Conto VIII
A oficina fecha às seis
Meu carro é um Palio 2009 e faz um barulho. Não é um barulho grave. É um chiado curto quando eu ligo de manhã com o motor frio, dura uns oito segundos e some.
Meu pai teve oficina em Diadema por vinte e dois anos. Eu passei a infância inteira embaixo de carro segurando lanterna. Eu sei o que é aquele barulho.
A oficina do Zé Bento fica na rua de trás da minha, abre às sete e fecha às seis, e quem atende é o Nando.
— Bomba d'água — ele diz, na primeira visita, sem nem abrir o capô direito.
— Tensor da correia.
Ele me olha do jeito que homem olha quando a mulher fala uma palavra que ele não esperava.
— A senhora entende de carro?
— Não me chama de senhora.
— A moça entende de carro?
— Pior.
Ele troca a bomba d'água. Duzentos e oitenta reais mais mão de obra.
O barulho continua.
Eu volto na quinta seguinte às cinco e quarenta da tarde, de propósito, porque quero ver a cara dele com o expediente acabando.
Ele escuta o motor. Fica agachado do lado do para-lama com a mão na tampa do cabeçote, e eu fico em pé com os braços cruzados sem falar nada, o que é uma forma de crueldade que eu aprendi com meu pai.
— Não é a bomba — ele diz.
— Que pena.
— Tá bom. Fala.
— Tensor.
— Tensor.
— Aquele barulho é o rolamento do tensor com folga. Frio ele chia, esquenta e dilata, para de chiar. Oito segundos.
Ele levanta. Limpa a mão num pano que não limpa nada.
— Se for tensor, o serviço é por minha conta.
— Se for tensor você me paga um lanche.
— Se for tensor eu te pago dois.
A peça demora nove dias pra chegar porque o fornecedor mandou o modelo do 1.4 e o meu é 1.0.
Nesses nove dias eu passo na oficina três vezes. Duas eu não precisava.
Na segunda vez ele está com meio motor de uma Saveiro aberto na bancada, as peças alinhadas em cima de um papelão na ordem exata em que saíram. Eu fico olhando aquilo por mais tempo do que a educação permite.
— Você organiza assim porque tem medo de esquecer.
— Eu organizo assim porque uma vez eu esqueci.
Coisas que eu reparo no Nando entre a segunda e a terceira visita, em ordem de gravidade:
Ele tem um código de barras tatuado no antebraço esquerdo. Fez aos dezenove. Funciona: se você passar o leitor, dá leite condensado, marca nacional, lata de trezentos e noventa e cinco gramas. Ele já testou no mercado. Ele conta isso rindo de si mesmo, o que é uma qualidade rara em homem de trinta e cinco anos.
Ele guarda um caderninho onde anota o quilômetro de cada carro que passa pela oficina desde 2019.
E ele escuta motor com a cabeça de lado, um olho meio fechado, do mesmo jeito que meu pai escutava. Isso me irrita mais do que eu vou admitir em voz alta.
Meu pai morreu em 2021. Eu vendi as ferramentas dele pra um cara de Santo André por um preço que eu sei que foi ruim, fiquei com um alicate de bico e com o hábito de cruzar os braços quando alguém está errado.
Não é sobre isso. Eu sei que parece que é sobre isso. Não é.
Terça-feira. Cinco e cinquenta.
Eu chego e a peça está na bancada, tirada, com a caixa nova do lado. Ele coloca o rolamento velho na minha mão sem dizer nada. Eu giro. Tem folga. Tem tanta folga que dá pra ouvir.
— Dois lanches — eu digo.
— Você é insuportável.
— Meu pai também era.
O Zé Bento vai embora às seis em ponto porque a mulher dele faz jantar às sete. O outro rapaz saiu às cinco. Fica a gente, a oficina, e o portão de aço meio abaixado, na altura da cintura, do jeito que fica quando ainda tem alguém dentro.
Ele vai lavar a mão na pia do fundo. Eu vou atrás sem motivo nenhum.
O sabão da oficina é aquele em pasta, cor de areia, que raspa. Ele esfrega até o dedo ficar vermelho.
— Você vem aqui há três semanas por causa de um chiado de oito segundos — ele diz, de costas.
— Vim.
— O barulho já parou.
— Parou.
Ele fecha a torneira. Não vira.
— Então.
Eu não respondo, e o não responder ocupa mais espaço na oficina do que qualquer coisa que eu pudesse dizer.
Aí ele vira.
O escritório é um cubículo de três metros por dois com uma mesa de fórmica, um ventilador de coluna e um calendário de 2017 na parede, patrocinado por uma fábrica de amortecedores, com foto de uma moto.
Eu penso no calendário durante uns quatro segundos e depois não penso em mais nada.
Ele me levanta pela cintura e me senta na mesa, e a mesa reclama, e ele empurra o teclado e uma caneca vazia pro canto com o antebraço. A caneca cai. Ninguém olha.
A boca dele tem gosto de café com açúcar demais.
A mão dele ainda cheira a sabão de oficina, e isso deveria ser um problema, e não é.
Ele para no meio, com a mão na minha nuca, e pergunta se está tudo bem. Eu digo que sim. Ele pergunta de novo depois, mais baixo, e eu digo que sim de novo, e é disso que eu vou lembrar em fevereiro do ano seguinte, quando alguém me perguntar por que justo ele.
Em algum momento o compressor liga sozinho lá fora, aquele estouro seguido de um zumbido, e nós dois levamos um susto de verdade, e eu rio na boca dele com o coração a mil, e ele diz uma coisa que eu não escuto por causa do compressor.
Eu peço pra ele repetir. Ele não repete.
A cadeira do escritório é daquelas de rodinha, e por isso não serve pra nada, e a gente descobre isso da pior maneira possível, e é a única parte da noite que eu conto pras minhas amigas.
Sete e dez. Ele desce o portão até o chão por fora e tranca com cadeado.
A gente come pastel na feira da rua Bresser, em pé, porque as duas mesas de plástico estão ocupadas. Ele paga os dois, como combinado. Eu peço um terceiro e ele reclama e paga também.
— Fica devendo — eu digo.
— Eu que fico?
— Você trocou uma bomba d'água que não precisava.
Ele ri com a boca cheia. Não é bonito. Eu continuo olhando.
O carro está bom. Liga limpo, frio, quente, na chuva.
Em setembro eu ouço um estalo na suspensão dianteira quando passo na lombada da minha rua.
Eu vou levar na terça. Cinco e cinquenta.
Eu não vou dizer se o estalo existe.
O barulho parou em agosto. Ela voltou mesmo assim.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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