Conto V
A aula de dança das quartas
O salão fica em cima de uma farmácia, e nas quartas-feiras às oito da noite o chão ainda está quente do sol da tarde. Tomás sobe os dois lances de escada com a camisa já grudando nas costas. É a quarta vez. Ele conta.
A irmã pagou o pacote de oito aulas em abril, quando ele passou onze dias sem sair de casa, e disse que era presente de aniversário. O aniversário dele é em setembro. Os dois deixaram a mentira em pé porque era conveniente para todo mundo.
Cléo, a professora, bate palma duas vezes e o grupo se organiza em duas fileiras. Homens de um lado, mulheres do outro, e a cada oito compassos todo mundo anda um lugar para a direita. É assim que a aula funciona: ninguém fica com ninguém.
Íris está na terceira posição da fileira de lá.
Ela não é da turma dele. É da avançada das terças, e vem nas quartas para ajudar com os iniciantes, o que na prática significa que ela passa a aula inteira corrigindo braço de homem que nunca dançou.
Quando chega a vez dela, ela pega a mão de Tomás e reposiciona sem pedir licença.
— Aqui não — diz, empurrando a palma dele da omoplata para as costelas. — Aqui você manda. Ali você só encosta.
Ele tenta processar isso como informação técnica. Funciona por uns dois compassos.
Ela cheira a eucalipto. Ele descobre na segunda quarta-feira que ela carrega um inalador de menta preso na alça do sutiã, por causa de sinusite, e passa o dedo no pulso quando o nariz fecha. O cheiro fica ali. É a coisa mais específica que ele sabe sobre ela e ele sabe mais do que gostaria de admitir.
Oito compassos passam. Ela anda um lugar para a direita. Ele fica com uma senhora chamada Dulce que dança olhando para os próprios pés e pede desculpa quando erra.
Entre uma quarta e outra, Tomás pratica na cozinha. Descobre que o piso frio ajuda e que a mesa atrapalha, e passa a empurrar a mesa contra a geladeira nas noites de segunda. A vizinha de baixo bateu no teto com cabo de vassoura duas vezes em maio. Ele não parou de praticar. Só passou a praticar de meia.
Conta os passos em voz baixa. Um, dois, três, pausa. Erra sempre na pausa.
Terceira quarta-feira. Cléo põe uma música mais lenta e manda todo mundo parar de contar.
— Vocês não estão dançando — ela diz. — Vocês estão fazendo prova.
Quando Íris chega no lugar dele, ela não corrige nada. Só encosta a testa perto do ombro dele, sem tocar, e espera.
— Fecha o olho — ela diz.
— Eu vou pisar em você.
— Vai.
Ele fecha. Pisa. Ela não reclama. Na segunda tentativa ele sente o peso dela mudar meio segundo antes do passo e entende, sem que ninguém explique, que conduzir não é empurrar, é avisar. O corpo dela responde. É a primeira vez em quatro semanas que a música e ele estão no mesmo lugar ao mesmo tempo.
Quando abre os olhos, ela está olhando para ele com uma expressão que não é de professora.
Oito compassos. Ela anda para a direita. Dulce pede desculpa por nada.
Quarta quarta-feira. Chove desde as cinco.
Tem um papel colado na porta de vidro lá embaixo, na altura da maçaneta, escrito à mão: AULA CANCELADA HOJE — filho da Cléo com virose. A fita adesiva está mal passada e uma ponta já soltou.
Tomás lê duas vezes. Está com a camisa encharcada do ombro até o cotovelo, o guarda-chuva dele virou na esquina da Bento Freitas, e ele fica ali parado, na porta, sem saber por que não vai embora.
— Ninguém avisou você também.
Íris está atrás dele, embaixo da marquise da farmácia, com o cabelo colado na testa.
— Ninguém avisou.
— Ela mandou no grupo às sete e vinte.
— Eu saí do grupo.
Íris ri. Tira do bolso um molho com três chaves, porque ela ajuda a fechar o salão nas terças e nunca devolveu a cópia.
— Sobe.
O salão sem gente é maior. Sem os ventiladores ligados dá para ouvir a chuva batendo na claraboia e o ronco do freezer da farmácia através do piso.
Ela apoia o celular em cima do rack de som e põe uma música. O som sai fino, sem grave nenhum, e não faz a menor diferença.
— Vem.
Ele vai. A mão dele encontra as costelas dela, no lugar certo, e ela levanta a sobrancelha porque ele acertou de primeira.
Dançam quatro minutos sem falar. Ninguém anda para a direita.
Ela é meia cabeça mais baixa que ele e mesmo assim é ela quem decide para onde os dois vão. Tomás percebe isso no terceiro giro e resolve não comentar, porque comentar estragaria.
Tem uma listra de fita crepe velha colada no chão, que a Cléo usa para alinhar as fileiras. Eles passam por cima dela quatro vezes.
Quando a música acaba, o celular passa para a seguinte, e nenhum dos dois se move para atender a mudança de ritmo. Ficam parados no meio do salão, encaixados, e a única coisa que continua acontecendo é a respiração dela contra a base do pescoço dele.
— Eu vim aqui achando que ia ter aula — ele diz.
— Eu vim sabendo que não tinha.
Ele demora um segundo. Ela não deixa o segundo terminar.
A parede do fundo é toda espelho, e é contra o espelho que ele a encosta, o que significa que ele vê as próprias mãos duas vezes: uma na cintura dela, outra refletida, chegando por trás como se fosse de outro homem.
Ela puxa a camisa molhada dele pela gola. O tecido resiste, ela ri do tecido, e o riso morre na boca dele.
Ele repara, com uma nitidez que vai incomodar depois, que ela está descalça e que as unhas do pé estão pintadas de um vermelho quase preto, descascado no dedo do meio. Ninguém pinta o pé para dar aula de dança numa quarta-feira.
O eucalipto está no pulso, na dobra do cotovelo, atrás da orelha. Ele encontra os três lugares.
O chão de tábua corrida range em dois pontos específicos do salão. Eles descobrem os dois.
A chuva não para. A luz de emergência sobre a porta pinta uma faixa esverdeada no espelho, e por cima dela passa, de tempos em tempos, o farol de um carro subindo a rua. Fora isso, escuro.
Às dez e vinte ela desce para fechar a grade da farmácia com o vigia, porque prometeu, e sobe de novo com dois picolés de limão que o vigia deu.
Sentam no chão do salão com as costas no espelho.
— Semana que vem tem aula — ela diz.
— Tem.
— Você vai continuar trocando de par a cada oito compassos.
— Vou.
Ela morde o picolé em vez de chupar, o que ele acha uma barbaridade e não comenta.
Na quarta seguinte ela está lá, na terceira posição da fileira de lá, corrigindo braço de homem que nunca dançou. Quando chega a vez dele, ela põe a mão dele nas costelas e diz aqui você manda, exatamente como na primeira vez, com a mesma voz de professora.
Tomás nunca descobriu se ela tinha visto o aviso na porta antes de sair de casa. Perguntou uma vez. Ela mudou de assunto para o filho da Cléo, que melhorou.
Ele aprendeu a conduzir. Aprendeu tarde.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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