Conto XXIII
A prova de terno
Herdei a loja do meu pai em 2011 e mantive o nome dele na fachada, que é uma decisão comercial ruim e uma decisão que eu tomaria de novo.
Trabalho sozinha desde que a Dona Ivete se aposentou. Faço uns quarenta ternos por ano, quase todos de casamento, e o resto é ajuste: barra, cintura, manga, gente que engordou, gente que emagreceu, gente que herdou o terno do pai e quer usar.
Fecho às sete. Na quarta fecho às cinco porque é o dia que eu vou ao mercado.
Ele chegou numa segunda de abril, sem hora marcada, com uma foto no celular.
A foto era do pai dele em 1988, num terno cruzado de lã fria, cinza-médio, com lapela larga demais para qualquer época. Ele perguntou se dava para fazer igual.
Eu disse que dava e que ele ia se arrepender.
Expliquei o que se explica: que lapela de 1988 encurta o pescoço, que cruzado exige postura, e que ele ia usar aquilo uma vez na vida e olhar a foto por cinquenta anos. Sugeri um dois-botões, lapela de oito centímetros, lã tropical de 260 gramas.
Ele ficou uns segundos calado e disse que confiava.
Homem que diz "confio em você" na primeira conversa geralmente está com pressa. Esse não estava. Ele só estava cansado de decidir coisa de casamento, o que eu vejo o ano inteiro e reconheço de longe.
Primeira medição, segunda, 14 de abril.
Tirei quatorze medidas. Anotei todas na ficha, que é de papel, porque eu tentei fazer em planilha em 2016 e voltei atrás em três meses.
Ombro a ombro: 47. Tórax: 102. Cintura: 92. Manga direita: 64,5. Manga esquerda: 64.
E a linha que importa nesta história: ombro direito 2 cm mais baixo. Compensar entretela.
Isso é comum. Quase todo mundo tem um ombro mais baixo, geralmente o do lado dominante, e quase ninguém sabe. Ele não sabia. Quando eu falei, ele virou para o espelho de três faces e ficou olhando, e depois disse que a mãe dele reclamava disso desde a adolescência e que ele achava implicância.
Medir alguém leva dez minutos e exige que você encoste na pessoa umas vinte vezes.
Eu faço isso desde os vinte e três anos. Já medi mais de mil homens. Isso não é uma coisa que me acontece.
Segunda prova, quinta, 8 de maio, alinhavo.
O alinhavo é a versão feia. É a peça montada com linha branca de costura solta, sem forro, sem entretela definitiva, para ver como cai no corpo. Fica horroroso e é a etapa mais importante.
Ele veio às seis e meia, direto do trabalho, com a camisa amassada de dia inteiro.
O alinhavo estava bom. O ombro compensado ficou correto, o vinco da manga caiu no lugar, a cava estava dois milímetros apertada e eu marquei com giz.
Depois eu ajoelhei para marcar a barra da calça.
Marcar barra é a única parte do serviço em que a alfaiate fica ajoelhada e o cliente fica de pé olhando para baixo. Trinta segundos por perna. Eu faço isso quarenta vezes por ano.
Naquele dia eu levei mais que trinta segundos por perna e a razão não estava na calça.
Quando eu levantei, ele estava olhando para a parede lateral, que é onde ficam as fotos do meu pai com os clientes dos anos noventa, e ele estava olhando com uma concentração de quem escolheu um ponto para olhar.
Nenhum de nós dois falou nada sobre isso.
Eu anotei na ficha: cava -2mm, barra 1,5 volta, entrega 5/6.
Terceira prova, quinta, 5 de junho, peça pronta.
Ele chegou às seis e cinquenta. Fecho às sete.
O terno estava bom. Digo isso com a frieza de quem trabalha com isso: estava muito bom. A lã caiu como lã de 260 gramas cai, o cruzado que ele não fez foi a decisão certa, e o ombro compensado ficava invisível, que é o objetivo de compensar ombro.
Ele se olhou no espelho de três faces por um tempo longo.
Depois disse, sem virar, que o casamento tinha sido cancelado em vinte e dois de maio.
Eu não perguntei nada. Não é da minha conta e eu tinha uma peça pronta na mão que precisava ser paga.
Ele disse que ia pagar de qualquer jeito, que o terno era bonito, e que ele tinha vindo porque tinha marcado.
Às sete horas eu tranquei a porta da frente e virei a plaquinha.
Isso é o que eu faço todo dia às sete. Também é verdade que naquele dia eu fiz com ele ainda dentro da loja e vestido com um terno que eu tinha acabado de entregar.
A sala de prova tem 1,80 por 2,20 e uma cortina de veludo que não fecha inteira. O espelho de três faces ocupa uma parede.
Tirar um terno de alinhavo é rápido. Tirar um terno pronto é lento, porque tem forro, porque tem seis botões entre paletó e colete, e porque a pessoa que está tirando conhece cada um deles pelo nome.
Eu pendurei o paletó no cabide de madeira antes de qualquer outra coisa. Não foi zelo profissional. Foi que uma peça de 260 gramas amassa e eu não ia refazer aquilo.
O resto foi no chão da sala de prova, que é de tacos, e que tem um giz de alfaiate no rodapé desde uma prova de 2019.
O espelho de três faces mostra a mesma coisa de três ângulos. É para isso que ele serve. Foi a primeira vez em quinze anos que eu pensei nisso como uma característica e não como uma ferramenta.
Ele saiu às nove e vinte com o terno na capa e a nota fiscal no bolso.
Voltou em agosto para ajustar a cintura de uma calça social velha, e eu atendi, e não aconteceu nada, e nenhum de nós dois comentou junho.
Voltou em novembro pelo mesmo motivo.
A ficha dele continua na gaveta com as outras, em ordem alfabética, com quatorze medidas escritas a lápis e uma anotação embaixo, na letra do meu pai, que era a letra que eu aprendi a imitar aos vinte e três anos.
Ombro direito: 2 cm mais baixo.
Ele veio porque tinha marcado. O casamento foi cancelado em maio.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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