Conto XXXVI
O galpão da Piratini
A matéria saiu no site do jornal da cidade em 19 de março, com quatro fotos e trezentas palavras, e eu vou corrigir por partes.
Não por implicância. É que quem escreveu passou quarenta minutos lá dentro, de dia, e o que aconteceu naquele galpão aconteceu à noite.
Também não escrevo isso para diminuir o que foi feito. Saíram de lá quatro mil e duzentos sacos triados, e isso chegou em gente que estava dormindo em escola. O trabalho existiu e valeu.
O que não existiu foi a versão bonita dele.
"Cerca de 120 voluntários se revezaram na triagem das doações."
Cento e vinte é o número de pessoas que assinaram a lista em nove dias. Numa noite qualquer éramos entre vinte e trinta e cinco. No turno da madrugada, das dez às quatro, éramos trinta e um no melhor dia e onze no pior.
A diferença importa porque triagem não é trabalho que se divide bem. Onze pessoas num galpão de mil e duzentos metros quadrados não formam um mutirão. Formam um punhado de gente longe uma da outra gritando pergunta sobre tamanho.
"Em um clima de solidariedade e esperança."
Não era esse o clima.
O clima era raiva. Raiva da prefeitura, que demorou quatro dias para ceder o galpão. Raiva de quem doou sapato de salto, terno, roupa de festa e, num caso que eu vi com meus olhos, uma máquina de waffle. Raiva do cheiro, que é o que ninguém conta: roupa doada em massa, ensacada, fechada e empilhada começa a mofar em quarenta e oito horas, e mil e duzentos metros quadrados de roupa mofando é uma coisa que entra pela roupa da gente e vai embora no terceiro banho.
Esperança não é a palavra. A palavra é teimosia.
"As doações foram separadas por tipo e por tamanho."
Por tipo, sim. Por tamanho, só camiseta masculina, e só porque um voluntário que trabalha com estoque montou um sistema de baias com fita crepe na segunda-feira.
Esse voluntário é o motivo deste texto existir.
Ele apareceu no turno da noite de segunda, sozinho, de bota, e passou a primeira hora sem falar com ninguém, andando pelo galpão com um caderno. Depois foi até a coordenadora e falou por uns três minutos. Às onze e meia a gente tinha baias.
Eu nunca soube o sobrenome dele. Sei que se chama Jonas, que trabalha com logística de bebida, e que ele também nunca soube o meu.
Sobre o trabalho, porque a matéria não descreve nenhum.
Você abre o saco. Tira peça por peça. Roupa suja vai para um lado, roupa boa para o outro, roupa rasgada vai para reciclagem têxtil e não para o lixo, e isso é a coisa que todo mundo erra nos dois primeiros dias.
Peça grande exige duas pessoas: uma segura e a outra dobra, senão encosta no chão e volta para a pilha suja. Cobertor, casaco, edredom. Existe um jeito certo de fazer a dois e ele exige que as duas pessoas fiquem de frente, a uns setenta centímetros, e movam os braços ao mesmo tempo.
Numa noite a gente dobrou cento e quarenta cobertores.
Ninguém que nunca fez isso entende que dobrar cobertor com um desconhecido por seis horas é mais íntimo que quase tudo. Você aprende a mão da pessoa. Você aprende quando ela vai soltar. Às três da manhã, no quinto dia, você e ela fazem o movimento inteiro sem olhar e sem combinar, e isso não tem nome e é uma das coisas mais estranhas que já me aconteceu.
"O trabalho se estendeu pela madrugada."
Estendeu.
Na quinta-feira, dia seis, chegaram dois caminhões às duas e vinte da manhã sem aviso, porque o motorista tinha pegado desvio e não tinha sinal para avisar. A coordenadora foi embora à meia-noite. Quem estava lá eram nove pessoas.
Descarregar dois caminhões com nove pessoas leva até as cinco e meia.
Às quatro e quarenta as outras sete foram para o lado de fora comer o que tinha sobrado de pão, e o galpão ficou com as luzes altas apagadas, porque a coordenadora apaga metade ao sair e ninguém sabia onde ficava a chave.
O fundo do galpão tem um corredor entre a parede e a última fileira de paletes, com noventa centímetros de largura e uns quatro metros de comprimento, e é o único lugar daquele prédio que não é visível da porta.
Eu estou contando isso com precisão de medida porque é assim que eu lembro. Quem trabalha nove dias contando peça e metro quadrado guarda as coisas em número.
Havia lona plástica empilhada ali, dessas azuis, novas, ainda no plástico da fábrica.
Os outros voltaram do pão às cinco e dez.
"Ao final, todos voltaram para casa com o coração cheio."
Isso é invenção de quem precisava fechar o texto.
No último dia a gente varreu o galpão, devolveu a chave, e cada um foi para o seu carro sem discurso nenhum. Teve um abraço coletivo meio sem jeito que durou uns dez segundos e que ninguém propôs direito.
Eu não peguei o telefone dele e ele não pediu o meu, e isso foi uma decisão, não um esquecimento. O que aconteceu ali pertencia ao galpão, ao mofo, aos cobertores e às quatro da manhã, e fora dali não ia sobreviver a um café numa terça-feira.
Uma coisa na matéria está certa, e é a legenda da terceira foto, que diz: "Voluntários dobram cobertores na madrugada de quinta."
A foto é do dia seis. Eu estou nela, de costas, à esquerda. Ele está segurando a outra ponta.
Nove dias, mil e duzentos metros quadrados, cento e quarenta cobertores. A legenda da terceira foto está certa.
Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.
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