Conto XXVII
Das três às cinco
A emissora pega num raio de quarenta quilômetros em dia bom. O programa da madrugada existe porque a legislação exige que a rádio fique no ar vinte e quatro horas, e sai mais barato pagar duas pessoas do que deixar rodando automação, que trava e ninguém percebe até as sete da manhã.
Marlene apresenta. Josué opera a mesa e faz a locução dos intervalos com uma voz de segunda pessoa que ela acha ridícula e nunca falou isso para ele.
São oito meses de segunda a sexta, das três às cinco.
O estúdio tem um vidro no meio. De um lado o microfone e a pauta, do outro a mesa de som, o computador e uma luz vermelha que acende quando o canal está aberto.
Quando a luz está apagada, o que se diz ali dentro não sai de lá.
Três e dois. Vinheta, e a luz acende.
— Três e dois da manhã, quinta-feira. Quem está acordado a essa hora ou tem um motivo bom ou tem um motivo ruim, e aqui a gente não pergunta qual dos dois. Josué, boa noite.
— Boa noite, Marlene. Boa noite a quem está na estrada.
— Chegou pedido pelo aplicativo. Uma moça de Rio Casca pedindo aquela de sempre.
— Aquela de sempre eu já separei.
A luz apaga.
— Você não separou nada.
— Separei agora.
— Você fala "eu já separei" toda quinta e toda quinta você está procurando na pasta enquanto fala.
— E funciona.
Três e trinta e quatro. Bloco de três músicas, seis minutos e meio de folga.
— Você cortou o cabelo.
— Terça.
— Ficou bom.
— Você viu na terça e falou hoje.
— Eu falei na terça também.
— Você falou "cabelo novo". Isso é constatação, não é elogio.
— Então ficou bom.
— Agora já foi.
Ela ficou olhando a tela do computador dele por cima do vidro, que é uma coisa impossível de fazer de onde ela estava sentada, e os dois sabiam disso.
Quatro e cinco. A luz acende.
— Quatro horas e cinco minutos. Uma mensagem aqui do seu Domingos, de Abre Campo, que está indo trabalhar e diz que ouve a gente desde o primeiro programa. Seu Domingos, a gente também ouve o senhor. Josué, o que vem agora?
— Vem um bloco calmo. A gente perdeu gente boa acordada até aqui e agora é hora de soltar quem quer dormir.
— Isso não faz sentido nenhum.
— Faz na madrugada.
A luz apaga.
— Um dia você vai falar uma dessas frases e alguém vai ligar reclamando.
— Ninguém liga. Você já viu telefone tocar aqui em oito meses?
— Vi. Em março.
— Era o seu Nivaldo perguntando se a chave estava no lugar de sempre.
— Era telefone tocando.
Ele riu com o microfone fechado, que é o único lugar onde ele ri.
Sobre o que se conversa numa madrugada dessas: quase nada. E o quase nada leva oito meses para virar assunto.
Nos dois primeiros meses eles falaram de escala, de vale-transporte, do gerente que aparece uma vez por quinzena e do ar-condicionado que pinga em cima do rack. No terceiro mês ela contou do divórcio em duas frases, entre uma música e outra, do jeito que se conta uma coisa quando não se quer que ela ocupe tempo. Ele não perguntou nada e no dia seguinte trouxe café em garrafa térmica, o que nunca tinha feito e nunca mais deixou de fazer.
É assim que se constrói qualquer coisa em rádio de madrugada. Em pedaços de seis minutos, com intervalo comercial no meio.
Quatro e vinte e um.
— Marlene.
— Oi.
— Por que você aceitou a madrugada?
— Porque pagava trinta por cento a mais e eu estava devendo o carro.
— Só isso?
— Você tem uma resposta melhor pronta?
— Tenho.
— Fala.
— Prefiro não.
— Então não pergunta.
Passaram os quatro minutos seguintes sem dizer nada, com a música rodando, e nenhum dos dois saiu da cadeira nem mexeu no celular, o que em oito meses de programa nunca tinha acontecido de um jeito tão comprido.
Quatro e quarenta e um. A luz acende pela última vez antes do fim.
— Quatro e quarenta e um. A gente vai entrar num bloco longo agora, e eu vou avisar por que: o Josué guarda uma faixa de nove minutos e vinte para emergência, e hoje a emergência sou eu, que estou sem voz nenhuma para falar mais coisa bonita a essa hora. Volto às cinco para me despedir.
— Nove minutos e vinte — ele confirmou. — Começa agora.
A luz apagou.
A porta que liga os dois lados do estúdio é de compensado, tem um fecho de tarraxa que ninguém usa e range no último terço do movimento.
Rangeu.
A cadeira dela é de rodinha e escorrega no piso, então não serviu para nada. A mesa de som tem oitenta centímetros de profundidade e é aparafusada na bancada. A bancada aguenta.
Sobre nove minutos e vinte segundos há duas coisas a dizer. É pouquíssimo tempo. E, quando é a única coisa que existe entre duas pessoas, é uma quantidade absurda de tempo.
Aos oito e quarenta ele voltou para a cadeira dele e preparou a vinheta.
Quatro e cinquenta e nove. A luz acende.
— Cinco horas menos um minuto. Foi bom estar com vocês. A partir de agora quem manda aqui é o seu Nivaldo, que já deve estar estacionando lá fora, e a gente se encontra de novo hoje à noite, três da manhã. Josué, boa noite.
— Boa noite, Marlene.
A voz dele estava exatamente igual à das três e dois. Ela reparou nisso e achou impressionante.
A luz apagou.
Seu Nivaldo entrou às cinco e quatro com a chave na mão e o casaco no braço, como entra desde 1998.
— Bom dia. Tá chovendo em Ponte Nova.
Ninguém respondeu.
— Tá chovendo em Ponte Nova — ele repetiu, pendurando o casaco no gancho atrás da porta. — Chega aqui umas seis. Se vier forte a antena chia, e quem vai ter que pedir desculpa por isso pro pessoal do interior amanhã de madrugada é vocês dois.
Oito meses das três às cinco. A emergência era uma faixa de nove minutos e vinte.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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