VesperaFicção adulta

Conto XI

O casamento do Rafael

O Rafael casou em 2019, num sítio a duas horas e meia da capital, e eu fui de carona com um casal que discutiu o trajeto inteiro sobre uma conta de energia. Eu tinha trinta e um anos. Achava que já sabia como funcionavam as coisas comigo, e essa é a parte que envelheceu pior.

Conto isso agora com uma clareza que eu não tinha na época. Na época era só um fim de semana chato com um traje que eu não usava desde a formatura.

A Dani estava na lista de convidados. Eu vi a lista porque o Rafael mandou no grupo pedindo ajuda com as mesas, e eu li o nome dela numa terça-feira de manhã, no escritório, entre dois e-mails de cobrança. Fiquei uns quarenta segundos parado. Depois respondi o e-mail.

É importante dizer que nunca aconteceu nada entre mim e a Dani. Isso é literalmente verdade e é completamente falso, e a distância entre as duas coisas é o assunto deste texto.

· · ·

A gente se conheceu aos vinte e dois, na faculdade, num grupo de umas dez pessoas que se via todo fim de semana. Teve um ano em que a gente conversava até as quatro da manhã em festa dos outros. Teve uma viagem para o litoral em que ficamos os dois acordados na varanda enquanto o resto dormia, e não aconteceu nada, e nos dois dias seguintes eu não consegui olhar direito para ela.

Depois ela começou a namorar o Bruno, e eu comecei a namorar a Letícia, e a gente se comportou como adulto, e adulto é o que a gente foi por nove anos.

Eu penso muito nessa palavra, comportar. Ela dá a entender que existia uma vontade sendo administrada.

· · ·

O casamento foi bonito de um jeito que não interessa aqui. Teve discurso do pai da noiva, teve uma tia dançando cedo demais, teve um garçom que era claramente sobrinho de alguém.

A Dani chegou atrasada, com um vestido verde, sozinha.

Eu soube do "sozinha" antes de saber do vestido, porque a informação de quem veio sozinho circula numa festa dessas com uma eficiência que nenhuma empresa consegue reproduzir.

A gente se falou pela primeira vez perto das dez da noite, na fila do bar. Ela perguntou se eu ainda trabalhava naquilo. Eu disse que sim, com a voz de quem pede desculpa. Ela riu e disse que também.

— Você continua com aquela mania de segurar o copo com as duas mãos — ela falou.

— Eu tenho mania de segurar o copo com as duas mãos?

— Nove anos, e você não sabe disso sobre você.

Eu olhei para as minhas mãos. Estavam as duas no copo.

· · ·

A pousada ficava a oitocentos metros do sítio, e o Rafael tinha bloqueado o andar inteiro para os convidados de fora. Doze quartos num corredor só. Isso é uma decisão logística que ninguém pensa duas vezes antes de tomar e que produz o resto desta história.

A festa acabou às três e dez.

Eu voltei a pé com um grupo de seis pessoas, todo mundo falando alto na estrada de terra, e a Dani estava com o sapato na mão porque o salto tinha desistido por volta da meia-noite. Ela andava na parte de grama do acostamento. Eu andava do lado dela porque em algum ponto dos oitocentos metros os outros quatro tinham ficado para trás e nenhum de nós dois comentou isso.

Tinha muito grilo. Eu lembro do barulho dos grilos com uma exatidão desproporcional.

— Eu quase não vim — ela disse.

— Por quê?

— Porque eu sabia que você vinha.

Ela falou isso olhando para frente, no tom de quem comenta o tempo, e continuou andando no mesmo ritmo. Eu levei uns dez passos para processar. Nesses dez passos eu tive tempo de pensar em três respostas diferentes e não usei nenhuma.

— A gente é muito burro — foi o que eu disse.

— A gente foi.

· · ·

O corredor da pousada tinha um carpete daqueles que abafam passo. A luz era de arandela, uma a cada dois quartos, e umas três estavam queimadas.

O quarto dela era o 11. O meu era o 14.

A gente parou na porta do 11 e ficou ali no que eu, na época, teria chamado de despedida. Ela ainda estava com o sapato na mão. Eu estava com o paletó no braço e a camisa aberta em dois botões, e nós dois estávamos com aquele cansaço específico de quem ficou seis horas de pé sendo simpático.

Ela não abriu a porta.

Essa é a parte que eu revisitei mais vezes nos anos seguintes: ela tinha a chave na mão, o cartão magnético, e não encostou o cartão na fechadura. Ficou segurando. E eu entendi, com uma nitidez que não tinha nada a ver com a quantidade de bebida, que a decisão inteira estava sendo deixada para mim, e que ela ia esperar o tempo que fosse.

Eu levei muito tempo. Provavelmente uns doze segundos. Pareceram outra coisa.

· · ·

O que eu lembro do quarto 11 não é sequência, é lista.

O sapato caindo no chão, um de cada vez, com um intervalo entre os dois. O ar-condicionado velho no dezoito, que era frio demais e que ninguém desligou. O zíper do vestido verde, que travou na altura da omoplata e me obrigou a parar, e ela rindo com a testa apoiada na porta enquanto eu resolvia aquilo com as duas mãos e uma paciência que eu não sabia que tinha.

Ela disse "com calma" uma vez, no começo, e não foi um pedido de velocidade. Era sobre outra coisa. Sobre nove anos, sobre não estragar aquilo com pressa de recuperar tempo que não dava para recuperar.

Lembro de ter pensado, em algum ponto da madrugada, que a gente estava fazendo tudo em silêncio por causa das paredes finas, e que isso deixava a noite parecida com a varanda daquela viagem aos vinte e dois. A diferença é que dessa vez ninguém foi dormir.

Às cinco e pouco começou a clarear no vão da cortina. Ela estava de bruços, com o braço em cima do meu peito, e falou sem levantar a cabeça:

— Eu estava com raiva de você desde 2012.

— Eu sei.

— Não sabe não.

— Não sei mesmo.

· · ·

O café da manhã da pousada ia até as dez. A gente desceu junto às nove e quarenta, e o Rafael, que tinha casado quatorze horas antes e por algum motivo estava de pé, olhou para nós dois e não disse absolutamente nada, o que foi o gesto mais elegante daquele fim de semana inteiro.

Eu voltei para a capital com o mesmo casal, que dessa vez discutiu sobre o Waze.

A Dani morava em Curitiba. Eu morava aqui.

Isso é o tipo de frase que a gente coloca no fim como se fosse explicação, e não é explicação nenhuma. Duas horas de avião não são nove anos.

· · ·

A gente se viu mais quatro vezes depois daquilo, ao longo de dois anos, sempre em cidade de terceiro, sempre por dois dias.

Não virou nada com nome. Ela casou em 2023, com um cara que eu não conheço e sobre quem eu não tenho o direito de ter opinião. Eu fui num casamento de novo no ano passado, de outra pessoa, e passei a festa inteira reparando em quem tinha vindo sozinho.

O que eu queria contar não é o quarto 11.

É que ela ficou doze segundos com o cartão na mão, esperando. Que existia uma versão daquela noite em que eu dizia boa noite e subia para o 14. Que essa versão era, do jeito que a gente vivia até ali, a mais provável das duas.

Eu penso nisso quando não consigo dormir. Não com culpa, e não com saudade.

Com susto.

Doze segundos com o cartão na mão. Ela esperou.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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