Conto XIX
A casa de campo emprestada
Você pegou a estrada às seis da manhã de sexta porque odeia trânsito mais do que odeia acordar cedo. Levou três horas e vinte, parou uma vez num posto que vendia pastel de queijo e pinhão, e chegou antes de todo mundo, que era exatamente o plano.
A casa era da tia da Bel. Emprestada por um fim de semana em troca de nada, do jeito que essas coisas funcionam em família grande.
A chave ficava debaixo do vaso de samambaia da varanda. Você achou na primeira tentativa e ficou orgulhosa disso por uns dez segundos.
Sete pessoas tinham confirmado no grupo.
Às onze chegou o Duda, que morava a quarenta minutos e podia ter chegado às nove.
Vocês se conheciam de três anos de festas alheias e de nenhuma conversa que tivesse durado mais de vinte minutos. Ele era amigo do irmão da Bel. Você sabia que ele trabalhava com alguma coisa de logística e que tinha um cachorro chamado Bispo, e essas duas informações compunham o arquivo inteiro.
Ele desceu do carro com duas sacolas de mercado e uma cara de quem também tinha checado o grupo no caminho.
— Você viu?
— Vi.
A Bel tinha desistido às nove e quarenta. O casal do Paulo às dez e dez, com foto de teste de covid. A Nina não escreveu nada e simplesmente não veio, o que na turma de vocês é uma linguagem completa.
Restavam dois.
Você considerou ir embora. Vale registrar que considerou de verdade, e não pela razão que qualquer pessoa suporia.
Não foi constrangimento. Foi que você tinha reservado aquele fim de semana para ficar sozinha num lugar sem sinal, e agora ia ter que ser simpática por quarenta e oito horas.
Você falou isso em voz alta, mais ou menos com essas palavras.
O Duda ouviu até o fim, colocou as sacolas na bancada da cozinha e disse que também tinha vindo para não falar com ninguém, e que se você quisesse ele ficava na casa de hóspedes dos fundos e vocês não se cruzavam.
— Tem casa de hóspedes?
— Tem um quartinho com beliche e cheiro de mofo. Eu chamo de casa de hóspedes para dar dignidade.
Você riu antes de decidir se queria rir.
O acordo durou até as duas da tarde.
Ele estava lendo na rede da varanda. Você estava na cozinha tentando entender um fogão a lenha que a tia da Bel evidentemente considerava autoexplicativo. Depois de vinte minutos você gritou da porta perguntando se ele sabia acender aquilo.
Ele sabia. Cresceu com um.
Acender fogão a lenha leva quarenta minutos e envolve ficar agachado a meio metro de outra pessoa soprando brasa. Ninguém pensa nisso antes.
Às três e meia vocês comeram macarrão sentados no degrau da porta dos fundos, olhando um pasto com quatro vacas.
Às cinco a conversa tinha passado do cachorro dele, do seu trabalho, da tia da Bel, e chegado no divórcio dos pais dele, que aconteceu quando ele tinha vinte e seis anos e que ele descreve como a coisa mais educada que aqueles dois já fizeram.
Você contou do seu noivado que acabou em 2022 a nove semanas da data.
Não é uma coisa que você conta.
Choveu a partir das sete, e choveu como chove no interior em setembro, que é sem aviso e sem meia medida.
O quartinho dos fundos fica a doze metros da casa principal, atravessando um gramado que virou lama em cinco minutos.
Você não ofereceu o sofá. Ele não pediu.
O que aconteceu foi mais simples do que qualquer uma das duas coisas: às nove e pouco vocês ainda estavam na cozinha, a garrafa de vinho da tia da Bel estava pela metade, e ele parou no meio de uma frase sobre logística de porto para dizer que ia dizer uma coisa.
Você disse para dizer.
Ele disse que tinha checado o grupo do WhatsApp umas seis vezes na estrada torcendo para mais gente desistir.
— Isso é horrível.
— É.
— Eu também.
Você lembra do fogão ainda quente nas costas, porque a cozinha era pequena e porque vocês não saíram dela.
Lembra que ele perguntou, e que perguntou de um jeito que não era protocolo, e que a resposta demorou porque você estava rindo.
Lembra da chuva no telhado de zinco da varanda, que é um barulho grande o suficiente para tirar de qualquer um a preocupação com barulho.
Lembra que em algum momento os dois foram para o quarto da frente, que era o da tia da Bel, e que os dois acharam isso engraçado e nenhum dos dois achou engraçado o suficiente para mudar de quarto.
Lembra de ter dormido às quatro e de ter acordado às sete com sol na cara e com o braço dele completamente dormente embaixo do seu ombro, e de ele ter continuado dormindo mesmo assim, o que você achou um pouco heroico e um pouco idiota.
Sábado vocês não fizeram nada. Isso é literal: nadaram no açude de manhã, comeram pão com manteiga, dormiram à tarde, e às seis da tarde o Duda fritou ovo porque era o que restava.
Domingo às onze vocês fecharam a casa, devolveram a chave para debaixo do vaso e tiraram uma foto do pasto para mandar no grupo, porque a Bel ia perguntar.
No grupo, os dois foram lacônicos de um jeito idêntico, o que não enganou ninguém e principalmente não enganou a Bel.
Vocês foram em dois carros até a rodovia e pararam no mesmo posto do pastel de queijo com pinhão.
Ele comprou dois e te deu um.
Você estava com a mão na porta do seu carro quando ele perguntou se você queria jantar na quarta, na cidade, sem casa emprestada e sem chuva e sem fogão a lenha.
Você disse que sim.
Disse rápido, sem fazer conta, sem aquela pausa de meio segundo que a gente usa para parecer que está pensando. E na estrada inteira de volta, três horas e vinte, você não conseguiu parar de sorrir feito uma idiota, sozinha, dentro do carro, com a mão no volante.
Sete confirmaram. Chegaram dois.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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