Conto XXV
Depois que o salão esvazia
Você perguntou, então eu conto na ordem em que aconteceu, que é a única ordem em que isso faz sentido.
Primeiro você precisa entender como funciona a noite, senão você vai ouvir a história errada.
O restaurante fecha a cozinha às onze. Fechar a cozinha não é fechar a casa. A última comanda entra às 22h40, e do 22h40 até a comida sair no passe são uns quinze minutos, e depois disso a mesa ainda fica ali comendo, tomando café, brigando, pedindo a conta de novo porque o cartão não passou.
Então o salão esvazia por volta de meia-noite e a coifa continua ligada, porque a coifa a gente só desliga quando o fogão esfria.
Esse é o buraco. Do fim do serviço até a hora de ir embora tem uma hora e pouco que não é trabalho e não é folga.
É nesse buraco que acontece tudo o que acontece em restaurante.
Eu era segunda cozinheira. Isso quer dizer que eu abria a casa às nove da manhã, fazia a mise, tocava a praça quente no serviço e ficava por último para conferir a câmara fria.
Ele entrou em abril, para o forno.
Você quer o nome. Danilo.
Não era bonito do jeito que você está pensando. Tinha trinta e seis anos, uma queimadura antiga no antebraço direito que ia do punho ao cotovelo, e a mania de encostar o dorso da mão na lateral da panela para saber a temperatura, o que é uma burrice enorme e uma coisa que só quem trabalhou em casa ruim faz.
O que ele tinha era limpeza. A praça dele terminava a noite igual começou. Isso, numa cozinha, é sinal de caráter mais confiável do que qualquer conversa.
Trabalhamos juntos onze meses.
Serviço não tem conversa. Tem grito.
"Atrás." "Quente." "Saiu a quatro." "Segura a sete que o casal ainda está na entrada."
São quatro horas em que duas pessoas passam uma pela outra num corredor de noventa centímetros, com panela na mão, umas duzentas vezes por noite. Você aprende o corpo do outro antes de aprender qualquer outra coisa dele. Onde ele está sem olhar. Se ele desviou para a esquerda ou parou. Quando ele vai virar com a frigideira e você tem que abaixar.
Isso não é romance. É logística.
Mas eu vou ser honesta com você porque você perguntou: em novembro eu já sabia, pelo barulho do passo dele no piso, se a noite estava boa ou se ele tinha brigado com alguém antes de entrar.
A noite que interessa é uma quinta de março.
Choveu forte a partir das nove e caíram quatro mesas de reserva. A casa fechou o caixa cedo. Às onze e meia só tinha eu, ele, e o Ivo do salão levando o lixo para a rua.
O Ivo saiu às onze e quarenta e cinco. Eu lembro porque ele bateu na porta de serviço para avisar que ia deixar a chave comigo, o que ele nunca fazia.
A coifa estava ligada. A máquina de louça estava no ciclo longo, aquele de sete minutos, que faz um barulho de trem.
Sobrou o de sempre para fazer: passar o rodo, cobrir os gastronorm, levar o que dá para a câmara fria e anotar o que precisa ser pedido no dia seguinte.
A câmara fria fica no fundo, depois do estoque seco. Tem dois metros por dois e meio e uma porta pesada com trava por dentro, que é lei, porque já morreu gente trancada em câmara.
Eu entrei com uma caixa de camarão limpo para guardar na prateleira de cima.
Ele entrou atrás com o resto do molho.
Dentro de uma câmara fria faz dois graus e o ar é seco de um jeito que arde no nariz. Ninguém fica lá dentro mais de quarenta segundos por vontade própria.
A gente ficou.
Você vai perguntar quem começou e eu não sei responder, e não é por educação. Eu genuinamente não sei.
Eu estava com a caixa nas mãos e ele estava segurando a porta, e depois eu não estava mais com a caixa nas mãos.
O que eu lembro com nitidez é besteira. Que a lâmpada da câmara é branca e fica direto no teto, sem difusor, e que naquele ângulo ela desenhava tudo com muita clareza. Que a jaqueta dele tinha respingo de gordura na altura da terceira casa de botão. Que o meu avental ainda estava amarrado e continuou amarrado por um tempo.
E que fazia dois graus, e que em nenhum momento eu senti frio, o que é uma coisa que eu penso até hoje quando abro câmara.
A máquina de louça terminou o ciclo em algum momento e o silêncio ficou muito maior do que devia ser.
Saímos de lá quase à uma da manhã. A porta da câmara não trancou por dentro em nenhum momento, e eu sei disso porque eu conferi na saída, por reflexo, como confiro todo dia.
Aconteceu mais vezes, e não, eu não vou contar quantas.
Ele saiu da casa em setembro para abrir uma coisa própria em Santo André, que quebrou em um ano e meio. Eu fiquei mais dois anos e depois fui para o hotel, onde eu ganho mais e não tenho salão nenhum para esperar esvaziar.
A gente nunca conversou sobre nada disso, nem na época nem depois. Não porque fosse proibido. Porque não tinha o que conversar: aquilo pertencia ao buraco entre o fim do serviço e a hora de ir embora, e fora dali não existia.
Foi por isso que eu não te contei antes. Não é segredo. É que não tem categoria.
Agora você me perguntou se eu voltaria.
Isso eu não vou responder.
Onze meses de serviço e uma quinta de março. A última pergunta ficou sem resposta.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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