Conto XLIII
De zero a dez
Fisioterapia começa sempre com a mesma pergunta, e ela é numérica.
De zero a dez, quanto dói. Zero é nada, dez é a pior dor que você já sentiu na vida. A pessoa responde um número e a sessão daquele dia é montada em cima dele.
Operei o manguito rotador do ombro direito em maio, por artroscopia, depois de dois anos fingindo que ia passar. Quatro semanas de tipoia e doze sessões prescritas, duas por semana.
A fisioterapeuta se chama Noêmia e tem uma letra pequena e muito reta que eu reconheceria em qualquer lugar hoje.
Vou listar os doze números porque eles contam a história melhor do que eu.
Sessão 1. Oito.
Verdade. Oito é dor que não deixa dormir e eu não estava dormindo havia cinco semanas.
Primeira sessão não tem exercício. Tem medição. Ela mediu a amplitude com um goniômetro, que é um aparelho de plástico com dois braços e um transferidor no meio, e anotou cada ângulo.
Elevação de quarenta e dois graus. O normal é cento e oitenta.
Sessão 2. Sete.
Mentira, para baixo. Era oito ainda, e eu disse sete porque homem de quarenta e sete anos tem vergonha de dizer oito duas vezes seguidas.
Essa é a mentira mais comum e ela sabe. Toda fisioterapeuta sabe. O que ela fez foi parar de perguntar o número e começar a perguntar outra coisa: "dormiu?" Eu disse que não e ela escreveu oito no prontuário.
Sessão 3. Sete.
Verdade, e foi a primeira vez que eu entendi o que a sessão era.
Mobilização passiva quer dizer que você não faz nada. Você deita, relaxa o braço, e outra pessoa move o seu ombro até o limite e para um grau antes de doer de verdade.
Achar esse limite exige que ela segure o seu braço com as duas mãos, uma no punho e uma acima do cotovelo, e fique olhando a sua cara, porque a cara avisa antes da boca.
São dezoito minutos. Cronometrados, porque está na prescrição.
Sessão 4. Cinco.
Verdade, e foi uma notícia muito boa. Cinco é dor que incomoda e deixa viver.
Nessa sessão ela liberou exercício ativo-assistido com bastão e eu fiz sozinho pela primeira vez, e ela ficou do outro lado da sala atendendo outra pessoa.
A sala tem três macas separadas por cortina de trilho. Quando a cortina está aberta, é uma sala. Quando está fechada, são três cubículos estreitos, onde a maca ocupa quase tudo.
Na sessão 4 a cortina ficou aberta a sessão inteira, e eu reparei nisso, o que é uma informação sobre mim e não sobre ela.
Sessão 5. Seis.
Mentira, para cima. Era quatro.
Eu não planejei. Ela perguntou, eu ia dizer quatro, e saiu seis, e eu ouvi a minha própria voz dizendo seis e não corrigi.
Seis significa que não dá para liberar carga, que o dia é de mobilização passiva e de liberação manual, e que a sessão vai ser dezoito minutos de mão em cima de mim em vez de dezoito minutos de eu puxando elástico amarelo.
Foi a primeira vez em quarenta e sete anos que eu troquei a verdade por tempo.
Sessão 6. Seis.
Mentira. Era três ou quatro.
Sessão 7. Cinco.
Mentira, e uma mentira calibrada. Eu baixei um ponto para o número continuar fazendo sentido como evolução, porque prontuário que não melhora chama a atenção do ortopedista.
Eu estava administrando um gráfico. Isso é o tipo de coisa que a gente percebe sobre si mesmo dois meses depois e fica sem graça.
Sobre a liberação miofascial, que é onde isso tudo mora.
Depois de cirurgia de ombro, a musculatura em volta trava. Trapézio, peitoral, redondo maior. O trabalho é desfazer esse travamento com pressão sustentada, e pressão sustentada quer dizer polegar ou cotovelo apoiado num ponto por noventa segundos sem aliviar.
Dói e resolve. As duas coisas ao mesmo tempo, e o cérebro não tem onde arquivar isso separado.
É um estado em que você está deitado sem camisa, numa maca de setenta centímetros de largura, com outra pessoa com o peso do corpo apoiado em você, e o seu trabalho é respirar e não fugir.
Dezoito minutos. Doze sessões. Soma três horas e trinta e seis minutos.
Sessão 8. Cinco.
Sessão 9. Quatro.
Verdade, as duas, porque na sessão 8 ela mediu de novo com o goniômetro: cento e trinta e um graus de elevação. O corpo estava desmentindo o meu número e eu parei.
Sessão 10. Três.
Sessão 11. Dois.
Verdade. Nessa sessão ela liberou carga com elástico vermelho e me ensinou o programa domiciliar, que é o sinal de que a alta está perto.
Ela falou isso com a naturalidade de quem dá uma boa notícia. Eu respondi que era ótimo.
Sessão 12. Zero.
Verdade. Zero mesmo. Cento e setenta e dois graus de elevação, força simétrica, sem dor em nenhuma das manobras de teste.
A alta é um papel. Ela preencheu, assinou, carimbou com o número do conselho e me entregou a via para levar ao ortopedista. Dezoito e quarenta de uma quinta-feira.
Eu agradeci, apertei a mão dela com a mão direita, que era o ombro operado, e fui embora.
Voltei vinte minutos depois porque esqueci a receita do programa domiciliar em cima da maca, e a clínica fecha às dezenove, e às dezenove e dez só tinha ela, terminando os prontuários do dia na sala da frente com a luz da recepção já apagada.
A partir dali eu não era paciente dela. Isso importa e não é pretexto. É a condição inteira do parágrafo seguinte, e foi ela que disse isso primeiro, em voz alta, antes de mim.
A maca do cubículo 2 tem setenta centímetros de largura, regulagem de altura por pedal, e range quando a cortina de trilho é fechada depois de a sala estar vazia.
O ombro ficou bom.
Amplitude completa, sem dor, força igual nos dois lados. Eu levanto o braço acima da cabeça umas quarenta vezes por dia e não sinto absolutamente nada, que era exatamente o objetivo clínico das doze sessões.
Doze sessões, doze números, quatro deles falsos. A alta foi às dezoito e quarenta de uma quinta.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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