Conto XXXII
O botão de tosse
Trinta minutos é o turno, e trinta minutos é o limite real, não uma convenção sindical.
Passado disso a cabeça começa a entregar coisa errada: número trocado, negativa perdida, o verbo no tempo que não era. Quem trabalha sozinho por quatro horas acha que está indo bem. Está, na cabeça dele.
A cabine tem dois metros por dois, vidro para a sala, dois consoles, dois pares de fones e um ar-condicionado próprio que ninguém nunca conseguiu regular.
Eu e o Túlio dividimos esta há quatro dias.
É uma arbitragem. Três árbitros, duas partes, uma sala de audiência no décimo quinto andar de um escritório da Faria Lima, com janela cega e café ruim.
Trabalhamos português e inglês. Quando a parte russa fala, ninguém aqui entende nada: a cabine russa traduz para o inglês, e eu pego o inglês deles e entrego o português.
Isso se chama relé. Significa que o que sai da minha boca já passou por outra pessoa antes, e que o atraso dobra, e que se o colega da outra cabine errar eu erro junto e com convicção.
Não é uma situação confortável. É a situação.
"A requerente reitera que a notificação de 14 de março foi recebida e não foi respondida em nenhum momento."
Essa fui eu. A voz é minha, o fôlego é meu, a escolha de "reitera" em vez de "repete" é minha. O resto não.
O console tem um botão à esquerda do microfone que corta o canal enquanto está apertado. Serve para tossir, para pigarrear, para xingar quando o orador lê um texto decorado a duzentas palavras por minuto.
Enquanto ele está apertado, a sala não ouve nada do que se diz aqui dentro.
Quem trabalha em cabine aprende a usar isso com uma naturalidade que assusta gente de fora. Você está falando com quatrocentas pessoas nos fones, aperta um botão, diz ao colega "número, me dá o número", solta o botão, e continua a frase no ponto exato em que parou.
O Túlio tem uma mão muito boa para isso. Aperta e solta sem estalo, e o estalo aparece na gravação.
No primeiro dia ele apertou para me dizer que eu tinha traduzido "prescrição" onde era "preclusão". Eu corrigi no ar sem que ninguém percebesse, que é o que se faz.
No segundo dia ele apertou para dizer que a minha voz estava melhor que a da manhã e que eu devia ter dormido.
Eu não tinha dormido.
Sobre o corpo, que ninguém explica em curso de intérprete.
Dois metros por dois com dois consoles deixa uns quarenta centímetros entre uma cadeira e outra. O microfone fica na frente de cada um, e para apertar o botão do colega, quando é urgente, você atravessa esse espaço.
Quem está de turno não pode se mexer muito, porque cadeira de escritório range e o range entra no canal. Então quem está fora do turno é quem anda: pega água, vira a página do glossário, encosta no ombro de quem está falando para avisar que faltam cinco minutos.
Encostar no ombro é protocolo. Fizemos isso umas quarenta vezes em quatro dias.
E existe o décalage, que é o atraso entre o que o orador diz e o que eu entrego. Uns três segundos, quatro no relé. Dentro desses três segundos eu estou segurando na cabeça uma frase inteira que ainda não terminou, em outra língua, enquanto falo em voz alta a frase anterior.
É por isso que intérprete cansado troca número. E é por isso que ninguém em cabine consegue prestar atenção em mais nada: o que acontece ali dentro acontece entre duas pessoas que estão, as duas, sem nenhuma atenção sobrando.
"O tribunal indefere o pedido de dilação de prazo e determina que a instrução prossiga."
Essa também fui eu, quinta-feira, onze e dez da manhã.
Na quinta à tarde a parte russa apresentou a alegação final, que durou uma hora e quarenta minutos sem intervalo.
Uma hora e quarenta em relé é o pior serviço que existe. Eu peguei vinte e cinco minutos, ele pegou vinte e cinco, e na terceira rodada eu já não sabia mais se estava traduzindo ou repetindo.
Às quinze e cinquenta o áudio da cabine russa caiu.
Quando o relé cai, o intérprete não tem o que fazer. Você anuncia "o intérprete está sem som" e espera o técnico. A sala inteira fica sem português e ninguém no tribunal sabe por quê.
Levou onze minutos.
Onze minutos com os dois microfones fechados, dentro de uma caixa de vidro de dois metros, com quarenta pessoas do outro lado olhando para os árbitros e nenhuma delas olhando para cá, porque ninguém olha para a cabine.
O botão de tosse não foi usado, porque não havia canal para cortar.
O ar-condicionado próprio, que ninguém nunca conseguiu regular, estava em dezenove graus.
Quando o som voltou, o técnico avisou pelo interfone e eu disse que estávamos prontos.
A primeira frase que eu traduzi depois disso foi sobre juros de mora.
Sexta foi o último dia e foi curto: réplicas, cronograma de memoriais, encerramento.
A gravação da sessão fica com o tribunal e tem quatro canais. No canal português existem onze minutos de silêncio na tarde de quinta, com a marcação técnica de falha de sinal na ata.
O Túlio mora em Lisboa e faz esse tipo de caso umas seis vezes por ano. Eu moro aqui. A gente vai se cruzar de novo, porque o mercado é pequeno, e nenhum dos dois vai marcar nada.
Às dezessete e vinte de sexta o presidente do tribunal falou a última frase da audiência, e era o meu turno.
"Nada mais havendo a tratar, agradeço a todos e declaro encerrada a sessão. Os senhores podem retirar os fones."
Quatro dias, turnos de trinta minutos. Onze minutos de silêncio constam da ata como falha de sinal.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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