Conto XXXVIII
A avaliação prática
Bom dia. Vocês são vinte e quatro e vão sair daqui amanhã às dezessete horas com certificado de brigadista, desde que cumpram a carga horária inteira e passem na avaliação prática.
Quem faltar meia hora não recebe. Isso não é rigor meu, é a norma, e eu já perdi a discussão sobre isso umas duzentas vezes.
Eu dou esse treinamento desde 2011, umas quarenta turmas por ano, quase sempre em empresa. Vocês são de uma distribuidora de material elétrico e foram escolhidos pelo RH, o que quer dizer que metade de vocês não quis estar aqui.
Tudo bem. Em dois dias isso muda, e muda por um motivo que eu vou explicar no fim.
Primeiro a teoria, que é chata e é curta. Triângulo do fogo, classes A, B, C, D e K, agente extintor certo para cada uma, rota de fuga, ponto de encontro.
Depois de quatro horas disso vocês vão para o estacionamento dos fundos, e aí começa a parte que interessa.
Agora vocês vão formar duplas.
A dupla é de vocês até o fim do treinamento. Não troca no segundo dia, não troca depois do almoço, não troca porque não deu certo. Isso é de propósito: numa emergência real vocês não escolhem com quem trabalham.
Formem.
Isto eu não falo em sala: em catorze anos eu nunca vi uma turma formar dupla por sorteio. Ninguém sorteia. Cada um vai direto em alguém, e leva onze segundos em média, e o que acontece nesses onze segundos diz mais sobre uma empresa do que qualquer pesquisa de clima.
Vocês levaram nove.
Extintor primeiro. Bandeja de dois metros quadrados, diesel com um dedo de água embaixo, chama de uns oitenta centímetros.
Um da dupla apaga, o outro fica atrás com a mão no ombro dele. A mão no ombro não é conforto: é para o de trás avisar quando é hora de recuar, porque quem está com o extintor na cara do fogo não escuta nada.
Vocês vão fazer isso quatro vezes cada um, alternando.
Oito mãos no ombro por dupla. Dezesseis, contando os dois sentidos.
Segundo dia, oito da manhã. Hoje é resgate, e resgate é o dia em que ninguém sai igual como entrou.
Reanimação cardiopulmonar no manequim: trinta compressões, duas ventilações, cinco ciclos, troca. Compressão de qualidade afunda cinco centímetros e cansa o braço de gente treinada em noventa segundos. Vocês vão descobrir isso.
Depois imobilização em prancha rígida, e aí a vítima não é manequim. A vítima é a sua dupla.
Vocês vão deitar um no chão do estacionamento, em cima da prancha, e o outro vai passar três tirantes: peito, quadril e pernas. Depois colar cervical, depois o tirante de cabeça.
Para apertar tirante de quadril em alguém deitado você precisa passar a mão por baixo da lombar da pessoa, encontrar a fivela do outro lado sem olhar, e puxar até travar.
Isso leva de quarenta a setenta segundos quando é a primeira vez.
Vocês vão fazer duas vezes cada um, invertendo quem deita.
Isto eu também não falo: a imobilização é o exercício em que eu paro de olhar para o exercício e começo a olhar para as turmas. Vinte e quatro adultos de camisa social e crachá, deitados no chão do próprio estacionamento, sendo amarrados por alguém do setor ao lado. Não tem como isso ser neutro e a norma não previu isso em lugar nenhum.
Duas coisas sobre vocês dois, que eu vou dizer aqui e não disse lá.
A primeira: quando ela deitou, você não perguntou se podia. Todo mundo pergunta. Em catorze anos, todo mundo pergunta alguma coisa antes de encostar, nem que seja "posso?", nem que seja para preencher o silêncio. Você não perguntou e ela não esperou pergunta nenhuma.
A segunda: o tirante do quadril você apertou em vinte e dois segundos, que é tempo de instrutor, não de aluno de primeiro dia. Ou você já fez isso antes, ou você não estava procurando a fivela.
Eu apitei o fim do exercício quarenta segundos depois do que apitaria numa turma normal. Isso é responsabilidade minha e eu registro aqui que foi deliberado.
Quinze e quarenta: simulação de abandono. Sirene, fumaça fria, saída pelas escadas até o ponto de encontro no pátio.
Nessa etapa eu perco vocês de vista por três minutos e meio, porque eu fico no ponto de encontro cronometrando a chegada, e o prédio tem seis andares e três escadas.
A dupla de vocês chegou em quatro minutos e dez, que é o pior tempo da turma, e a justificativa registrada na minha ficha é "conferência do pavimento 3", que é o que vocês me disseram e que eu escrevi sem perguntar mais nada.
O pavimento 3 é depósito de embalagem. Fica trancado desde 2023.
Dezessete horas. Fim.
Foi um prazer, a turma foi boa, e é sério: turma que participa aprende, e isso aqui um dia pode ser útil de um jeito que ninguém quer descobrir.
A ficha de avaliação de cada um tem onze itens e eu marco A de adequado ou R de refazer. Vocês dois têm onze A, como outras nove pessoas desta turma.
Eu assino embaixo, com meu registro profissional, e a empresa arquiva por dois anos.
O que eu assino é que vocês dois sabem apagar princípio de incêndio em bandeja, fazer trinta por duas num manequim e imobilizar um adulto em prancha rígida sem agravar lesão.
É isso que eu assino. Não existe campo na ficha para o resto, e se existisse eu também não saberia o que escrever nele.
Vinte e quatro pessoas, dois dias, onze itens de avaliação. O pavimento 3 fica trancado desde 2023.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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