Conto IX
Biblioteca, quarto andar
Você chega ao quarto andar por eliminação, não por gosto. O térreo tem a cafeteria e a conversa que vem junto. O segundo é dos calouros, que estudam em grupo e acreditam que sussurrar resolve. O terceiro tem as impressoras, e impressora tem fila. Sobra o quarto, com os periódicos encadernados que ninguém abre desde que tudo virou arquivo, e um ar-condicionado antigo que faz um ruído contínuo por cima do resto.
São dezoito mesas. Na semana de provas, quinze estão ocupadas às nove da noite.
Você senta sempre na última à direita, colada na janela que dá para o estacionamento. Não é superstição. É a única com tomada boa.
Ele senta na terceira à esquerda. Você reparou nisso na segunda. Reparou de novo na terça. Na quarta você percebeu que já estava reparando antes de escolher onde sentar, o que é uma informação a seu respeito e não a respeito dele.
Ele estuda alguma coisa com tabelas. Dá para ver de longe: folhas soltas, colunas, caneta vermelha demais para ser boa notícia. Nas pausas ele não pega o celular. Fica olhando a parede por um minuto, às vezes dois, e volta. Você acha aquilo esquisito na segunda e acha raro na quarta, e depois para de classificar.
Quinta, dez e quarenta.
O acervo velho fica no fundo do andar, atrás de uma porta de vidro que não tranca. Lá dentro a luz é de sensor. Se ninguém se mexer, ela apaga em noventa segundos.
Você precisa de um volume de 1998 que a universidade nunca digitalizou, corredor F, prateleira de cima, e você está de tênis e mesmo assim precisa subir no primeiro degrau do banquinho de metal, que range, e o rangido naquele silêncio soa como móvel sendo arrastado.
— Desculpa.
Você não falou com ninguém em particular. Mas ele está no corredor G, do outro lado da mesma estante, e você só descobre isso porque ele responde.
— Não tem ninguém aqui pra incomodar.
Você desce do banquinho com o volume no braço. A estante é de metal, aberta dos dois lados, e onde você tirou o livro ficou um retângulo vazio na altura do seu peito. Pelo retângulo você vê a camisa dele. Cinza, gola aberta, um risco de caneta no bolso.
— 1998 — ele diz. — Tem alguma coisa boa em 1998?
— Tem um artigo que meu orientador citou e eu desconfio que ele não leu.
Ele ri. É um riso baixo, contido, de quem já foi mandado calar a boca naquele andar antes.
A luz apaga.
Noventa segundos é menos do que parece quando você está lendo um índice.
Escuro ali não é escuro inteiro. Vem alguma coisa do estacionamento pela janela do fundo, cinza, o bastante para você ver o contorno das estantes e não o que tem dentro delas. O sensor fica na ponta do corredor, virado para a passagem. Você estava de costas para ele.
— Se você andar até o meio, ela acende — ele diz.
— Eu sei como funciona.
— Sei que você sabe. Falei porque eu não vou andar.
Você fica parada. Não por decisão. Você fica parada porque decidir exigiria admitir que existe uma decisão ali, e por enquanto ainda dá para chamar aquilo de sensor mal calibrado.
O retângulo vazio na estante continua no lugar, na altura exata do seu peito, e é a única coisa que os dois têm em comum. Você pensa nisso com uma clareza que não combina com a hora.
— Você senta na terceira à esquerda — você diz.
— E você na última da janela.
— Por causa da tomada.
— Eu sei. Testei todas no primeiro semestre.
Ele fala devagar, sem pressa nenhuma de preencher pausa, e você percebe que está fazendo o mesmo. Ninguém no escuro está tentando parecer interessante. É a conversa mais confortável que você teve em três semanas.
A mão dele aparece no retângulo. Não avança. Fica apoiada na borda da prateleira, do lado dele, os dedos passando do meio da madeira para o seu lado por uns dois centímetros.
Você olha para aquilo por tempo suficiente para que já não seja uma pergunta.
Depois você põe o volume de 1998 na prateleira de baixo, com cuidado, porque livro caindo ali dentro acenderia o andar inteiro.
O que acontece nos vinte minutos seguintes acontece no escuro e sem barulho, que são as duas condições que aquele lugar impõe e que nenhum dos dois escolheu.
O metal da estante é frio nas costas da sua mão. A borda da prateleira marca. Ele descobre isso antes de você e muda o apoio, e essa é a primeira coisa que ele faz por você sem que precisasse.
Você aprende que dá para rir sem som. Que a manga de uma camisa cinza é mais grossa do que parece de longe. Que noventa segundos é uma unidade elástica: a luz não acende, e nenhum dos dois se mexe o bastante para acender, e você começa a achar que o sensor está do lado de vocês.
Em algum ponto ele fala o seu nome. Você não tinha dito o seu nome.
— Está na capa do seu fichário — ele diz, quando você pergunta. — Faz três semanas que está.
Onze e quarenta o segurança sobe. Bate duas vezes no batente da porta de vidro, sem entrar, e avisa que fecha à meia-noite, do mesmo jeito que avisa todo dia, para um andar que ele supõe vazio.
A luz do corredor acende quando ele passa a mão pelo sensor da porta.
Vocês estão a um metro um do outro, cada um do seu lado da estante, e o retângulo vazio continua entre os dois como uma janela pequena e mal colocada.
Ele tem uma marca vermelha no pescoço que vai levar umas quatro horas para sumir. Você tem pó de prateleira na manga inteira do lado direito.
— Sexta você vem? — ele pergunta.
— Sexta eu tenho prova.
— Eu sei. Perguntei se você vem.
Você devolveu o volume de 1998 na sexta de manhã, antes da prova. Encaixou no lugar certo, empurrou até alinhar com os outros, e o retângulo sumiu da estante como se nunca tivesse existido.
Na segunda seguinte a terceira mesa à esquerda estava ocupada por uma menina de fone.
Você sentou na sua, do lado da tomada, e às dez e quarenta levantou e foi até o corredor F.
Você não precisava de nada de lá.
A luz apaga em noventa segundos. Ninguém andou.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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