Conto XXXIX
O que se ouve do corredor
Em dez noites eu aprendi aquele hospital de ouvido, e isso acontece com todo acompanhante, e ninguém avisa.
Acompanhante não trabalha e não descansa. Você senta numa cadeira de plástico e espera uma coisa que não tem horário. E como não tem o que olhar, porque o quarto é escuro e o corredor é sempre igual, sobra escutar.
Meu pai deu entrada num sábado com a fala embolada e o braço direito parado. Ficou dez noites no quarto andar, leito B.
A primeira coisa que se aprende é a bomba de infusão.
Ela apita quando a medicação termina, e apita até alguém vir. Não é um alarme grave, é um bipe fino e paciente, de três em três segundos, e a técnica sabe que não é urgência e às vezes leva doze minutos.
Na segunda noite eu já distinguia a bomba do leito A da bomba do leito B pelo intervalo.
Depois vem o resto. A tosse do senhor do quarto 408, que é de fumante antigo e vem em séries de quatro. A televisão do 411, que fica ligada a noite inteira porque a filha dele acha que o som é companhia. O carrinho da limpeza, que passa às quatro e dez com uma roda empenada.
E o elevador de serviço, que não fecha de primeira. Ele tenta, bate, recua e tenta de novo. São dois bangues com meio segundo entre eles, e eu ouvi aquilo umas quatrocentas vezes.
As vozes têm hora marcada.
Às sete da noite e às sete da manhã é a troca de plantão, que é o único momento em que o corredor fala alto. Dez minutos de gente lendo prescrição em voz de quem já está indo embora.
Entre meia-noite e cinco, ninguém fala. Nem os acompanhantes. Isso não é regra escrita: é que às duas da manhã já não existe assunto.
O Genésio estava na cadeira ao lado desde a terceira noite.
Mulher dele, leito A do 406, três quartos adiante do meu pai. Ele tinha chegado antes de mim no hospital e saiu depois.
Nas primeiras noites a gente dividiu só informação de serviço: onde fica o bebedouro que funciona, que a copa libera café às cinco e meia, que o segurança da entrada C deixa passar com marmita e o da entrada principal não.
A conversa de acompanhante tem uma ordem que eu conheci ali e nunca mais esqueci.
Primeiro o diagnóstico, que todo mundo recita como quem repete uma coisa decorada no balcão. Depois o médico, se é bom ou se é apressado. Depois o convênio ou a falta dele. Depois a casa, o trabalho que ficou parado, o irmão que mora longe e liga para perguntar se precisa de alguma coisa sabendo que a resposta vai ser não.
Só depois disso, muito depois, é que aparece o resto.
Na sexta noite ele me contou, baixo, que a mulher dele não ia sair dali e que o médico tinha dito isso com três palavras na quarta-feira.
Eu não respondi nada. Não existe resposta e quem tenta responder só piora.
A bomba do leito B apitou e eu entrei e desliguei e voltei, e quando voltei ele continuava ali, sentado do mesmo jeito, e eu sentei do mesmo jeito.
Sobre o corpo, que é o assunto que ninguém associa a hospital.
Dez noites em cadeira de plástico fazem o corpo doer num lugar que não é a coluna e não é a perna. Dói o corpo inteiro, de um jeito surdo, e esse cansaço derruba a vergonha antes de derrubar qualquer outra coisa.
Na oitava noite eu estava com a mesma blusa de dois dias e não me importava. Ele estava de barba de quatro dias. Nenhum dos dois tinha nada a parecer para ninguém.
É um estado muito específico. Você não está bem, não está disponível, não está procurando nada. E, ao mesmo tempo, qualquer pele que encoste na sua vira a coisa mais informativa do andar.
A gente ficou de mãos dadas na nona noite, nas cadeiras, por umas duas horas, sem comentar.
A escada entre o quarto e o quinto andar é a única parte daquele prédio onde não se ouve nada.
O quinto estava desativado para reforma desde o ano anterior, com a porta fechada e uma fita colada. A escada entre os dois ficava vazia, com luz de emergência verde e um corrimão de ferro pintado tantas vezes que já era mais tinta que ferro.
Eu subi lá na décima noite por volta de uma e meia porque precisava chorar sem ninguém.
Ele subiu uns dez minutos depois, pelo mesmo motivo.
O que aconteceu entre a uma e quarenta e as duas e vinte fica fora deste texto, e não por pudor. É que eu passei dez noites escutando aquele andar e aquela foi a única meia hora em que eu não escutei nada, e não tenho como contar com som o que não teve.
O degrau é de granilite e é frio. Isso eu lembro.
Descemos separados, com uns cinco minutos de diferença, e o elevador de serviço bateu duas vezes enquanto eu voltava para a cadeira.
Meu pai foi para casa na manhã seguinte, com a fala voltando e o braço ainda ruim. Alta às dez e quarenta.
A mulher do Genésio morreu em novembro, em casa, e eu só soube porque procurei.
A gente não trocou telefone no hospital. Trocou na calçada, na hora da alta, em pé, enquanto eu esperava o carro do meu irmão, e foi uma conversa de quarenta segundos sobre nada.
E foi ali, naquela calçada, às dez e quarenta da manhã, com sol, que eu olhei para ele.
Dez noites de corredor, com luz de emergência e cortina fechada, e eu tinha aprendido a voz dele, o passo dele, o jeito que ele respirava quando estava para falar alguma coisa e desistia. Eu não sabia a cor dos olhos dele. Não sabia que ele era muito mais baixo que eu, nem que tinha uma cicatriz atravessando a sobrancelha esquerda.
Dez noites aprendendo um andar de ouvido. Na calçada, com sol, eu olhei para ele pela primeira vez.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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