Conto XXXIII
O forno abre amanhã
Você deixou a chave do ateliê na caixa de correio, dentro de um envelope, sem bilhete. Eu achei quatro dias depois porque quase não abro aquela caixa.
Estou escrevendo isso para ninguém, o que é diferente de escrever para você.
Dividimos o espaço por dois anos e três meses. Você pagava um terço porque usava um terço: o torno da direita, duas estantes de secagem e a prateleira de cima do armário de esmalte, que era a única que alcançava sem escada.
A rotina era terça e quinta à noite e sábado o dia inteiro. Você chegava depois de mim e saía depois de mim, sempre, mesmo nos dias em que eu ficava até tarde.
A gente ouvia rádio porque nenhum dos dois quis nunca decidir o que tocar, e rádio resolve isso ao custo de ouvir propaganda de loja de colchão duas vezes por hora.
Em dois anos tivemos três discussões sérias, todas sobre esmalte, nenhuma sobre outra coisa.
O forno é elétrico, de setenta litros, e fica na saleta dos fundos porque puxa trinta amperes e a instalação lá é de 1990.
Queima alta sobe até 1250 graus em oito horas e meia, com patamar de vinte minutos no fim. Depois desliga sozinho.
E aí começa a parte que ninguém de fora entende: o resfriamento leva doze horas e não pode ser apressado. Abrir com o forno quente é choque térmico. Choque térmico trinca tudo o que está dentro, inclusive o que estava perfeito, e a trinca aparece três dias depois, quando você já achou que tinha escapado.
Então a regra é simples e é absoluta. Carregou e ligou, o forno abre amanhã.
Você achava isso insuportável. Falava que a cerâmica é o único ofício em que a pessoa faz a coisa e depois é obrigada a ir embora e voltar no dia seguinte para ver se deu certo.
Eu falava que é por isso que ela ensina alguma coisa.
Nenhum de nós dois estava discutindo cerâmica.
A queima de 11 de agosto foi a maior que a gente fez junto.
Você tinha dezessete peças para a feira de setembro, eu tinha nove, e um forno de setenta litros não comporta vinte e seis peças a menos que as duas pessoas concordem sobre cada centímetro de prateleira.
Carregar forno com alguém é uma negociação de três horas. Peça esmaltada não pode encostar em nada, porque o esmalte funde e cola. Cada uma vai sobre três pinos, e os pinos deixam três marcas embaixo que você lixa depois. A estante de refratário se apoia em colunas, e a altura das colunas define quantas camadas cabem.
Você quis que a sua tigela grande, a de trinta e dois centímetros, ficasse na camada de baixo. Eu falei que na de baixo o esmalte escorre mais, porque a resistência de baixo é a mais velha do forno.
Você insistiu. Eu cedi, e não cedi por convencimento.
Liguei às vinte e uma e dez de uma terça-feira.
O ateliê tem uma pia industrial, um piso de cimento queimado que a gente lavava com rodo toda sexta, e um sofá de dois lugares que veio da casa da minha mãe em 2019 e que nenhum dos dois nunca admitiu que era confortável.
Às vinte e uma e dez o forno estava ligado e não havia mais nada a fazer no ateliê. Nada. Barro coberto, torno lavado, esmaltes fechados.
Você não foi embora e eu não pedi para você ir.
Ficamos por causa do forno, que é o motivo que a gente deu, e o forno estava na saleta dos fundos fazendo um ruído baixo de resistência, e a saleta fica a sete metros do sofá.
Havia argila seca no seu antebraço até o cotovelo, do jeito que fica em quem centrou barro a tarde inteira, e ela solta em placa quando molha.
Eu sei disso porque molhou.
O piso de cimento queimado é frio o ano inteiro, e a gente descobriu naquela noite que isso deixa de ser um problema depois de um tempo.
Às seis e meia da manhã o forno marcava 340 graus e faltavam cinco horas.
Você tomou café em pé, encostada na pia, com a camiseta do avesso, e falou que ia para casa trocar de roupa e voltar ao meio-dia para a abertura.
Não voltou ao meio-dia. Não voltou na quinta. Mandou uma mensagem no sábado dizendo que tinha aceitado uma coisa em Florianópolis que estava em aberto desde junho e que você nunca tinha mencionado.
Eu respondi que estava tudo bem, porque é o que se responde.
A chave chegou na caixa de correio na semana seguinte.
Abri o forno sozinho na quarta-feira, meio-dia e dez, com vinte e seis peças dentro e dezessete delas suas.
Saiu tudo. Nenhuma trinca, nenhum estouro, o que é raro numa carga cheia e é a única coisa daquela semana que deu certo do jeito que devia.
Suas dezessete foram para a feira de setembro num carro de aplicativo, embaladas em jornal por mim, e você vendeu quatorze, e a transferência caiu na minha conta com a sua parte já descontada.
A tigela grande, a de trinta e dois, ficou.
O esmalte escorreu na camada de baixo exatamente como eu disse que ia escorrer, e formou uma poça vidrada de uns dois centímetros num dos lados, onde encostou no pino e grudou. Está na prateleira de cima do armário de esmalte, que é a que eu alcanço sem escada.
Vinte e seis peças, nenhuma trinca. A tigela grande escorreu exatamente onde eu disse que ia escorrer.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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