VesperaFicção adulta

Conto XXXVII

Corrigido em vermelho

Eu dou aula particular de inglês desde 2015 e guardo os cadernos dos alunos que terminam, porque eles esquecem e porque eu gosto de ver o começo depois.

O caderno do Otoniel tem trinta e uma aulas. Terças, das dezenove e trinta às vinte e trinta, na casa dele, mesa da cozinha, um ano e dois meses.

Ele tinha quarenta e quatro anos e precisava de inglês porque a empresa dele foi comprada por um grupo americano e as reuniões passaram a ser em inglês sem que ninguém perguntasse nada a ninguém.

Corrijo em vermelho. Todo mundo corrige em vermelho. O que muda de professor para professor é o que se decide corrigir.

Aluno adulto erra diferente de adolescente. Adolescente erra por não saber. Adulto erra por ter aprendido errado em 1996 e ter passado trinta anos praticando o erro com confiança, e desmontar isso é metade do serviço.

A outra metade é decidir o que deixar passar. Se eu corrigisse tudo, ninguém falaria nada em voz alta, e aluno que não fala não aprende língua nenhuma.

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Aula 4. Presente simples. Tarefa: escreva cinco frases sobre a sua rotina.

"I wake up at six. I take coffee. I work all day. I come back at eight. I watch TV alone."

Vermelho em duas: take coffee vira have coffee, porque em inglês café não se toma. E eu circulei alone e escrevi na margem "ok, mas cuidado: soa triste em inglês".

Ele leu a margem na aula seguinte, riu, e disse que era para soar.

Eu anotei no meu caderno de planejamento: "vocabulário bom, pronúncia ruim, motivação alta".

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Aula 11. Passado contínuo. Tarefa: o que você estava fazendo ontem às dez da noite?

"I was thinking about the class of tomorrow."

Vermelho em uma: the class of tomorrow vira tomorrow's class.

Não corrigi o resto porque não havia resto. A tarefa pedia cinco frases e ele entregou uma.

Na margem eu escrevi "faltam 4".

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Sobre a geografia da coisa, que é o que ninguém pensa em aula particular.

A mesa da cozinha dele tinha um metro e vinte. Numa mesa dessas, professor e aluno sentam na quina, em noventa graus, porque de frente não dá para os dois lerem o mesmo papel.

Noventa graus quer dizer que o joelho de um fica na direção do outro. Durante uma hora. Cinquenta e duas vezes por ano, se ninguém faltar.

A gente usava o mesmo caderno, aberto entre os dois, e eu escrevia por cima do que ele tinha escrito. Para isso eu precisava alcançar. Para ele acompanhar, ele precisava se inclinar.

Isso é a aula. Isso é exatamente a aula, e é assim com todos os alunos, e eu nunca tinha pensado nisso em dez anos.

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Aula 19. Present perfect. Tarefa: cinco coisas que você nunca fez.

"I have never been to Europe. I have never eaten oyster. I have never learned to swim. I have never told my wife the truth about 2019. I have never wanted a class to not finish."

Vermelho em duas: oyster vira oysters, e to not finish vira not to end.

As outras três estavam gramaticalmente corretas.

Eu não escrevi nada na margem naquela página, o que também é uma escolha, e uma escolha que o aluno percebe.

Na aula seguinte a gente trabalhou modais por cinquenta minutos com um rigor que não era necessário.

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Aula 23. Condicional. Tarefa: complete com if.

Ele entregou a folha com cinco frases e a quinta estava rasurada, riscada com caneta azul até não dar mais para ler, e reescrita embaixo como "If it rains on Tuesday, I will call you."

Essa está correta e eu não tinha o que corrigir.

Choveu naquela terça. Ele não ligou, eu fui, e a aula aconteceu normalmente.

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Aula 26.

Não tem tarefa registrada no caderno da aula 26.

A página está em branco com a data escrita no alto, na minha letra, porque eu escrevo a data no começo de cada aula antes de qualquer coisa.

A cozinha dele tem uma bancada de granito à esquerda da mesa, com sessenta centímetros de profundidade, e dois armários altos que ficam com as portas encostadas porque a dobradiça de um deles está frouxa desde antes de eu começar a dar aula ali.

A caneta vermelha ficou em cima do caderno aberto na página em branco das dezenove e quarenta às vinte e uma.

Eu fui embora às vinte e uma e dez e o caderno ficou lá, porque o caderno é dele.

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Aulas 27 a 30. Voz passiva, reported speech, phrasal verbs, revisão.

Quatro aulas normais, tarefa feita, correção em vermelho na média de três por página. Eu tenho registro de tudo e não tenho nenhuma anotação de margem nessas quatro.

Ele foi para Chicago em agosto e voltou dizendo que tinha entendido setenta por cento das reuniões, o que é muito bom e é mais do que a maioria consegue em quatorze meses.

Foi o motivo objetivo de a gente parar. Ele não precisava mais.

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Aula 31. Última. Tarefa livre: escreva o que você quiser, meia página.

Ele escreveu doze linhas sobre a viagem, o hotel, o frio de agosto que não é frio, e uma reunião em que ele falou sozinho por quatro minutos e ninguém pediu para repetir.

Tem sete erros nessas doze linhas. Eu corrigi os sete.

A última frase da página é: "I am not sorry about the class 26."

O certo seria lesson 26, sem artigo, porque em inglês não se diz the class 26. Eu sei disso, ele sabia disso na aula 4, e é o tipo de erro que eu corrijo com um traço e três letras.

Essa ficou sem vermelho nenhum.

Trinta e uma aulas, uma hora por semana, uma mesa de um metro e vinte. A última frase ficou sem correção.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

Fazer o teste

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