VesperaFicção adulta

Conto XXI

A segunda rodada da entrevista

Eu retirei a candidatura na sexta de manhã, por e-mail, com uma linha educada sobre alinhamento de carreira.

Foi por motivos profissionais. A vaga era de coordenação numa empresa de logística de médio porte, com um salário quinze por cento acima do meu atual e um plano de saúde pior. A conta não fechava.

Isso é verdade e não é a razão. Deixa eu contar de novo.

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A primeira rodada foi com o RH, numa quarta, por vídeo, quarenta minutos. Tudo normal. Pergunta sobre conflito com colega, pergunta sobre onde você se vê, aquele teatro que os dois lados sabem que é teatro e ninguém tem coragem de interromper.

A segunda foi presencial, com o gestor da área, na terça seguinte às sete da noite.

Sete da noite porque foi o único horário que ele tinha, e eu disse que tudo bem porque quem está procurando emprego diz que tudo bem.

O prédio é na Berrini. Andar dezoito. Quando eu cheguei, o escritório estava com metade das luzes apagadas, no modo automático de fim de expediente, e tinha três pessoas restando numa área de umas cem baias.

A sala de reunião tem parede de vidro para o corredor. Isso vai importar.

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Ele se chama Otacílio, tem quarenta e um anos e odeia o próprio nome de um jeito que ficou claro nos primeiros noventa segundos, quando ele disse "me chama de Otto, por favor" com uma ênfase que era quase um pedido de socorro.

A conversa foi boa. Preciso ser justa: foi tecnicamente boa. Ele conhecia o setor, fez perguntas que ninguém tinha feito, e quando eu falei de um projeto que deu errado em 2023 ele não fez cara de quem está anotando um ponto negativo.

Durou uma hora e vinte. Estava marcada para quarenta e cinco minutos.

Esse é o dado. Não vou enfeitar: uma reunião marcada para quarenta e cinco minutos que dura uma hora e vinte, às sete da noite, com o escritório vazio, é um dado.

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Eu disse acima que a conversa foi boa e que a razão de eu sair do processo foi o plano de saúde.

Vou refazer.

Aos cinquenta minutos ele parou de olhar o currículo impresso. Aos cinquenta e cinco, ele encostou as costas na cadeira e cruzou os braços, que é uma postura de quem parou de avaliar. Em algum momento depois disso a conversa deixou de ser sobre a vaga e passou a ser sobre um restaurante japonês que fechou na pandemia e do qual nós dois sentimos falta.

Eu deixei. Podia ter voltado para a pauta e não voltei.

Aos setenta e cinco minutos ele perguntou se eu queria água e foi buscar. Voltou com duas garrafas e fechou a porta da sala ao entrar, coisa que não tinha feito antes, e disse que era por causa do barulho da limpeza no corredor.

Tinha limpeza no corredor. Eu vi.

Também é verdade que a porta era de vidro e não segurava barulho nenhum.

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O que aconteceu na sala foi isto: nada.

Isso é literalmente exato e é a coisa mais desonesta que eu escrevi até agora.

Nada aconteceu no sentido de que ninguém encostou em ninguém. O que aconteceu foi que, quando ele voltou com as garrafas, eu tinha mudado de cadeira. Não para perto. Para a cadeira da ponta, que fica de lado para a porta de vidro, e que é a única posição naquela sala em que o corredor não vê o seu rosto.

Eu mudei de cadeira porque a luz do teto estava batendo na minha tela.

Eu não estava com tela nenhuma. Eu estava com um currículo impresso e uma caneta.

Ele reparou na mudança de cadeira. Sentou na de frente, que também é de lado para o corredor. E ficou uns quatro segundos com a garrafa na mão sem abrir, olhando para mim de um jeito que eu vou descrever como profissional porque é o adjetivo que me convém.

Não era profissional.

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A gente ficou naquela sala até as oito e vinte falando sobre absolutamente nada de relevante, a um metro e pouco de distância, com uma porta de vidro que mostrava tudo e uma equipe de limpeza que passou três vezes.

Eu contei as três vezes. Cada uma delas eu prendi o assunto no meio da frase e retomei depois, o que é uma coisa que a gente só faz quando tem alguma coisa para esconder.

Não tinha nada para esconder. Duas pessoas conversando numa sala iluminada.

Eu prendia mesmo assim.

Às oito e vinte ele olhou o relógio, disse que tinha uma reunião às sete da manhã, e a gente desceu junto no elevador com um segurança do prédio dentro, e no térreo ele apertou minha mão e disse que o RH ia entrar em contato até quinta.

A mão dele estava fria da garrafa de água.

Eu fui embora, entrei no meu carro no estacionamento do subsolo, e fiquei quatorze minutos parada com o cinto colocado sem dar a partida.

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Na quarta o RH mandou e-mail dizendo que eu tinha passado e que queriam marcar a conversa de proposta.

Na sexta de manhã eu retirei a candidatura.

Eu disse no começo deste texto que foi pelo plano de saúde. Escrevi isso e reli duas vezes antes de continuar, o que devia ter me dito alguma coisa.

A verdade é que eu retirei porque eu sabia exatamente o que ia acontecer se eu aceitasse, e não era um risco de assédio, e não era medo dele. Era o contrário. Eu sabia o que eu ia fazer, dentro de três meses, numa sala com parede de vidro, com um homem que ia ser meu chefe.

E eu gosto do meu trabalho o suficiente para não fazer isso comigo.

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Ele me escreveu no domingo. LinkedIn, mensagem curta, dizendo que respeitava a decisão e perguntando se eu topava um café, sem pauta, já que agora não havia processo nenhum entre nós.

O café foi na terça seguinte, às sete da noite, que é um horário que ninguém escolhe para café.

Durou vinte minutos.

Depois a gente foi para o apartamento dele, que é a quatro quadras, e eu não vou descrever o que aconteceu lá porque essa parte não é da conta de ninguém e porque, sinceramente, não é a parte interessante.

A parte interessante é que eu escrevi tudo isso acima sabendo do café desde a primeira linha.

Menti sobre o plano de saúde. Menti sobre a cadeira. Menti quando disse que não tinha nada para esconder das três passadas da limpeza.

E mentiria de novo, na mesma ordem, se você me perguntasse amanhã.

Marcada para quarenta e cinco minutos. Durou uma hora e vinte.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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