VesperaFicção adulta

Conto XXXV

Quem dirige na volta

2022.

O combinado foi feito no estacionamento, em pé, em uns quatro minutos, e nunca mais foi revisado.

Vilma dirigia na ida porque acorda bem. Edson dirigia na volta porque ela não enxerga direito à noite e nunca teve vergonha de dizer isso. A gasolina era dividida por Pix no fim do mês, sem planilha, e o carro era o dela porque o dele tinha uma embreagem que ia durar mais seis meses e durou três anos.

Os dois trabalhavam na mesma empresa de embalagem plástica, num galpão em Itapevi. Ela no financeiro, ele na manutenção. Moravam a dois quilômetros um do outro, na zona leste, o que numa cidade daquele tamanho é praticamente parentesco.

Noventa minutos de manhã. Noventa à noite. Cinco dias por semana.

Isso dá três horas por dia dentro de um Gol prata com ar-condicionado fraco. Ninguém calcula esse número antes de aceitar carona.

· · ·

A ida e a volta são viagens diferentes, e quem nunca fez esse trajeto não acredita.

Na ida os dois estavam recém-acordados, com pressa e com medo de atraso. Falavam pouco e falavam de coisa prática: trânsito, reunião, o almoço, se o chefe ia aparecer. Rádio em estação de notícia. Ela dirigia com as duas mãos no volante.

Na volta era outra coisa. O dia já tinha acontecido, ninguém tinha mais nada a proteger, e o trecho da rodovia entre o pedágio e o entroncamento trava das dezoito às vinte todo santo dia, o que transforma noventa minutos em cento e vinte com uma frequência que deixou de surpreender no segundo mês.

Na volta o rádio ficava em música. Ele dirigia com uma mão só.

Em quatro anos os dois conversaram, no carro, sobre: o divórcio dele, a mãe dela, dinheiro, o filho dele que não fala com ele, a tireoide dela, religião duas vezes, política nunca.

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2023.

Foi o ano em que a rotina virou hábito, que são coisas diferentes.

Rotina é você fazer todo dia. Hábito é o corpo saber antes de você. Em 2023 ela já estacionava no mesmo ponto da rua sem procurar, ele já tinha cópia da chave, e os dois já sabiam de cor em que ponto da via marginal o sinal do rádio falha e volta.

Foi também o ano em que o banco do carona deixou de ser o banco do carona e virou o lugar dele.

Isso tem sinais objetivos. Ele passou a guardar um carregador na porta. Ela parou de tirar a bolsa do banco antes de ele entrar, porque ele já pegava e colocava atrás sozinho. O espelho retrovisor central ficou num ângulo que servia para os dois, que é uma coisa que não existe, porque cada pessoa tem uma altura, e mesmo assim ficou.

Nada aconteceu em 2023. Registro isso porque parece que aconteceu.

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2024.

Em maio a rodovia foi interditada por um tombamento de carreta no km 31, às dezoito e quarenta, com os dois já na estrada.

Quem conhece o trajeto sabe que não existe desvio bom. Existe o desvio ruim, que é a estrada velha, com pista simples, sem acostamento, cento e dez quilômetros em vez de sessenta e dois.

Eles pegaram a estrada velha às dezenove e dez e chegaram na zona leste às vinte e três e quarenta.

Quatro horas e meia. Numa pista simples, no escuro, atrás de caminhão, com parada de vinte minutos num posto de beira de estrada que tinha pastel e não tinha banheiro feminino funcionando.

Foi ele quem dirigiu, porque era a volta.

Por volta de meia-noite e meia, já na cidade, ele estacionou na rua dela e nenhum dos dois desceu.

O motor ficou desligado por cinquenta e um minutos, e ela sabe o número porque olhou o relógio do painel quando ele desligou e olhou de novo quando ligou.

O Gol prata tem banco inteiriço na frente, o que é péssimo, e um freio de mão no meio, que é pior.

Nada disso impediu nada.

· · ·

Na manhã seguinte ela buscou ele às seis e dez, como sempre, e dirigiu na ida, como sempre.

Os dois falaram do tombamento da carreta, que tinha saído no jornal, e de uma nota fiscal que estava errada desde abril.

Aconteceu de novo mais quatro vezes naquele ano, sempre na volta, sempre com o carro parado, e nunca com nenhum dos dois chamando aquilo de coisa nenhuma. Não houve mensagem fora do horário do trajeto. Não houve encontro em outro lugar. Não houve nem uma vez em que um dos dois tenha subido.

Existia um limite, e o limite era a porta do carro, e ele foi respeitado com um rigor que qualquer um de fora acharia absurdo e que fazia todo sentido para os dois.

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2025.

Em março a empresa mudou a operação para um galpão em Cajamar.

Não teve drama nenhum. Cajamar fica do outro lado, o trajeto dela passou a ser de quarenta minutos por outra estrada, e o dele passou a ser de uma hora e meia num sentido em que a carona não fecha para ninguém.

A última ida foi numa sexta, 28 de março. Nenhum dos dois marcou a data como última porque na sexta ainda se achava que dava para dar um jeito.

Ele comprou um carro em abril, financiado em quarenta e oito meses.

Os dois continuam na mesma empresa, se falam por chat quase todo dia sobre nota fiscal e ordem de serviço, e se veem umas quatro vezes por ano nas reuniões gerais, onde conversam normalmente.

A estrada velha continua lá, com pista simples e sem acostamento, e é usada toda vez que a rodovia trava, por umas oitocentas pessoas por dia que não têm a menor ideia do que aconteceu no km 31 em maio.

Quatro anos, três horas por dia, um combinado de quatro minutos. O limite era a porta do carro.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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