VesperaFicção adulta

Conto XXVI

Quatro dias sem falar

O folheto diz o seguinte, e o folheto é escrito antes, então está todo no futuro.

Os participantes chegarão numa quinta-feira entre as quinze e as dezessete horas. Entregarão os celulares numa caixa de papelão identificada com o próprio nome, e a caixa será guardada na secretaria e devolvida no domingo ao meio-dia.

Às dezoito horas haverá uma refeição leve. Às vinte, a leitura das regras.

A partir da leitura das regras ninguém mais vai falar.

Serão dezenove pessoas. É quase sempre esse número, porque o salão tem vinte lugares e alguém desiste na véspera.

· · ·

As regras vão ser lidas por uma mulher de sessenta e poucos anos que conduz esses quatro dias desde 2009, e ela vai ler devagar, sem dramatizar nada, porque quem dramatiza regra transforma regra em promessa.

Não haverá conversa. Não haverá leitura, escrita, música, exercício físico competitivo, nem contato visual prolongado.

Essa última é a que quase ninguém leva a sério na quinta e todo mundo entende na sexta.

Os dormitórios serão separados. O salão, não: os lugares são numerados por ordem de inscrição e ficam em quatro fileiras de cinco, e a pessoa senta no seu número nas quatro sessões do dia, todos os dias, sem trocar.

O lugar 9 vai ser de um homem de uns quarenta anos que chegou de carro alugado. O lugar 14, de uma mulher que chegou de ônibus e caminhou os últimos dois quilômetros com uma mochila que era grande demais para quatro dias.

Na planta do salão, o 9 e o 14 ficam na diagonal, a três metros e meio um do outro.

· · ·

O sino vai tocar às quatro e meia da manhã.

Primeira sessão às cinco. Café às sete. Segunda sessão às oito e meia. Período de trabalho às dez, que é quando cada um recebe uma tarefa em um papel dobrado. Almoço ao meio-dia e quinze. Terceira sessão às quatorze. Chá às dezessete. Quarta sessão às dezoito e trinta. Luzes apagadas às vinte e uma e trinta.

Nada disso vai variar em quatro dias, e é justamente por não variar que as pessoas começam a enxergar coisas que em casa passam despercebidas.

Na sexta de manhã, por exemplo, o homem do lugar 9 vai perceber que a mulher do lugar 14 senta antes de todo mundo e sai depois de todo mundo, e que ela não se mexe durante a sessão. Nem uma vez. Quarenta e cinco minutos.

Ele vai achar que ela já fez isso antes. Vai estar errado: é o primeiro retiro dela, e o motivo de ela não se mexer é outro, e ele nunca vai saber qual, porque ninguém aqui vai contar nada a ninguém.

· · ·

O papel dobrado do período de trabalho é sorteado, e o sorteio não é ajustado por ninguém.

Na sexta os dois vão tirar a mesma tarefa: lenha.

O depósito fica atrás da cozinha, é coberto de telha translúcida e tem uma porta de correr que emperra no trilho. O serviço consiste em levar as achas da pilha de fora para a pilha de dentro, empilhando com o corte para cima, para secar.

Duas pessoas, uma hora e quarenta, sem trocar uma palavra e sem poder olhar de frente.

O que sobra são as mãos.

Sobra decidir quem pega primeiro, quem espera, quem segura a acha grande de um lado enquanto o outro segura do outro, quem cede o espaço estreito entre a pilha e a parede quando os dois precisam passar ao mesmo tempo, e quem não cede.

No sábado a tarefa vai se repetir, porque o sorteio de sábado é feito na sexta à noite e a mulher que conduz o retiro repete as duplas que funcionaram.

Ela repete por eficiência. Ela vai ter setenta e dois anos quando entender o que fez.

· · ·

Vai chover na noite de sábado, e vai chover em telha translúcida, que é o barulho mais alto que existe.

Às vinte e uma e trinta as luzes vão se apagar. Às vinte e três a chuva ainda vai estar caindo.

No dormitório masculino haverá cinco homens e um deles ronca. No feminino haverá onze mulheres e uma janela que não fecha inteira.

O silêncio de um retiro não é ausência de barulho. É ausência de explicação. As coisas continuam acontecendo e ninguém comenta nenhuma delas, e é isso, e não o barulho, que vai fazer quatro dias parecerem três semanas.

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Isso tudo está no folheto, ou é consequência direta do que está no folheto.

O que segue não está.

Às quatro e vinte da manhã de domingo, dez minutos antes do sino, a porta de correr do depósito de lenha estava aberta trinta centímetros, que é o quanto ela abre antes de emperrar.

Estava frio e a chuva tinha parado por volta das duas.

Eles não falaram. Isso precisa ficar claro, porque é o único fato que os dois teriam confirmado depois se alguém tivesse perguntado: em nenhum momento, nem antes nem durante, nenhum dos dois disse uma palavra.

Havia cheiro de eucalipto cortado, que é doce e um pouco enjoativo, e a pilha de dentro estava na altura do ombro dela porque eles mesmos empilharam até ali na tarde anterior.

O casaco dele ficou no chão de terra batida e voltou para o dormitório com terra, e às cinco horas, na primeira sessão, ele estava vestindo esse casaco.

Ela sentou no lugar 14 antes de todo mundo, como nos outros três dias, e não se mexeu por quarenta e cinco minutos.

· · ·

Ao meio-dia de domingo o sino tocou três vezes e a regra caiu.

Dezenove pessoas voltaram a falar ao mesmo tempo, o que sempre acontece e é sempre desagradável, e a secretaria devolveu as caixas de papelão com os celulares.

Ele foi embora às treze e dez, de carro alugado. Ela pegou o ônibus das quatorze e quarenta na estrada.

Nenhum dos dois sabe o nome do outro até hoje. Retiro não usa crachá.

O próximo será em março, de quinta a domingo, com as mesmas dezenove vagas e o mesmo folheto, escrito antes e todo no futuro.

As inscrições abrem em janeiro.

Os dois já pagaram.

Quatro dias, dezenove pessoas, nenhuma palavra. Os dois já pagaram o de março.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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