VesperaFicção adulta

Conto VII

Praia em maio

A viagem tinha sido planejada para duas pessoas. A Célia quebrou o tornozelo descendo do ônibus na terça anterior, o que é um jeito ridículo de quebrar um tornozelo, e Renata decidiu ir mesmo assim porque a pousada não devolvia o dinheiro.

Ela chegou numa quinta de maio, quatro da tarde, com o carro alugado cheio de areia antes mesmo de estacionar. A vila tinha uma rua asfaltada e o resto de terra batida. Das doze casas do fim da rua, duas tinham luz acesa. Fora de temporada aquilo ali não era um lugar turístico. Era um lugar onde umas trinta pessoas moravam e esperavam dezembro.

A dona da pousada, Neusa, entregou a chave e avisou que o restaurante estava fechado até setembro, que o mercado abria das oito às seis, e que se ela quisesse peixe era só falar de manhã.

— Você veio sozinha mesmo?

— Vim.

Neusa fez que sim com a cabeça, do jeito de quem já viu todo tipo de gente aparecer em maio, e não perguntou mais nada. Renata gostou dela na hora.

· · ·

Nos dois primeiros dias ela não falou com ninguém além de Neusa e do rapaz do mercado.

Era isso que ela tinha ido buscar. Trinta e nove anos, catorze deles trabalhando com prazo dos outros, e um mês de abril inteiro dizendo sim para coisas que ela não queria. Ali ninguém precisava dela. O mar de maio era cinza e batia forte, ninguém entrava, e a areia molhada tinha cor de cimento. Ela andava até a ponta sul de manhã e voltava, e o vento sudoeste deixava a pele dela salgada mesmo sem ela chegar perto da água.

Na sexta ela teve a ideia de subir até o costão de carro pela trilha de areia. Foi uma ideia idiota e ela soube que era idiota vinte metros depois, quando a roda de trás começou a cavar o próprio buraco.

Ficou meia hora tentando. Colocou o tapete do carro embaixo do pneu, colocou galho, colocou a toalha. O carro afundou mais fundo e mais confortável.

O caminhonete apareceu por volta das onze. Vermelha, velha, com uma corrente e dois pneus de estepe na caçamba.

— Areia seca — o homem disse, sem sair do carro. — Todo mundo tenta pela trilha de cima.

— Aparentemente todo mundo é burro.

Ele riu. Desceu.

· · ·

Chamava Otávio. Consertava motor de barco e morava ali o ano inteiro, o que na conversa dele apareceu não como escolha romântica, mas como fato administrativo, do mesmo jeito que se diz o número da casa.

Ele engatou a corrente, mandou ela dirigir e ficou de fora empurrando. Deu certo na primeira. Ela ofereceu dinheiro e ele fez uma cara tão desconfortável que ela guardou a carteira e pediu desculpa, e os dois riram da situação inteira.

Quando ele passou pela janela para devolver a toalha suja, ela sentiu.

Limão. Limão por cima de gasolina.

— É de dois tempos — ele disse, porque ela devia ter feito alguma cara. — Não sai com sabão. Sai com limão. Eu levo um cortado na porta do carro.

Ela olhou. Tinha mesmo meio limão numa sacola pendurada na maçaneta, secando, escuro nas bordas.

Renata pensou naquilo três vezes durante o resto do dia, o que era duas vezes a mais do que ela julgava razoável.

· · ·

No sábado ele apareceu no quiosque do seu Dito, o único aberto, onde ela estava tentando ler um livro que tinha começado em janeiro.

Não foi coincidência. Ela sabia que não era coincidência porque não tinha mais ninguém na vila e porque ele sentou na mesa dela antes de perguntar se podia.

— Você está no oitavo capítulo — ele disse, olhando o marcador.

— Estou no oitavo capítulo desde fevereiro.

— Ruim?

— Bom demais. Eu não queria que acabasse, aí parei. Depois esqueci onde estava e agora tenho medo de voltar.

Ele achou aquilo a coisa mais estranha que já tinha ouvido e disse isso. Ela concordou.

Ficaram até as seis. A conversa foi para lugares que conversa de gente que acabou de se conhecer não costuma ir, porque não havia mais ninguém ali para ouvir, e porque ela ia embora na segunda e os dois sabiam.

Ele falou do irmão que foi pra Itajaí e não voltou. Ela falou do pai, e depois falou do casamento que tinha durado nove anos, e da parte que ninguém pergunta: não a separação, os dois anos antes dela, quando ainda estava tudo certo por fora.

Às seis o vento virou. Seu Dito começou a recolher as cadeiras de plástico.

— A previsão é de chuva a noite inteira — Otávio disse.

— É.

Ele ficou olhando o mar por uns segundos longos.

— Minha casa é logo atrás da duna. Telhado de zinco. Chuva em telhado de zinco é a melhor coisa que essa vila tem.

Renata fechou o livro no oitavo capítulo.

· · ·

A chuva chegou às oito e vinte e foi exatamente como ele tinha prometido: alta, contínua, cobrindo tudo. Dentro da casa ninguém precisava falar baixo porque ninguém ia ouvir mesmo.

A casa tinha um cômodo só, com a cozinha na parede do fundo e uma cama de casal encostada na janela. Havia uma hélice de bronze apoiada no canto, encostada na parede como se fosse escultura. Ela perguntou. Ele disse que estava esperando peça desde março.

Ele beijou ela ainda de pé na porta, com a mão na nuca dela, e a demora entre chegar e beijar foi de talvez quatro segundos, o que num homem daquela idade é sinal de que já tinha decidido antes de convidar.

Ela não fingiu surpresa. Puxou a camiseta dele por cima da cabeça com uma competência que surpreendeu os dois.

O cheiro de limão estava nas mãos dele. Ficou nos ombros dela.

A cama era baixa e o colchão era duro e a janela do lado ficou aberta o tempo todo, com o vento entrando e a cortina batendo na parede, e a chuva no zinco fazendo um barulho que apagava qualquer coisa que ela dissesse. Ela disse mesmo assim.

Em algum ponto da noite ele parou tudo para procurar um cobertor, porque ela estava com frio, e voltou com um cobertor de lã que cheirava a mofo. Ela riu tanto que ele começou a rir também, e demorou uns bons minutos para os dois voltarem ao que estavam fazendo. Voltaram.

· · ·

No domingo choveu o dia inteiro. Eles saíram da casa duas vezes: uma para o mercado, outra para levar café para seu Dito, que estava com a filha doente.

Renata não abriu o livro.

Na tarde de domingo ele desmontou o carburador de um motor de popa em cima da mesa da cozinha, com jornal por baixo, e ela ficou vendo e passando peça quando ele pedia. Falaram quase nada durante uma hora e quarenta. Foi a hora e quarenta mais confortável dos últimos quatro anos dela.

Às cinco ela ligou para a Célia e mentiu duas vezes na mesma ligação, sem motivo nenhum, só porque a verdade era grande demais para caber em dez minutos de telefone.

Na noite de domingo, deitada com as costas encostadas nele e o cobertor mofado até o queixo, ela pensou em dizer que podia ficar mais três dias. Tinha férias. Tinha como. Ficou uns quinze minutos montando a frase.

Não disse.

Ele também não perguntou, e ela ficou o resto da noite acordada tentando decidir se aquilo era delicadeza ou se era só o jeito de um homem que mora sozinho o ano inteiro numa vila com trinta pessoas.

· · ·

Segunda-feira, seis e meia da manhã. Ele levou ela até o carro na caminhonete, porque ainda estava chovendo.

Não teve promessa. Ele não pediu telefone. Ela não ofereceu, e a razão foi covardia, e ela sabia disso enquanto acontecia.

— Boa viagem — ele disse.

— Manda notícia da peça.

— Você não me deu número.

— Pois é.

Ele riu e bateu duas vezes no teto do carro dela, aquele gesto de quem despacha caminhão.

Cinquenta quilômetros depois, na fila do pedágio, Renata percebeu que tinha deixado o livro no banco da caminhonete. De propósito, com o nome dela escrito na primeira página, na letra de quando ela tinha vinte e dois anos.

Ela nunca perguntou se ele lia.

Ela parou no oitavo capítulo. Sempre para.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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