VesperaFicção adulta

Conto XXX

A latada do fundo

Você vai descer do ônibus num domingo de janeiro, umas cinco da tarde, com uma mochila e um par de tênis que não vai servir para nada.

O Valmor vai te buscar na estrada com a caminhonete e não vai fazer pergunta nenhuma, porque ele contrata quarenta pessoas por safra e já desistiu de decorar nome antes da quarta-feira.

O alojamento fica atrás do galpão. Doze beliches, dois banheiros, uma televisão que pega três canais e um varal que nunca seca nada porque na serra chove toda tarde de janeiro.

Você vai dormir mal a primeira noite. Todo mundo dorme.

· · ·

Na segunda o despertador toca às quatro e vinte, e você vai achar que é maldade.

Não é. Uva colhida quente chega no galpão fermentando por conta própria, e uva colhida fria chega inteira. Por isso a turma sai para o parreiral às cinco, com lanterna de cabeça, e a melhor hora do dia inteiro já passou antes de o sol aparecer.

Você vai receber uma tesoura de poda, uma caixa plástica de vinte quilos e uma fileira.

A tesoura corta o pedúnculo, que é o cabinho que segura o cacho. O cacho cai na sua mão e você tem que segurar pelo ombro dele, não pelas bagas, senão você amassa e a uva amassada oxida antes de chegar na balança.

Você vai amassar umas trinta na primeira manhã. Ninguém vai falar nada.

Ao meio-dia suas costas vão doer de um jeito específico, na altura do cós, que é o que dá em quem passa sete horas curvado a noventa centímetros do chão.

Isso melhora no quarto dia. Melhora de verdade, não é conversa de encorajamento.

· · ·

Na terça você vai reparar na Dalva.

Ela tem quarenta e quatro anos, vem de Chapecó todo janeiro desde 2016, e colhe quase o dobro do que você vai colher no seu melhor dia. Isso não é força. É que ela não olha para a tesoura.

Quem é novo olha para a mão. Quem já fez oito safras olha para o cacho seguinte enquanto corta o de agora, e é por isso que a diferença entre você e ela vai ser de sessenta caixas contra trinta e duas.

Ela vai te ensinar a pegar pelo ombro do cacho na quarta-feira, sem que você peça, porque ela cansou de ver você amassando fruta.

Para ensinar isso, ela vai segurar a sua mão. Uns quatro segundos.

Você vai passar o resto da quarta pensando nisso, e vai colher trinta e nove caixas, que é o seu melhor número até ali, e não vai relacionar as duas coisas até muito depois.

· · ·

Sobre a geografia, que importa mais do que parece.

A propriedade tem nove talhões. Do galpão você enxerga do 1 ao 6, porque o terreno cai para o vale e fica tudo à vista como uma arquibancada.

O 7 fica atrás de uma lomba, com mato alto de um lado e o açude do outro. É o único que não se vê de lugar nenhum, e é por isso que ele é sempre o último a ser colhido: dá trabalho levar caixa de lá.

Na segunda semana o Valmor vai mandar dois no 7 enquanto o resto termina o 4.

Ele escolhe por rendimento, não por outra coisa. Ele vai mandar a Dalva, que é a melhor, e vai mandar você, que a essa altura já vai estar em cinquenta caixas e já vai ter aprendido a não olhar para a tesoura.

· · ·

Vai fazer trinta e um graus naquela quinta-feira, o que na serra é muito.

Latada é diferente de espaldeira: a parreira de latada cresce por cima, como um teto, e você trabalha embaixo dela o dia inteiro, numa sombra verde de dois metros de altura que abafa o som e esconde qualquer pessoa a partir de uns dez metros de distância.

Você vai perceber isso lá pelas dez da manhã, e vai perceber que ela percebeu antes.

O chão do talhão 7 é de terra vermelha coberta de bagaço, folha velha e uva caída, e é macio de um jeito que nenhum chão de parreiral tem direito de ser.

A caixa que estava pela metade vai continuar pela metade por um tempo considerável.

Você vai voltar para o galpão às quatro e dez com quarenta e uma caixas, que é menos do que você vinha fazendo, e o Valmor vai olhar o número e não vai falar nada, porque o 7 é longe e todo mundo rende menos lá.

É isso que ele vai pensar. Ele contrata quarenta pessoas por safra.

· · ·

A safra vai durar mais oito dias.

Vocês vão voltar ao 7 na sexta e no sábado, porque o talhão é grande e porque o Valmor não desmancha dupla que está rendendo, e ele nem vai perceber que foi ele quem fez essa.

No alojamento ninguém vai comentar. Doze pessoas dividindo dois banheiros sabem de tudo e falam de quase nada, e essa é a única etiqueta que existe ali.

No último domingo o ônibus sai às seis da manhã, e ele leva todo mundo para a rodoviária de Bento ao mesmo tempo, com as mesmas mochilas e o mesmo cheiro de mosto que não sai da roupa nem com três lavagens.

A Dalva vai pegar o de Chapecó. Você vai pegar outro.

Nenhum dos dois vai pedir telefone, e isso não vai ser um esquecimento.

· · ·

Você vai voltar no ano que vem. Quase todo mundo volta, e o Valmor conta com isso na hora de fechar a folha.

Ela também vai voltar.

E o talhão 7 vai continuar atrás da lomba, sem vista de lugar nenhum, sendo colhido por último porque dá trabalho levar caixa de lá.

Eu volto há onze anos, e não é pela diária, e você vai entender isso por volta do quinto dia.

Nove talhões, e o 7 é o único que não se vê do galpão. Ninguém comenta no alojamento.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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