Conto XXII
O stand vizinho
A feira de embalagem ocupa três pavilhões do Expo Center Norte e acontece junto com um congresso técnico que quase ninguém assiste. São três dias. Terça, quarta e quinta, das dez às vinte.
Cida trabalhava numa fábrica de filme plástico de Cotia e ficou responsável pelo stand porque o gerente comercial teve pedra no rim na sexta anterior. Ela nunca tinha feito feira. Recebeu um crachá com o nome errado, "Aparecida" em vez de Cida, e passou os três dias sendo chamada assim.
O stand era o G-42, nove metros quadrados, com um balcão, dois banquinhos e um totem de lona.
O G-44, ao lado, era de uma empresa de máquinas de selagem de Caxias do Sul. Duas pessoas: um rapaz de vinte e poucos que ficou no celular os três dias, e o Wagner, quarenta e sete anos, dezenove de estrada, que montou o stand sozinho na segunda à noite.
Terça de manhã a tomada do G-42 não funcionava.
Isso é comum e não é culpa de ninguém. A montadora do pavilhão entrega a régua elétrica no dia anterior e metade delas chega com defeito.
Cida passou quarenta minutos tentando falar com alguém do suporte. Wagner atravessou os dois metros que separavam os stands, olhou a régua, disse que não era a régua e sim o disjuntor da caixa do corredor, e resolveu em quatro minutos com um cabo de extensão laranja que ele levava sempre.
O cabo ficou lá os três dias.
— Devolvo na quinta.
— Devolve quando der.
Feira é uma coisa que ninguém explica direito para quem nunca foi.
São dez horas de pé sobre carpete fino aplicado direto no concreto. O ar-condicionado do pavilhão é insuficiente às onze e excessivo às dezoito. O movimento vem em ondas: das dez às onze não passa ninguém, das onze às quatorze passa gente demais, e das dezessete às vinte só ficam os expositores olhando uns para os outros.
É nessas três horas finais que a feira acontece de verdade.
Na terça, às dezoito e meia, Wagner puxou um dos banquinhos dele e sentou perto da divisória. Cida fez o mesmo do lado dela. Ficaram uma hora e meia conversando por cima de um painel de lona de um metro e sessenta.
Assunto: o preço do metro quadrado da feira, que os dois acharam um roubo. A comida da praça de alimentação. O gerente da Cida e a pedra no rim dele. A filha do Wagner, dezoito anos, que ia prestar veterinária.
A organização fretava um ônibus do pavilhão até três hotéis da região, saindo às vinte e dez e às vinte e duas.
Os dois estavam no mesmo hotel, que é uma coincidência sem graça: dos três hotéis conveniados, aquele era o mais barato, e os dois trabalhavam para empresas que escolhem o mais barato.
Na terça pegaram o das vinte e dez, com mais dezoito pessoas.
Na quarta pegaram o das vinte e duas, com quatro.
Na quinta não pegaram ônibus.
O bar do hotel fecha à meia-noite e serve três tipos de cerveja e um sanduíche de queijo quente que chega em quinze minutos.
Quarta-feira eles ficaram lá das vinte e trinta às onze e quarenta. Wagner tomou três cervejas, Cida duas e um refrigerante. Dividiram dois sanduíches.
Às onze e quarenta o barman começou a virar as cadeiras nas mesas do fundo, que é o jeito universal de dizer o que precisa ser dito.
Subiram juntos no elevador. Ela no sexto, ele no oitavo.
No sexto a porta abriu, ela saiu, e ele segurou a porta com a mão e perguntou se ela queria continuar a conversa.
Ela disse que sim.
Não houve outra pergunta e não houve nenhuma frase construída. Quem já teve quarenta e sete e trinta e nove anos sabe que essa é a idade em que as pessoas param de fazer discurso.
O quarto era o 617, standard, cama de casal, ar-condicionado de janela com um controle preso na parede por uma corrente.
Os dois estavam com os pés destruídos de dez horas em pé, e isso foi a primeira coisa que apareceu, porque ela tirou o sapato e disse um palavrão, e ele riu, e depois ele tirou o dele e disse o mesmo palavrão.
Foi assim que começou. Sem nada elegante.
O ar-condicionado de janela faz um barulho grande e desliga a cada vinte minutos, e no silêncio entre um ciclo e outro dava para ouvir a televisão do 615.
Wagner saiu do quarto às cinco e quarenta para tomar banho no dele, porque a roupa dele estava no oitavo andar e porque a feira abria às dez.
Quinta foi o pior dia dos três, como sempre é. Movimento fraco, todo mundo cansado, e a desmontagem começando às vinte em ponto com a montadora empurrando carrinho pelo corredor.
Eles trabalharam o dia inteiro a dois metros um do outro e conversaram normalmente, sobre nada, na frente do rapaz do celular e de quem passasse.
Às dezenove e cinquenta Cida devolveu o cabo de extensão laranja, enrolado, com o plugue preso por um elástico.
— Obrigada.
— Imagina.
Ele guardou na caixa de ferramentas.
A desmontagem do G-42 levou uma hora e dez. A do G-44, com as máquinas, levou até quase meia-noite.
Cida foi para o hotel de táxi às vinte e uma e vinte, dormiu, e pegou o carro dela na manhã seguinte para voltar a Cotia.
Wagner voou para Porto Alegre no sábado.
Os dois trocaram telefone na quinta à tarde, no intervalo entre um visitante e outro, com o crachá de "Aparecida" pendurado no pescoço dela.
Se falaram por mensagem umas seis vezes no mês seguinte, sempre sobre a feira, sempre com uma pergunta no fim para o outro ter o que responder.
Em novembro teve uma feira de plásticos em Joinville. Os dois foram. As empresas ficaram em pavilhões diferentes.
O hotel foi o mesmo.
Terça pegaram o ônibus das vinte e dez. Quinta não pegaram ônibus.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
Fazer o teste →