Conto XLII
O sinal de reserva
Embaixo da água não existe conversa. Existe vocabulário, e ele é pequeno.
São umas vinte e cinco mãos no total, e num curso básico você usa doze. Doze gestos para tudo. Para quanto ar sobrou, para estou com problema, para me acompanha, para sobe agora.
Eu fiz o curso com quarenta e quatro anos e com medo de água. Não medo de afogar: medo de não poder respirar quando eu quisesse, que é outra coisa e é pior.
Foram seis sessões num poço de cinco metros, à noite, terças e quintas.
Polegar para cima.
Primeira coisa que se aprende e a primeira que todo mundo erra. Polegar para cima não quer dizer que está tudo bem. Quer dizer sobe, agora, encerra.
Quem faz esse sinal querendo dizer "beleza" interrompe a aula de todo mundo. Eu fiz na primeira sessão e o Durval me levou para a superfície antes que eu entendesse por quê, e só na borda ele explicou, sem rir, que o sinal de tudo bem é outro.
A lição real é que ali as palavras não têm margem. Você não pode se explicar depois.
Círculo com o polegar e o índice.
Esse é tudo bem, e é pergunta e resposta ao mesmo tempo. O instrutor faz, você responde igual, e isso acontece a cada dois minutos durante uma hora.
Na segunda sessão eu já respondia sem pensar. Na terceira eu percebi que eu olhava para a mão dele antes de ele levantar a mão.
Sobre isso não há nada a comentar em termos de curso. Em termos de qualquer outra coisa, há.
Dois dedos nos olhos, depois apontar.
Olhe ali. É o sinal de atenção dirigida, e é o único que manda você desviar o olho de quem está falando.
Num poço de cinco metros não tem nada para olhar. Azulejo, a escada, a grade do ralo de fundo e um relógio de parede submerso que o clube instalou nos anos noventa e que ainda funciona.
Então esse sinal, nas sessões dele, virava uma piada técnica: ele apontava para o relógio quando eu estava consumindo ar rápido demais, para me dizer que eu estava com pressa de uma coisa que não tinha pressa.
Sobre o equipamento, que é onde mora a parte que ninguém explica em folheto.
Antes de cada entrada tem conferência de dupla. Isso é obrigatório e é feito no outro, não em si mesmo. Você confere o colete do colega apertando as fivelas, confere a válvula girando o volante do cilindro, confere o inflador puxando a traqueia, e confere o cinto de lastro com a mão por dentro, para ver se está pela frente e se solta de primeira.
São quatro pontos. O do lastro fica na cintura, do lado, e você precisa passar a mão entre o colete e o corpo da pessoa para alcançar.
Seis sessões, duas conferências por sessão, as duas em sentidos alternados. Vinte e quatro vezes.
A gente de roupa de neoprene de cinco milímetros não sente temperatura. Sente pressão. Mão em cima de neoprene é uma informação sem calor nenhum e nem por isso é menos informação.
Mão aberta, palma para baixo, balançando.
Alguma coisa está errada. É um sinal genérico de propósito, porque debaixo da água não dá para especificar.
Eu fiz na quarta sessão, a quatro metros, no exercício de remoção e recolocação de máscara.
Esse exercício é o que derruba mais gente no curso básico. Você tira a máscara, fica vinte segundos sem ela, com os olhos abertos na água e o nariz exposto, respirando só pela boca, e depois coloca de volta e expulsa a água soprando pelo nariz.
É simples e é contra tudo o que o corpo acha. Eu entrei em pânico na primeira tentativa e fiz o sinal.
O que ele fez é protocolo, e eu li depois no manual para conferir se tinha sido protocolo: segurou meu colete na frente com a mão esquerda, encostou a testa na minha testa, e fez o sinal de respire devagar com a mão direita entre nós dois.
Testa na testa está no manual. Está escrito "contato firme e estável". Eu procurei.
Ficamos assim por um tempo que eu não sei medir, e nesse tempo a única coisa que existia no mundo era o barulho do meu próprio ar saindo do regulador.
Na segunda tentativa eu fiz o exercício inteiro.
Punho fechado na altura do peito.
Reserva. Quer dizer que o ar chegou em cinquenta bar e que o mergulho acabou, independentemente de qualquer outra coisa.
É o sinal mais honesto do vocabulário porque não tem apelação. Não existe discussão sobre reserva. O manômetro diz, você faz o sinal, os dois sobem.
Na sexta sessão, que era a última, eu fiz o sinal de reserva aos cinquenta e dois minutos, com o ar em oitenta bar.
Oitenta não é reserva. Oitenta é ar para mais dez minutos num poço de cinco metros.
Ele olhou o meu manômetro, como manda o procedimento quando alguém sinaliza reserva, e viu oitenta.
E subiu comigo.
O vestiário do clube às vinte e duas e quarenta, numa terça, tem a luz de um corredor e mais nada, porque o clube apaga o resto às vinte e duas e meia.
Tirar neoprene molhado não dá para fazer com elegância. Tirar o de outra pessoa leva menos.
O banco é de madeira ripada e está parafusado no chão, e foi onde a minha máscara ficou até eu lembrar dela na quinta-feira seguinte.
Eu terminei o curso. Tenho carteira, fiz quatro mergulhos em mar aberto depois disso e não mergulho mais, porque descobri que gosto de poço e não gosto de mar.
O Durval continua dando aula no mesmo clube, nas terças e quintas, para turmas de seis.
A primeira coisa que se fala quando a cabeça sai da água é sempre técnica, porque é o que está na ponta.
Naquela noite ele tirou o regulador e disse "oitenta bar", olhando para mim, e esperou.
Eu tirei o meu e perguntei quando abria a próxima turma.
Doze sinais de mão para tudo. Eu sinalizei reserva com oitenta bar, e ele subiu comigo.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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