Conto XXIV
Cinco horas na cadeira
Elias guardava as terças para os trabalhos longos. Era o único dia em que o estúdio ficava com uma cadeira ocupada só, sem as outras duas máquinas zumbindo do lado de lá do biombo, e ele conseguia passar cinco horas na mesma peça sem levantar para atender ninguém.
Rita chegava quinze minutos antes. Trazia dois cafés da padaria da esquina, errava o dele todas as vezes, com açúcar, e ele bebia assim mesmo.
A peça era grande. Começava no ombro esquerdo, cobria a escápula inteira e descia até a altura da cintura: folhas de figueira, uma trepadeira que crescia no muro da casa da avó dela em Bragança e que ela tinha fotografado contra o sol, mal, com o celular, três meses antes de a casa ser vendida em inventário.
Estavam previstas sete sessões. Foram nove.
Toda terça seguia a mesma ordem, e a ordem existe por um motivo.
Rita tirava a blusa atrás do biombo e deitava de bruços na maca, com uma toalha dobrada na altura da lombar. Elias trocava o filme do apoio de braço, separava os cartuchos do dia, uma agulha de traço e duas magnum de sombra, e apertava a tinta nos batoques antes de calçar a luva, porque depois da luva não se toca em nada que não seja pele e máquina.
Passava sabão neutro. Barbeava a área mesmo quando não havia pelo nenhum, porque decalque não pega em pele com penugem. Aplicava o carbono, esperava secar dois minutos e pedia para ela levantar e conferir no espelho.
Rita conferia sempre com a mesma frase, que era "tá bom", e voltava a deitar.
A primeira hora era a pior. Traço em cima de osso dói de um jeito que ninguém espera, e a escápula é osso com quase nada por cima. Passados uns quarenta minutos o corpo desiste de reclamar e as duas horas do meio ficam quase fáceis. A última hora piora de novo, por cansaço, não por dor.
Elias sabia disso de cor. Tatuava havia onze anos e fazia umas doze peças grandes por ano, o que dá mais de cem costas, e cem costas ensinam a diferença entre alguém que está aguentando e alguém que está prestes a passar mal.
Fora isso, o serviço é simples de descrever. Uma mão estica a pele e a outra desenha. A mão que estica não sai do lugar.
Cinco horas.
Havia uma regra de conversa que nenhum dos dois combinou.
Rita falava na primeira hora. Falava do trabalho, da irmã, do inventário que se arrastava desde março, do primo que apareceu com um advogado depois de doze anos sem telefonar. Na segunda hora falava menos. Na terceira parava, e o que restava era o zumbido da rotativa, que é baixo e constante, e a respiração dela mudando de ritmo quando ele descia para a lateral do corpo.
Elias falava enquanto fazia traço, porque traço exige menos cabeça. Em sombra ele calava.
Nas nove sessões ele ficou sabendo, sem ter perguntado nada: que ela morou dois anos em Lisboa e voltou, que dorme mal, que o pai morreu em 2019, que ela não gosta do próprio nome.
Ela ficou sabendo que ele tem uma filha de sete anos, que o estúdio é metade dele e metade de um sócio que aparece pouco, e que ele não tatua rosto de ninguém desde uma vez em 2021, da qual não contou o resto.
Nenhuma dessas informações foi entregue de frente. Sai tudo de lado, no intervalo entre um traço e a limpeza do excesso, que é quando a pessoa está com a guarda no chão porque acabou de aguentar quarenta minutos de agulha.
Na oitava sessão o ar-condicionado quebrou.
Era fevereiro. O técnico só vinha na quinta, e o estúdio ficou com dois ventiladores de coluna empurrando ar quente de uma ponta à outra da sala.
Elias avisou que dava para remarcar. Pele com suor não segura tinta direito e o decalque escorre antes de a primeira linha fechar.
Rita disse que tinha pedido o dia.
Trabalharam com o ventilador virado para a maca, parando de vinte em vinte minutos para secar a área com papel, o que não estava previsto e alongou a sessão em quase uma hora.
Por volta das quatro da tarde ela pediu para virar de lado, porque de bruços, com aquele calor, a respiração ficava curta.
Virar de lado muda tudo. De bruços, quem está deitado olha para um vinco de couro sintético. De lado, olha para quem está trabalhando, e quem está trabalhando tem os dois braços ocupados e o rosto a trinta centímetros.
Elias fechou o preenchimento da folha de baixo em mais quarenta minutos, com ela olhando para ele o tempo inteiro, o que ele registrou e não comentou. No fim do trecho desligou a máquina para trocar de cartucho.
Não trocou.
Ficaram o ventilador ligado, a máquina em cima do carrinho, o pote de vaselina aberto e a luz da luminária de haste apontada para um lugar onde já não havia trabalho nenhum sendo feito.
Ele tirou a luva com os dentes, que é o jeito errado, o jeito que se aprende a não fazer no primeiro mês de estúdio.
O resto foi na maca, que tem sessenta centímetros de largura e é feita para uma pessoa.
A nona sessão foi quinze dias depois, com o aparelho consertado e a sala em vinte e dois graus.
Rita chegou quinze minutos antes e trouxe dois cafés. Dessa vez o dele veio sem açúcar, sem que o assunto tivesse sido levantado em nenhuma das oito terças anteriores.
Trabalharam quatro horas e fecharam o contorno da última folha, a de baixo à direita, que era o que faltava para a tatuagem estar pronta.
Ele passou o filme, explicou a cicatrização pela nona vez, cobrou o valor combinado e pediu para ela conferir no espelho.
Rita olhou por um tempo comprido. Disse "tá bom", que era o que ela dizia sempre, e depois disse que ia sentir falta das terças.
Elias limpou a máquina antes de responder, o que levou mais tempo do que precisava levar.
Depois falou do erro.
A folha de baixo à direita tem o pecíolo virado para dentro. Em figueira o pecíolo sai do ramo para fora, sempre, e naquela folha ele sai para dentro. É erro dele, cometido na sessão anterior, no trecho em que ela estava deitada de lado. Ele percebeu na semana seguinte, em casa, ampliando a foto no celular.
Uma tatuagem daquele tamanho leva quarenta horas de agulha e dura o resto da vida da pessoa. O erro tem meio milímetro.
— Dá para cobrir com uma folha nova por cima — ele disse.
— Não cobre.
Ele não cobriu. A peça foi fotografada em março para o portfólio do estúdio, com luz chapada e sem retoque nenhum, e é a foto que ele manda quando alguém pede para ver trabalho de costas.
Nove terças, quarenta horas de agulha. O erro tem meio milímetro e ficou.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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