VesperaFicção adulta

Conto XV

A mudança do apartamento 62

A gente combinou sábado às nove porque sábado às nove é o horário das pessoas que querem resolver rápido uma coisa que já devia estar resolvida.

Tinha terminado em maio. Aquilo era agosto. No meio dos dois meses houve quatro mensagens sobre conta de luz, uma sobre um pacote que chegou no endereço errado, e nenhuma sobre o resto.

O 62 é de dois quartos, com uma janela boa na sala e um piso de taco que rangia num ponto específico do corredor, sempre o mesmo, que a gente aprendeu a desviar sem perceber que estava desviando.

Nós dois ainda tínhamos a chave. Esse é o dado que explica tudo o que vem depois.

· · ·

Catorze caixas. A gente comprou catorze e usou treze, o que é a única vez na vida em que alguém superestimou uma mudança.

O sistema era simples e foi combinado por mensagem: duas pilhas, uma perto da porta e outra perto da varanda. Quem quisesse o objeto colocava na sua pilha. Objeto que ninguém quisesse ia para uma caixa de doação.

Funcionou até a metade da estante.

Os livros foram tranquilos. Cada um reconheceu os seus pela lombada e pelo estado, e os dois ou três de fronteira foram resolvidos com aquela generosidade meio agressiva que a gente usava quando estava tentando provar alguma coisa um para o outro.

— Leva.

— Não é meu.

— Leva assim mesmo.

Depois veio a caixa dos cabos, que é a caixa que toda casa tem e ninguém abre. A gente abriu. Tinha um carregador de um celular que nenhum dos dois tinha mais, um cabo HDMI, e um ingresso de cinema de 2021 dobrado no fundo, sem motivo nenhum para estar ali.

Nenhum dos dois falou nada sobre o ingresso.

Ele foi para a caixa de doação, o que é uma coisa que ninguém doa.

· · ·

Às onze e meia a gente parou para comer.

Não tinha nada na casa. A geladeira já estava desligada com a porta encostada num pano, do jeito que se faz, e o mercado da esquina vendeu para a gente duas coxinhas e uma garrafa de refrigerante de dois litros porque não tinha de menos.

A gente sentou no chão da sala, de costas para a parede, com a garrafa entre nós.

É um detalhe idiota, mas os dois sentaram no mesmo lado da sala. Tinha três paredes vazias disponíveis.

A conversa foi razoável por uns quinze minutos. Trabalho, a irmã dela, um cachorro de um amigo que tinha morrido. Depois teve um silêncio, e no silêncio ficou muito claro que a casa estava vazia, que era sábado, e que ninguém tinha combinado hora de terminar.

— A gente foi bem hoje — ele disse.

— A gente sempre foi bom nisso.

— Em quê?

— Em tarefa. A gente é ótimo em tarefa.

Isso era verdade e era o problema inteiro, e os dois riram porque rir era mais barato do que a alternativa.

· · ·

O quarto foi por último de propósito, e a gente sabia disso desde as nove da manhã sem ter dito em voz alta.

O colchão ficava. Estava combinado por mensagem: o colchão era dela, mas ela ia para um lugar mobiliado, então o colchão ficava para o próximo inquilino ou para a portaria resolver.

Ele estava no chão, sem cama, porque a estrutura já tinha sido desmontada e encostada na parede.

A gente ficou de pé olhando aquilo por um tempo que passou de razoável.

— O lençol eu levo — ela falou.

— Leva.

— Mas não hoje.

Ninguém disse mais nada depois disso, e o taco do corredor não rangeu, porque nenhum dos dois saiu do quarto.

· · ·

Se alguém perguntar como foi, a gente vai dizer que foi como sempre foi, e isso é mentira.

Foi melhor. Foi muito melhor, e as duas pessoas envolvidas sabem exatamente por quê: porque não tinha nada depois. Nenhuma conversa pendente sobre o fim de semana, nenhuma discussão adiada, nenhum cálculo sobre quem estava mais cansado.

Um apartamento sem cortina de tarde é uma coisa muito clara. A gente não fechou nada, e o prédio da frente tem trinta janelas, e às três da tarde de um sábado de agosto isso não importou para nenhum dos dois.

Teve um momento em que ela riu do próprio joelho, que escorregou no plástico do colchão, e ele riu junto e os dois pararam por uns bons trinta segundos sem se soltar.

A gente nunca tinha rido no meio, nos quatro anos. Isso também é informação.

· · ·

Às cinco e vinte o caminhão do frete mandou mensagem dizendo que chegava em quarenta minutos.

A gente se vestiu com a pressa de duas pessoas adultas que já foram adolescentes e lembram como se faz.

Desceu as caixas em quatro viagens de elevador. No terceiro, ela ficou segurando o botão enquanto ele empilhava, e ele disse obrigado, e ela disse imagina, e os dois se comportaram como colegas de trabalho competentes.

O caminhão levou tudo às seis e dez.

· · ·

Ficou ele, ela e o apartamento vazio com o colchão sem lençol no meio do quarto.

A gente parou na porta, do lado de dentro, com a chave na mão. Cada um com a sua.

— Deixa na portaria — ela disse.

— Deixo.

— Segunda-feira.

Ele disse que sim. Ela disse boa noite, e não deu tchau, e desceu de escada em vez de esperar o elevador, o que num prédio de seis andares é uma decisão sobre outra coisa.

As duas chaves foram entregues na portaria. A dela na segunda, às oito da manhã. A dele na quinta.

Três dias de diferença, num apartamento vazio, com um colchão no meio do quarto.

A gente nunca conversou sobre a quinta-feira.

As duas chaves foram devolvidas. Com três dias de diferença.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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