Conto XLI
Altura de voo permitida
O cartão tem duzentos e dezenove arquivos e eu só fui olhar em março, três meses depois do curso.
Estou escrevendo as legendas porque o cartão não tem legenda nenhuma. Tem nome de arquivo, horário e nada mais, e nome de arquivo não lembra de nada.
O curso é de dois dias num campo arrendado depois do pedágio, sábado e domingo, nove alunos e um instrutor. Serve para tirar o registro, e quem não tira voa irregular, e voar irregular com equipamento de dois quilos é problema de outra ordem.
Dia um é teoria: espaço aéreo, altura máxima de cento e vinte metros sem autorização, distância mínima de pessoas, o que é zona proibida e por que você nunca vai levantar nada perto de aeroporto.
Dia dois é prática, e é por isso que existem duzentos e dezenove arquivos.
DSC_0003, 08h14. Nove pessoas de pé em volta de uma mesa dobrável, de costas. Nenhum rosto. Foi o instrutor que tirou, com o meu equipamento, para provar que a turma estava completa no horário.
DSC_0011, 09h02. A grama do campo vista de uns trinta metros. Amarelada, com duas trilhas de pneu cruzando. Primeiro voo meu, com suor nas mãos que não aparece em foto.
DSC_0024, 09h40. A mesma grama de cento e vinte metros. É o limite legal e de cento e vinte metros um campo arrendado parece um retângulo bege sem interesse nenhum. Guardei porque é o teto e eu queria ter o teto.
Sobre a parte que eu não sabia que existia quando paguei a inscrição.
Metade do dia dois é com óculos. Os óculos de imersão colocam na sua cara o que a câmera está vendo, e é bom de um jeito difícil de explicar, e tem um problema óbvio: você fica cego.
Não é figura de linguagem. Você está em pé num campo, com uma coisa voando a sessenta por hora a duzentos metros de você, e você não vê o chão, não vê a cerca, não vê a si mesmo.
Por isso existe uma função chamada observador visual, e ela não é gentileza: é exigência.
O observador fica do seu lado, olhando o drone de verdade com os olhos, e fala o que você precisa saber. "Está subindo." "Tem um pássaro." "Você está perto da cerca." E, quando a voz não resolve, ele encosta.
Encosta no braço para corrigir direção. No ombro para avisar que é hora de descer. Nas costas para te dizer que você andou sem perceber, porque pessoa com óculos de imersão anda, e anda bastante, e não sabe.
A Iraci foi a minha observadora nas duas sessões da tarde porque a dupla foi formada pelo instrutor, por ordem de inscrição.
DSC_0088, 14h21. Borrão verde e marrom em diagonal. É o chão passando rápido. Essa é do momento em que eu andei quatro passos sem saber e ela me puxou pelo cinto da calça.
DSC_0097, 14h35. A cerca de arame vista de cima, a uns dez metros. Perto demais. Legenda honesta: eu ia bater, e não bati porque alguém com a mão no meu antebraço mandou subir e eu subi antes de entender.
DSC_0112, 15h08. Céu, só céu, com uma faixa de nuvem. Sem interesse. Está no cartão porque eu apertei o botão sem querer, e eu apertei sem querer por um motivo que não cabe em legenda de foto de céu.
Depois de uma hora com os óculos a pessoa fica estranha. É um cansaço de olho e de nuca, e tem uma desorientação que dura uns minutos depois de tirar.
Quando você tira os óculos, o campo volta de uma vez, e a primeira coisa que você vê é quem estava do seu lado.
Eu tirei os óculos às quinze e vinte e ela estava a uns quinze centímetros, porque tinha acabado de falar no meu ouvido para eu não gritar comando com o rádio aberto.
DSC_0120, 15h22. Chão. Grama de muito perto, desfocada. O equipamento estava pousado e ligado.
O campo arrendado tem um galpão de ferramenta que o dono deixa aberto nos dias de curso, com duas janelas sem vidro e um chão de cimento com farelo de ração.
A turma parou às quinze e meia para o café, que é servido na mesa dobrável do outro lado do campo, a uns cento e cinquenta metros do galpão.
Cento e cinquenta metros é longe num campo aberto. É longe de um jeito que as pessoas do café não distinguem quem está perto do galpão, porque contra o sol da tarde todo mundo é silhueta.
O intervalo foi de vinte e cinco minutos.
DSC_0121 a DSC_0196. Setenta e seis arquivos, todos iguais, todos de chão. O equipamento ficou pousado e ligado e o botão travou embaixo de uma mochila. É lixo técnico e eu não apaguei nenhum.
A última sessão foi às dezesseis e dez e eu voei mal, e o instrutor anotou na ficha "atenção dividida", que é o termo técnico e que estava certo.
A prova prática foi no fim e eu passei. O registro saiu em quarenta dias.
DSC_0208, 17h02. Os nove alunos e o instrutor, de frente, posando. É a foto oficial da turma e a única em que todo mundo sabe que está sendo fotografado. Ela está na ponta esquerda, eu na ponta direita, e isso foi decisão de alguém.
DSC_0214, 17h31. O campo vazio de cento e vinte metros, com os carros indo embora pela estrada de terra. Último voo do dia, autorizado pelo instrutor, com bateria em trinta e um por cento.
Eu nunca mais vi a Iraci. Ela mora em outra cidade, fez o curso aqui porque a vaga abriu aqui, e a gente não trocou nada além do que se troca num grupo de WhatsApp de turma que morreu em duas semanas.
Foram duas sessões de tarde. É isso que aconteceu, e eu não vou inflar.
O que me fez abrir o cartão em março foi que eu comprei bateria nova e precisei formatar.
DSC_0219. Último arquivo. Interior do galpão de ferramenta, tirado de baixo para cima, com a viga do telhado e um pedaço de janela sem vidro. Horário do arquivo: 23h47. O curso terminou às dezessete.
Duzentos e dezenove arquivos, setenta e seis de chão. O último é de 23h47, e o curso terminou às cinco.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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