Conto XIV
Táxi das quatro da manhã
Nivaldo pegou a corrida às 4h07 numa rua transversal da Vila Madalena, daquelas com calçada estreita e fila de gente esperando na porta de um lugar que já tinha fechado.
Ele trabalhava de noite havia onze anos. Preferia. O trânsito é honesto de madrugada, e o passageiro de madrugada fala menos ou fala demais, e nos dois casos ele já sabia o que fazer.
Entraram dois. Ela primeiro, do lado do meio-fio; ele deu a volta pela rua, o que Nivaldo achou educado e anotou mentalmente, porque anotar esse tipo de coisa era o esporte dele.
— Boa noite. Santo Amaro?
— Isso.
O aplicativo dizia trinta e oito minutos. Nivaldo sabia que seriam quarenta e seis, porque o aplicativo nunca contava a alça do viaduto direito.
Saiu, pegou a Cardeal, desceu.
Nos primeiros dez minutos ele entendeu duas coisas, e as duas pelo retrovisor, que é um instrumento de trabalho antes de ser qualquer outra coisa.
A primeira: os dois não se conheciam de antes daquela noite. Dava para ver pela distância inicial no banco, pelas mãos nos próprios joelhos, pela conversa que ainda era de perguntas e não de assuntos. Alguém que se conhece não pergunta em que bairro o outro cresceu.
A segunda: os dois iam para o mesmo lugar, e nenhum dos dois tinha dito isso em voz alta ainda.
Nivaldo aumentou o rádio. Não muito. O suficiente para que uma conversa no banco de trás parasse de ser uma conversa que o motorista estava ouvindo e voltasse a ser uma conversa entre duas pessoas.
Era uma rádio de música antiga. Naquela hora tocava aquelas coisas de arranjo grande, com metais e violino, que ninguém escolhe e todo mundo reconhece.
Aos quinze minutos ele parou num farol na Rebouças.
Farol de madrugada demora mais do que de dia. É uma crueldade pequena da engenharia de tráfego, e naquele em particular são setenta e dois segundos, número que Nivaldo tinha contado uma vez por tédio e nunca mais esqueceu.
Ele olhou para frente. Um Corolla parado ao lado, um entregador cortando na contramão, o letreiro de uma farmácia vinte e quatro horas.
No banco de trás a conversa tinha parado.
Nivaldo tem cinquenta e oito anos e uma regra que criou sozinho no primeiro ano de aplicativo: o retrovisor serve para ver o que entra pela porta e o que vem atrás do carro. Fora isso, a rua tem coisa suficiente para olhar.
Ele olhou a rua. O farol abriu. Ele andou.
O que ele registrou nos vinte minutos seguintes foi por ouvido, e por peso.
Peso, porque um carro com dois passageiros de um lado só entra diferente na curva, e a alça do viaduto Santo Amaro é uma curva longa à esquerda que Nivaldo faz há uma década. Ele sentiu o carro pedir mais volante do que devia e corrigiu sem pensar, do jeito que a gente corrige coisa que faz todo dia.
Ouvido, porque o rádio estava alto mas o carro é pequeno.
Um zíper, talvez. Ele não teria jurado. Uma risada baixa, cortada no meio por outra coisa. Um "espera" que não era um pedido para parar, e Nivaldo, que ouve português há cinquenta e oito anos, distingue as duas versões dessa palavra sem esforço nenhum.
Depois um silêncio comprido, com respiração dentro.
Ele ligou a seta com uns quatrocentos metros de antecedência, o que não era necessário, e passou para a faixa da direita.
Às 4h31 o aplicativo recalculou a rota.
Tinha uma interdição na marginal, obra da Sabesp, e o desvio jogava a corrida para a Vila Cordeiro e acrescentava doze minutos. A tela avisou. Nivaldo apertou o botão verde.
Ele contou depois, para si mesmo e mais de uma vez, que apertou o botão porque era a única rota disponível. Isso era verdade. Também era verdade que ele apertou rápido demais para alguém que estava avaliando alternativas.
Doze minutos é bastante coisa às quatro e meia da manhã.
Ele fez o desvio inteiro em segunda e terceira marcha, sem pressa, respeitando os quebra-molas de um jeito que ele mesmo classificaria, em qualquer outro dia, como exagerado.
Chegaram às 5h02 num prédio de três andares com portão de grade e uma jabuticabeira na calçada.
Nivaldo encostou, puxou o freio de mão e ficou olhando o painel com muita atenção, como se o painel tivesse alguma novidade.
Levou um tempo até a porta abrir.
Ela desceu primeiro. Estava com o cabelo de um lado só e com a alça do vestido no lugar errado, e resolveu isso na calçada com dois movimentos rápidos e nenhuma pressa aparente.
Ele desceu depois, com o paletó dobrado no braço de um jeito estratégico.
— Obrigada, moço.
— Bom descanso.
Ela riu. Não da piada, porque não tinha piada. Riu do fato de ele ter dito exatamente aquilo, com aquela cara, às cinco e dois da manhã.
Deu cinco estrelas antes de o carro sair da rua. Nivaldo viu a notificação no celular preso no suporte, e abaixo dela um valor de gorjeta que era, mais ou menos, o preço de doze minutos.
Ele fez mais três corridas antes das sete.
Um rapaz de uniforme de hospital que dormiu no banco. Uma senhora indo para o aeroporto com duas malas e muita opinião sobre a companhia aérea. Um cara sozinho, calado, do tipo que a madrugada produz aos milhares.
Em casa, Nivaldo tomou café com a Zélia, que estava acordando quando ele chegava, o que era o arranjo dos dois havia onze anos e funcionava melhor do que qualquer um dos dois admitia.
Ela perguntou se a noite tinha sido boa.
Ele disse que tinha sido normal.
Depois ficou um tempo mexendo o café, que já estava mexido, e falou que tinha pegado uns dois na Vila Madalena que estavam se conhecendo naquela noite mesmo.
— E daí?
— E daí nada. Só isso.
A Zélia olhou para ele por cima da xícara, do jeito de quem está casada há trinta e um anos e sabe exatamente quantas informações estão sendo omitidas.
Não perguntou mais. Naquela manhã, os dois foram dormir juntos, o que não era o arranjo, e Nivaldo não explicou, e ela também não pediu para ele explicar.
O desvio acrescentava doze minutos. Ele apertou rápido demais.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
Fazer o teste →