Conto XIII
O ensaio fotográfico passou da hora
Meu estúdio tem trinta e dois metros quadrados e um pé-direito que não dá para o que eu queria fazer. Trabalho com três pontos: uma chave num softbox de noventa por sessenta, à esquerda, a quarenta e cinco graus; uma preenchimento fraca do outro lado, quase só para não perder sombra; e uma de fundo, que eu ligo pouco porque quase sempre atrapalha.
Cobro por sessão, não por hora. Isso foi uma decisão comercial que eu tomei em 2021 e que nunca me deu problema.
A sessão dele é a última de uma quinta. Dezoito horas. Fotos de imprensa para uma banda de cinco pessoas que decidiu, três dias antes do lançamento, que precisava de retrato individual.
Os outros quatro vêm de manhã. Ele vem sozinho porque trabalha até as cinco.
Chega às dezoito e sete, de camisa preta, com o cabelo molhado de quem tomou banho correndo. Pede desculpa pelo atraso duas vezes. Eu digo que sete minutos não é atraso, e é verdade.
Primeira parte é sempre igual e é sempre chata.
Coloco a pessoa na marca de fita no chão, tiro três quadros de teste, olho o histograma, corrijo. Nesse caso eu abaixei a chave em dez centímetros porque ele é alto e a sombra do nariz estava batendo torta no lábio.
Depois eu falo. Falar é metade do trabalho e ninguém acredita nisso.
Pergunto o que ele toca. Baixo. Pergunto há quanto tempo. Onze anos. Pergunto se ele gosta de ser fotografado, que é uma pergunta que eu faço sempre porque a resposta é sempre não e admitir isso relaxa a mandíbula.
— Odeio.
— Todo mundo odeia.
— Você também?
— Eu principalmente.
Disparo enquanto ele ri. Esse é o truque mais velho que existe e continua funcionando.
Dezoito e quarenta: eu já tenho o retrato. Tecnicamente eu já tenho. Nitidez no olho da frente, luz limpa, expressão que não parece pedida. Se eu mandasse esse arquivo agora, a banda usaria e ninguém reclamaria.
Eu não mando.
— Vira o queixo dois graus para a minha direita.
Ele vira. Eu disparo.
Dois graus de queixo não mudam nada num retrato de meio corpo com essa distância focal. Eu sei disso desde o segundo ano de curso.
— Abaixa o ombro esquerdo.
Ele abaixa. Eu disparo.
O ombro estava certo.
Dezenove e cinco. A sessão custa o que custa e já passou do que eu costumo levar. Eu troco a lente de 85 para 50, e a 50 obriga a chegar mais perto, e eu troquei a lente para chegar mais perto.
Vou anotando essas coisas dentro da cabeça com uma clareza que não me ajuda em nada.
Às dezenove e vinte a gola dele está torta.
Isso é real. A camisa é preta, de botão, e a ponta esquerda da gola subiu por causa da alça da bolsa que ele carregou. Numa foto de imprensa isso aparece.
Eu tenho um espelho na parede. É para isso que ele serve: eu aponto, a pessoa arruma, eu não encosto em ninguém. É a regra da casa e é uma regra boa, escrita em 2019, depois de um episódio que eu não vou contar aqui.
Eu não aponto o espelho.
Ponho a câmera na mesa. Atravesso os três metros. Arrumo a gola com as duas mãos, os polegares por dentro do tecido, e demoro nisso mais tempo do que uma gola precisa.
Ele não se mexe. Ele fica olhando um ponto na parede atrás de mim, e a mandíbula dele, que tinha relaxado às dezoito e trinta, volta a travar.
— Pronto — eu digo.
— Obrigado.
Eu volto para trás da câmera. Levo três segundos para lembrar em que ISO eu estava.
Dezenove e quarenta e um. Eu desligo a luz de fundo, que não estava atrapalhando nada.
O estúdio fica com dois pontos e o ambiente cai bastante. Isso muda o clima de um jeito que qualquer fotógrafo entende e que ninguém consegue explicar para o cliente.
— A gente já tem, né? — ele pergunta.
— A gente já tem desde as sete menos vinte.
Ele fica quieto uns segundos.
— E a gente continuou.
— Continuou.
Eu abaixo a câmera. É a primeira vez na sessão inteira que eu abaixo a câmera com ele ainda na marca de fita.
O que eu lembro é técnico, porque eu penso técnico, e essa é a minha sorte e o meu problema.
Lembro que o fundo é papel cinza de dois metros e setenta e que ele range quando encosta peso. Lembro que a mesa onde eu apoiei a câmera tem quarenta e cinco centímetros de largura e que eu empurrei a câmera dois palmos para dentro antes de qualquer outra coisa, porque equipamento caindo é o único pensamento que eu consigo ter em qualquer circunstância.
Lembro do botão de cima da camisa preta, que eu abri, e do de baixo, que ele abriu.
Lembro do calor do softbox de noventa por sessenta, que fica quente depois de uma hora ligado e que ninguém percebe até estar perto dele.
Lembro de ter pensado, com a testa na dele, que a chave a quarenta e cinco graus é a posição mais confiável que existe justamente porque não é a mais bonita.
Depois eu parei de anotar.
Vinte e uma e dez, eu desmonto.
Desmontar leva vinte minutos e é a única parte do trabalho que eu faço no automático. Softbox, haste, sapata. O papel de fundo sobe enrolado, e tem um vinco novo na altura do joelho que vai me obrigar a cortar meio metro na próxima sessão.
Ele fica. Não pergunto se ele quer ficar e ele não pergunta se pode.
Enquanto eu enrolo cabo ele lê a parede: eu tenho umas quinze fotos impressas ali, todas de gente que eu fotografei antes de ter estúdio.
— Essa é sua mãe?
— É minha mãe em 1994.
— Você tem a boca dela.
Eu continuo enrolando cabo. Enrolar cabo é uma coisa que se faz com o cotovelo, num movimento de oito, e eu fiz umas quatro voltas erradas.
Mandei os arquivos na terça seguinte. Quarenta e um retratos tratados, dentro do prazo, com a nota fiscal.
A banda escolheu o quadro 0117, que é das dezoito e trinta e nove, antes de tudo. É a melhor foto do lote. Continua sendo, e eu ainda concordo com a escolha deles.
Tem um arquivo que eu não mandei.
É das dezenove e cinquenta e dois, com a 50, meio fora de foco no olho da frente porque eu estava perto demais para aquela abertura. Tecnicamente é uma foto ruim. Se um cliente recebesse isso, eu perderia o cliente.
Ele está olhando para a câmera de um jeito que os outros quarenta não têm.
Não porque eu pedi.
Está numa pasta que se chama sextas, e eu criei essa pasta numa quinta-feira, o que é o tipo de detalhe que eu percebo tarde e depois não consigo desver.
Eu já tinha o retrato às sete menos vinte. A gente continuou.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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