Conto XVI
Três noites de camping
Toda viagem de grupo tem uma pessoa que organiza, e a organização dessa coube à Duda, que é competente em quase tudo e péssima em contas. Foram seis pessoas e três barracas, o que soa perfeito até alguém reparar que uma das barracas era individual.
Ninguém reparou em São Paulo. Repararam em Gonçalves, a duzentos e vinte quilômetros e já com o carro descarregado.
É preciso registrar, em favor da Duda, que ela ofereceu a barraca individual para si mesma três vezes, e que nas três a oferta foi recusada por motivos que pareciam nobres e eram, na verdade, sobre outra coisa. Nenhum grupo de seis adultos resolve um problema de logística sem antes resolver umas quatro questões que ninguém pediu para resolver.
O resultado da negociação foi o seguinte: Duda e Karina numa barraca, Serginho e Paulinho na outra, e a individual para quem chegasse por último ao consenso.
Sobrou a barraca de dois para Ana e Vicente, que até ali se conheciam havia exatamente sete horas e quarenta minutos, todas passadas dentro de um carro.
Ana tinha trinta e quatro anos e uma regra pessoal contra viagem com desconhecido. Ela veio porque a Karina insistiu, e porque agosto tinha sido um mês difícil, e porque a foto da cachoeira era muito bonita.
Vicente era amigo do Serginho do trabalho, o que no vocabulário de grupo significa periférico, e tinha aquele tipo de silêncio que as pessoas confundem com timidez nos primeiros dois dias e depois param de confundir.
Nenhum dos dois tinha planejado coisa nenhuma. Isso é verdade e vale ser dito de uma vez, porque a história inteira depende disso.
O que também é verdade é que Ana percebeu, ao ver a distribuição das barracas, uns quatro segundos antes de todo mundo, e que nesses quatro segundos ela não disse nada.
A serra em agosto faz nove graus à noite e vinte e quatro à tarde, o que confunde qualquer um que arrume mala olhando a previsão do dia.
A primeira noite foi de uma correção exemplar.
A barraca de dois tem um metro e quarenta de largura, o que na prática significa dois sacos de dormir encostados. Eles montaram os dois sacos com um vão de dez centímetros no meio, e esse vão foi tratado pelos dois, durante três horas, como um objeto de valor arqueológico.
Conversaram até tarde. Vicente contou do irmão, do divórcio do irmão, e de como assistir de fora um casamento acabar ensina mais do que estar dentro de um. Ana contou de um emprego que ela largou em janeiro e do qual não se arrependia em nenhum dia da semana, exceto às terças, por motivos que ela mesma achava ridículos.
Às duas da manhã ela estava com frio.
Não falou. Ficou com frio em silêncio, do jeito educado, se encolhendo dentro do saco de dormir com um mínimo de barulho.
Vicente, que não estava dormindo, esperou uns quinze minutos e depois disse, olhando para o teto da barraca, que os sacos tinham zíper compatível e que dava para juntar os dois.
Ana disse que sim.
Eles juntaram os sacos, deitaram dentro, e não aconteceu nada. Isso precisa ser dito com clareza, porque é o dado mais importante da primeira noite: absolutamente nada aconteceu, e os dois dormiram, e de manhã os dois acordaram sabendo exatamente o que não tinha acontecido.
O segundo dia foi da cachoeira, que ficava a quarenta minutos de trilha e era, de fato, muito bonita.
Grupos têm um sistema de radar que funciona sem que ninguém opere. Ninguém disse nada no café da manhã. Mas na trilha a Karina andou com a Ana os primeiros vinte minutos e depois, sem transição visível, ficou para trás com a Duda, e isso não foi acidente.
Na cachoeira o Serginho fez o que os Serginhos do mundo fazem, que é entrar na água gelada gritando e chamar todo mundo de covarde. O Paulinho filmou. A Duda leu.
Ana entrou na água até a cintura e parou. Vicente entrou inteiro, atravessou o poço, e voltou. Quando voltou, parou ao lado dela e não falou nada por um tempo, e os dois ficaram vendo o Serginho tentar subir numa pedra que qualquer pessoa com olho via que era escorregadia.
— Ele vai cair — ela disse.
— Vai.
— Você não vai avisar?
— Ele não ia acreditar em mim.
O Serginho caiu. Riram os seis, e ninguém se machucou, e no meio do riso Vicente encostou a mão nas costas da Ana por dois segundos e tirou.
Dois segundos é pouco. Também é muito mais do que zero, e Ana passou o resto da tarde com uma consciência precisa da própria coluna.
Choveu na segunda noite. Choveu daquele jeito de serra, que começa às onze e não pede licença.
A barraca deles era boa, mas tinha sido montada às pressas num terreno com caimento, e por volta de meia-noite e meia a água começou a entrar por um canto. Não muito. O suficiente para molhar uns trinta centímetros de chão no lado esquerdo, que era o lado da Ana.
A solução física do problema era simples e os dois chegaram nela ao mesmo tempo: todo mundo para o lado direito.
O lado direito de uma barraca de um metro e quarenta é, aproximadamente, setenta centímetros.
Choveu por quase duas horas. Barraca na chuva é um lugar barulhento, o que ajuda, e é um lugar completamente às escuras, o que ajuda ainda mais, e é um lugar onde não existe absolutamente nada para fazer, o que é decisivo.
Começou pela mão dela, que estava procurando a lanterna e encontrou o pulso dele.
Nenhum dos dois fingiu que tinha sido acidente, o que economizou uns oito minutos.
O que aconteceu depois aconteceu devagar, porque não havia espaço para pressa, e em silêncio, porque a barraca do Serginho estava a quatro metros e a lona não guarda segredo nenhum. As duas restrições melhoraram tudo. Isso é uma coisa que a organizadora da viagem não previu e que qualquer pessoa que já dormiu em camping poderia ter previsto por ela.
Em algum momento Ana riu no ouvido dele, um riso sem nenhum som, só ar quente e ombro tremendo, e essa foi a coisa que Vicente levou de volta para São Paulo.
A chuva parou por volta das duas e meia. Eles ficaram acordados até quase quatro.
O café da manhã do terceiro dia foi uma obra-prima de convivência.
Ninguém disse nada. Ninguém precisou. A Karina serviu café para a Ana sem perguntar se ela queria, o que num grupo daquele tipo é praticamente um telegrama. O Paulinho fez uma piada sobre a chuva, e a piada morreu no ar por falta de coragem coletiva, e o Serginho, que é a pessoa menos sutil daquele grupo e possivelmente do estado, olhou para o Vicente por três segundos e voltou para o ovo mexido sem falar nada, o que para ele foi um esforço enorme.
A Duda, que tinha errado a conta das barracas, tomou o café dela com uma expressão de quem está avaliando se erra por sorte ou por competência.
Ana e Vicente se comportaram durante o dia inteiro com um decoro exemplar, e o decoro deles foi tão exemplar que virou, por si só, a informação mais alta da mesa.
A terceira noite não teve chuva, não teve frio excepcional e não teve nenhum acidente de logística.
Isso importa. Na terceira noite não sobrou desculpa nenhuma, nem caimento de terreno, nem zíper compatível, nem nove graus. Sobrou uma barraca de um metro e quarenta e duas pessoas que já sabiam.
Eles entraram às dez e meia, o que era cedo, e ninguém no acampamento comentou o horário em voz alta.
Da terceira noite o registro é mais curto, porque foi a única das três em que nenhum dos dois estava prestando atenção em nada que pudesse ser lembrado depois em ordem.
Ana lembra do cheiro da lona. Vicente lembra de ter pensado, num intervalo, que faltavam nove horas para desmontar tudo.
Na volta, o carro que tinha vindo com Ana no banco do meio voltou com Ana no banco do meio.
Ninguém propôs troca. A Karina, que dirigiu os primeiros cem quilômetros, ligou uma playlist longa e não fez nenhuma pergunta, e essa contenção custou a ela um esforço visível.
Vicente desceu primeiro, no metrô Vila Madalena, porque morava para o outro lado.
Ele pegou a mochila no porta-malas, falou tchau para os cinco, e para a Ana falou tchau também, exatamente do mesmo jeito, com o mesmo tom, o que enganou duas das cinco pessoas presentes.
O grupo do WhatsApp da viagem seguiu ativo por mais nove dias, o que é a meia-vida normal desse tipo de grupo. Fotos, a do Serginho caindo, uma discussão sobre quem devia quanto para quem.
Ana e Vicente participaram do grupo com a frequência exata de quem não está evitando um grupo.
Em nenhum momento, nos nove dias, os dois trocaram mensagem lá dentro.
Isso foi notado pela Karina no quarto dia e comentado com a Duda no sexto, e a Duda, que continua péssima em contas, acertou essa de primeira.
Na terceira noite não sobrou desculpa nenhuma. Nem o frio.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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