Conto XVIII
A aula noturna de quinta
Oficina de Escrita Criativa, turma das quintas, 19h30 às 22h. Oito encontros. Uma redação por semana, entregue impressa, devolvida com correções na aula seguinte. O que segue são as redações de uma aluna, na ordem, com o que veio escrito na margem.
Semana 2. Tema: descreva a sua rotina sem usar adjetivos.
Acordo às 5h50 porque o ônibus das 6h20 é o único que não lota. Trabalho num laboratório de análises clínicas, no setor de triagem, o que significa que eu recebo tubos, confiro etiqueta e separo por exame. Isso são oito horas. Almoço às 12h numa marmita que eu monto no domingo. Saio às 17h, pego o ônibus, chego em casa às 18h40 e nas quintas não chego: desço três pontos antes e venho para cá.
Tenho trinta e oito anos e isso é a primeira coisa que eu faço só para mim desde 2016.
Na margem, a caneta vermelha: "Sem adjetivo nenhum em oito linhas. É mais difícil do que parece e você fez sem esforço aparente. O 'nas quintas não chego' é o melhor recurso do texto. Guarde essa vírgula."
Semana 3. Tema: um lugar do qual você não conseguiu sair.
Fiquei onze anos casada com um homem que nunca gritou comigo. Escrevo assim porque toda vez que eu conto de outro jeito alguém pergunta se ele batia, e ele não batia, e a resposta decepciona.
A casa tinha um corredor de sete passos entre a cozinha e o quarto. Eu conheço esse corredor melhor do que conheço o meu próprio rosto. Sei em qual passo o piso é mais frio e onde a tinta descascou perto do rodapé, e sei que eu andava por ele fazendo o menor barulho possível sem que ninguém tivesse pedido isso.
Saí em 2023. Levei duas malas e a chaleira, que era minha.
Na margem: "A frase da chaleira encerra o texto sozinha. Não acrescente nada depois dela na próxima versão. E obrigado por confiar o assunto à turma."
Semana 5. Tema: uma decisão que você adiou.
Eu adiei aprender a nadar até os trinta e quatro anos. Adiei ir ao dentista por seis anos, o que me custou dois canais. Adiei dizer para a minha mãe que eu não ia ter filho, e ela morreu achando que ia acontecer, e eu não sei se isso foi covardia ou presente.
Estou adiando uma coisa agora e não vou escrever qual, porque a redação é lida em voz alta na aula e porque eu ainda não decidi se é uma decisão ou se é só uma quinta-feira.
Na margem: "O parágrafo final é o único do texto em que a sua sintaxe treme. Não corrigi de propósito. Deixe assim."
Abaixo, em letra menor: "Sua redação não foi lida em voz alta. Você não pediu, mas eu achei que não devia."
Semana 6. Tema: descreva uma pessoa por três objetos.
Uma caneta vermelha que não é dessas de professor, de plástico. É uma caneta de verdade, com peso, dessas que a pessoa compra uma vez e usa quinze anos. Ele apoia ela na mesa entre uma correção e outra e ela rola meio centímetro por causa do desnível da mesa da sala 4.
Um casaco cinza pendurado na cadeira desde a primeira aula, que nunca foi vestido, nem em junho.
Um pote de vidro com café solúvel que ele traz de casa porque o café da máquina do prédio é ruim. Na terceira aula ele ofereceu para a turma inteira. Na quinta ele ofereceu de novo, mas olhou para mim antes de perguntar se alguém queria.
Na margem: "Três objetos, exercício cumprido. Duas observações técnicas: o desnível da mesa é um detalhe que só quem repara em mesa repara. E o terceiro objeto não é um objeto."
Semana 7. Tema: escreva uma carta que você não vai enviar.
Não vou escrever uma carta. Vou escrever o que aconteceu na semana passada, e como isso não é carta, você pode corrigir sem responder.
Na quinta passada eu fiquei depois da aula porque a minha impressão tinha saído sem a última página. Você abriu o arquivo no seu notebook e imprimiu de novo na sala dos professores, e voltou, e a sala 4 estava vazia e eram dez e vinte.
Você me entregou a folha e não soltou.
Foram uns dois segundos. Provavelmente menos. Eu estava com a mão na folha e você estava com a mão na folha e nenhum dos dois puxou, e depois você soltou e disse boa noite, e eu desci as escadas do jeito de quem desce escada normalmente.
Eu tenho trinta e oito anos e passei três dias pensando numa folha de papel.
Na margem, e é a única vez em oito semanas que a letra sai da margem e ocupa o rodapé inteiro:
"O texto está correto. Não tenho o que corrigir aqui.
Sou seu professor até dia 26, quando eu lanço as notas. Isso não é formalidade e não é desculpa; é a única coisa que eu tenho para segurar, e eu estou segurando desde a semana 3.
No dia 27 eu não sou mais nada seu.
Você faz um café melhor que o meu? Porque o meu é ruim e eu sei disso."
Semana 8. Redação final. Tema livre.
Entreguei uma folha em branco com o meu nome no canto e um endereço embaixo.
Tirei nota máxima, o que eu contestaria se fosse outra pessoa.
Dia 27.
Ele chegou às oito e dez com o pote de café solúvel debaixo do braço, o que foi a coisa mais engraçada que aconteceu comigo naquele ano inteiro, e ficou parado na porta segurando o pote com as duas mãos como se fosse um documento.
Eu perguntei se ele ia entrar.
Ele disse que sim, e não entrou, e ficou mais uns quatro segundos ali com o pote, e eu entendi que ele estava esperando alguma coisa que não era um convite verbal.
Meu corredor tem quatro passos. Eu não sei em qual deles o piso é mais frio, porque eu moro aqui há dois anos e nunca precisei aprender a andar em silêncio.
A caneta vermelha ficou no bolso do casaco cinza, e o casaco cinza, pela primeira vez em oito semanas, saiu de cima de uma cadeira.
Ele te entregou a folha. E não soltou.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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