VesperaFicção adulta

Conto II

Mensagem às 1h47

O nome dela ainda estava salvo do jeito antigo: Clara (não responder). Ele tinha escrito isso três anos atrás, numa madrugada parecida com aquela, e depois nunca teve coragem de corrigir.

Uma da manhã e quarenta e sete. Ele estava deitado no escuro havia quarenta minutos sem dormir, com o telefone virado para baixo na mesa de cabeceira, fingindo que virar para baixo resolvia alguma coisa.

Tinha sido um jantar. Aniversário do Rubens, quarenta e dois anos, uma mesa comprida demais num restaurante italiano da Vila Madalena onde todo mundo tinha que gritar para se ouvir. Ela chegou depois de todo mundo, com o cabelo mais curto e um vestido verde-escuro, e cumprimentou ele por último.

Isso não foi acidente. Ela nunca fez nada por acidente.

Ficou sentada de frente, três lugares para a esquerda, o que significava que durante duas horas e meia ele teve que olhar na direção dela para falar com qualquer pessoa daquele lado da mesa. Ele fez isso o mínimo possível e ainda assim foi muito.

Na sobremesa alguém contou uma piada velha sobre o Rubens e o carro dele. Ela riu de uma coisa que ele não tinha dito, e olhou para ele enquanto ria.

Levou meio segundo. Foi suficiente para desmontar três anos de trabalho.

· · ·

Os três anos tinham sido construídos com método. Ele parou de curtir foto. Parou de responder story. Saiu de dois grupos onde ela estava e inventou desculpa para os dois. Uma vez, num aeroporto, viu o nome dela chegando na tela e deixou tocar até cair.

Nada disso é esquecer. É outra coisa, e ele sabia disso o tempo inteiro.

Ele pegou o telefone.

Digitou: Foi bom te ver hoje. Apagou.

Digitou: Você cortou o cabelo. Apagou. Pior.

Digitou: Ainda estou acordado. Olhou aquilo por um tempo longo. Era honesto, e era um convite, e as duas coisas juntas davam medo. Ele levou o polegar até o botão de apagar.

O telefone tremeu na mão dele.

Clara (não responder) está digitando…

Ele ficou olhando aquelas três palavras como quem olha um semáforo mudando de cor. Elas apareceram, sumiram, apareceram de novo. Do outro lado da cidade, alguém também estava apagando e reescrevendo.

A mensagem chegou às 1h49.

Eu vi você me olhando na sobremesa.

Ele respondeu antes de pensar, que era exatamente o que ele tinha passado três anos treinando para não fazer.

Eu vi você deixando.

· · ·

O que veio depois não teve nada da cautela dos três anos anteriores. Foi rápido, foi direto, e cada mensagem chegava antes que ele terminasse de ler a anterior.

Ela perguntou o que ele tinha pensado, exatamente, na sobremesa. Ele contou. Ela demorou quarenta segundos para responder, e quando respondeu foi com uma frase de sete palavras que ele leu três vezes seguidas e depois teve que colocar o telefone no peito e olhar para o teto.

— Você não pode escrever isso — ele digitou.

— Você não pode ter pensado aquilo.

— Eu penso aquilo desde o inverno.

Qual inverno?

Ele hesitou. Depois:

— Todos.

Ela ficou sem escrever por quase um minuto. Ele viu o "digitando" começar e parar duas vezes.

· · ·

Às 2h20 ela mandou o endereço.

Só o endereço, sem uma palavra antes ou depois. É o jeito de escrever de quem já decidiu e não quer dar espaço para a própria dúvida.

Ele olhou. Vinte e dois minutos de carro àquela hora. Sabia o caminho sem precisar do mapa, o que já dizia alguma coisa sobre ele.

Digitou: Tem certeza?

Apagou.

Não era pergunta honesta. Era uma forma de dar a ela a chance de recuar, e no fundo uma forma de dar a chance a si mesmo. Três anos de não responder tinham sido feitos exatamente disso: perguntas educadas que deixavam saída para os dois.

Ele apagou tudo e escreveu uma coisa só:

Vinte e dois minutos.

Estava vestido em quatro.

· · ·

A cidade às duas e meia da manhã é outra cidade. Ele fez os vinte e dois minutos em dezenove, porque não tinha ninguém na rua e porque em dois semáforos ele fez a conta do amarelo e resolveu que dava.

O rádio estava numa emissora que só toca música dos anos noventa entre meia-noite e cinco. Ele não trocou de estação e não escutou uma nota.

Parou uma vez, num posto perto da ponte, e ficou com a mão no volante sem descer do carro. Era a última chance de dar meia-volta e chegar em casa às três, dormir mal, e acordar com os três anos ainda de pé.

Ele contou até dez e engatou a primeira.

No prédio dela o porteiro estava vendo jogo gravado com o som no mínimo. Perguntou o apartamento, anotou o nome num caderno de capa dura, e liberou sem levantar os olhos da televisão.

· · ·

Ela abriu a porta antes dele bater. Estava com o mesmo vestido verde, o que significava que não tinha se trocado, o que significava que também não tinha dormido.

Nenhum dos dois falou.

Ela puxou ele pela camisa para dentro, e a porta se fechou sozinha atrás, e três anos de não responder viraram uma coisa sem importância nenhuma no espaço de meio metro de corredor.

O telefone dele caiu do bolso em algum ponto entre a porta e o sofá e ficou no chão a noite inteira, com a tela apagando e acendendo sozinha.

· · ·

Mais tarde, com a luz azul do amanhecer já entrando pela janela, ela virou de lado, apoiou o queixo na mão, e olhou para ele.

— Você me salvou como quê? — perguntou.

Ele riu, e o riso saiu culpado.

— Você não quer saber.

— Quero.

Ele contou. Ela ficou em silêncio por um segundo. Depois pegou o telefone do chão, desbloqueou com a senha que ele nunca tinha trocado em três anos, e apagou o parêntese.

Devolveu o telefone e deitou de novo.

— Pronto — disse. — Agora responde.

Ele apagou a mensagem quatro vezes. Na quinta, mandou.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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