Conto VI
Plantão de sexta
Sexta-feira, décimo andar. Eu entrei às sete da noite e ia sair às sete da manhã. No papel são doze horas. Na prática são doze horas mais o tempo que leva para você conseguir dirigir.
A Marta pegou o mesmo plantão. Enfermeira, quinze anos de casa, quatorze a mais que eu.
Ela usa um elástico de cabelo no punho esquerdo. Não no cabelo. No punho. Quando fica irritada, puxa e solta. Faz isso desde antes de eu chegar no hospital e já deixou uma faixa mais clara na pele, do tamanho de um dedo. Eu reparei nisso no segundo mês. Levei mais um ano para perguntar. Ela disse que era mania de parar de fumar e que tinha parado de fumar em 2019.
Às oito e meia a máquina do quarto andar comeu duas moedas minhas. Ela me emprestou uma nota, dessas amassadas que ficam no bolso do jaleco.
— Não me paga — disse. — Eu prefiro que você me deva.
A noite estava boa. Boa em hospital quer dizer sem graça.
Leito 12: seu Anísio, oitenta e quatro anos, insuficiência cardíaca, internado havia nove dias. Todo plantão ele me perguntava se o Palmeiras tinha jogado. Toda vez eu respondia que não. Ele dizia "ah, então tá" e virava para a parede.
Meia-noite. Prescrições. Uma pressão que não subia num leito, uma família chorando no 7 por notícia que não era grave. Café da copa, que é ruim de um jeito específico, com gosto de garrafa térmica velha.
Uma e quarenta. A Marta sentou na cadeira do posto ao lado da minha e ficou olhando o monitor central sem ver.
— Você dorme quantas horas? — perguntou.
— Depende da semana.
— Essa semana.
— Depende do dia.
Ela riu com o nariz. Puxou o elástico. Soltou.
— Por que você pega sexta? — perguntei. — Você tem tempo de casa pra escolher escala.
— Porque sexta o pessoal some. Fica eu, um residente e o telefone.
— E isso é bom.
— No começo eu pegava terça. Terça tem gente demais. Tem chefia. Tem gente perguntando o que você está fazendo enquanto você está fazendo.
Ela ficou olhando o monitor central. Quatro traçados subindo e descendo fora de sincronia.
— E em casa? — eu perguntei.
— Em casa tem uma menina de dezessete que só responde por mensagem e um cachorro que ninguém passeia.
Ela falou isso com a mesma voz que usa pra dizer dose de medicação.
Três e doze.
O alarme do 12 tocou e ela chegou antes de mim, e eu cheguei antes do resto do andar, e depois disso teve doze minutos que eu não sei contar direito porque a memória não guarda em ordem. Sei que ajoelhei na cama. Sei que ela contava alto e que a voz dela era a única coisa firme no quarto. Sei que ela trocou comigo na compressão sem que ninguém pedisse, no tempo exato, e que a mão dela encostou nas minhas costelas quando passou.
Às três e vinte e quatro seu Anísio voltou.
Xingou a gente. Perguntou o que era aquilo tudo. Depois perguntou se o Palmeiras tinha jogado.
Alguém riu. Acho que fui eu.
Depois vem a parte que ninguém filma. Recolher embalagem do chão, ampola vazia, o adesivo do eletrodo grudado no lençol. A Marta trocou a roupa de cama com ele ainda deitado, rolando o corpo do velho de um lado pro outro do jeito que só enfermeira antiga sabe fazer, sem parecer que estava mexendo em ninguém.
Liguei pra filha dele às três e meia. Ela mora em Sorocaba. Chegou às seis e vinte, com a bolsa da farmácia ainda na mão.
Às quatro da manhã o corredor do décimo andar é a coisa mais silenciosa que existe numa cidade grande.
Eu estava encostado na parede fria, do lado de fora do 12, com a prancheta na mão, tentando escrever a evolução. A letra saía tremida. Parei de tentar.
Ela apareceu com dois copos de café e viu a minha mão.
— Normal — disse.
— A sua não treme.
Ela levantou a mão. Tremia.
Ficamos ali, os dois de costas para a parede, olhando a porta do elevador do outro lado do corredor. Não falamos por uns dois minutos. Isso nunca tinha acontecido entre nós dois, dois minutos sem falar.
— Sala de repouso — ela disse.
Não era pergunta e eu não tratei como pergunta.
A sala de repouso do décimo tem uma cama de solteiro com colchão fino, um armário de aço e uma fechadura que não fecha. A gente encostou o armário na porta. Levou quatro segundos. Eu conto os segundos até hoje.
Ela tirou o crachá antes de qualquer outra coisa e apoiou em cima do armário com cuidado, virado pra baixo.
Ela tirou o jaleco e ficou de blusa. Eu fui tirar o meu e ela tirou por mim, e a pressa dela era da mesma qualidade da pressa que tinha no quarto do 12: sem desperdício, sem gesto a mais, tudo no lugar certo na primeira tentativa.
O elástico continuou no punho. Eu senti ele nas minhas costas.
Ninguém disse nada de bonito. Ninguém disse quase nada. A luz de emergência do corredor entrava por baixo da porta e era só isso de luz, uma faixa amarela no chão, do tamanho de uma régua.
Em algum momento o rádio dela chiou no bolso do jaleco caído. Ela alcançou com o pé, empurrou pra debaixo da cama, e não parou.
O que eu lembro é do álcool gel na mão dela. É o cheiro do prédio inteiro, o cheiro de doze horas de trabalho, e naquele quarto de três metros virou outra coisa completamente diferente sem mudar nada.
Ela mordeu o próprio pulso, em cima do elástico, pra não fazer barulho. Depois desistiu de não fazer barulho.
A cama rangia. A gente parou de se importar bem cedo.
Vinte e três minutos. Eu sei porque quando saí o relógio do posto marcava quatro e quarenta e um.
Ela saiu primeiro. Prendeu o cabelo no elevador, olhando o reflexo na porta de aço, e quando o andar seguinte chamou ela atendeu com a voz de sempre.
Às sete eu passei o plantão. Seu Anísio estava sentado, comendo mingau, reclamando do mingau.
No estacionamento eu fiquei quinze minutos dentro do carro sem ligar. Não pelo que tinha acontecido na sala de repouso. Pelas três e doze.
Na sexta seguinte ela chegou às sete com dois cafés da padaria da esquina, não da copa.
Botou um na minha frente. Duas de açúcar. Ninguém tinha me perguntado quantas.
— Leito 12 recebeu alta terça — ela disse.
— Eu sei.
— Perguntou por você.
— Perguntou do Palmeiras.
— Também.
E foi trabalhar. Puxou o elástico uma vez, no meio do corredor, sem motivo nenhum que eu tenha conseguido identificar.
Duas de açúcar. Ninguém tinha perguntado.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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