.
Foi numa sexta de chuva, dessas em que o poço de luz vira caixa de som de verdade e a água bate no vidro sem parar. Ele estava na janela com uma taça na mão, olhando a chuva mais do que qualquer outra coisa, quando ela apareceu.
Não acendeu a cozinha. Foi direto para a janela.
Ficou ali, doze metros na diagonal, com a luz do corredor atrás dela recortando a silhueta, e olhou. Sem disfarce, sem virar o rosto para um telefone inexistente. Olhou do jeito que ele vinha olhando havia quatro meses e nunca tinha tido coragem de assumir.
Ele levantou a mão.
Foi um gesto pequeno, quase constrangido. Meia mão, altura do peito, o aceno de quem não sabe se está fazendo a coisa certa.
Ela levantou a dela. Inteira. Sem constrangimento nenhum.
E então, sem pressa, puxou a cortina e fechou.
Ele ficou olhando o pano parado. Sentiu o estômago descer. Quatro meses, e ele tinha estragado tudo com meia mão levantada.
Trinta segundos depois, o interfone tocou.
— Sou eu — disse a voz, e ele não precisou perguntar quem era eu.
Ela subiu descalça. Ele reparou nisso quando abriu a porta: os pés descalços no corredor frio, o cabelo molhado nas pontas de ter atravessado o poço aberto entre os dois blocos.
— Quatro meses — ela disse.
— Você contou também?
— Eu comecei antes de você.
Ela entrou sem esperar convite. Andou até a janela, aquela janela, e olhou para o próprio apartamento do outro lado, agora com a cortina fechada, agora do ângulo dele.
— É isso que você vê — disse. Não era pergunta.
— É.
— Todo dia às dez.
— Nem todo dia.
Ela virou. Estava sorrindo, e o sorriso não tinha nada de tímido.
— Todo dia — repetiu. — Eu sei porque eu deixava a cortina aberta de propósito, e eu ia saber se você não estivesse olhando.
Ele não teve o que responder. Ela deu dois passos e resolveu o assunto por ele.
A chuva continuou a noite inteira.
Ela se chamava Vera. Ele descobriu isso depois, o que na ordem das coisas daquela noite fez todo o sentido.
Em algum momento eles chegaram perto da janela de novo, e ela riu do absurdo de estar daquele lado do vidro. Ele apagou a última luz acesa. No escuro os doze metros deixavam de existir de vez.
O sofá cor de mostarda, que não era escolha de ninguém, serviu.
De manhã ela vestiu a camisa dele para atravessar de volta. Parou na porta.
— A planta pendurada está morrendo — ele disse.
— Eu sei. Desde abril.
— Rega demais.
Ela ficou olhando para ele por um segundo, com uma cara difícil de ler.
— Hoje à noite eu deixo aberta — disse.
— A cortina?
— A porta.
Doze metros e quatro meses. E a cortina sempre um palmo aberta.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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