VesperaFicção adulta

Conto XXXIV

A sala 7 não tem câmera

O bastão de ronda registra cada ponto com hora e minuto, e o relatório sai impresso toda segunda na mesa do supervisor.

Funciona assim: há onze pontos espalhados pelo prédio, cada um é uma peça redonda parafusada na parede, e a gente encosta o bastão nela e ele apita. O sistema não sabe se a gente olhou alguma coisa. Ele sabe que às 01h14 alguém encostou o bastão no ponto 5.

A gente faz quatro rondas por turno, das dezenove às sete. Entre uma e outra fica na sala de monitoramento, que tem doze telas e uma cadeira boa e uma ruim.

Eu e o Adilson trabalhamos juntos de terça a sábado desde março.

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O museu é municipal, fica num casarão de 1927 e tem nove salas de exposição em dois pavimentos.

Do lado de fora ele parece uma coisa. Por dentro, à noite, com as luzes de emergência, ele é um prédio antigo com assoalho que estala e um sistema de climatização que liga sozinho às três da manhã e assusta funcionário novo.

A gente tem doze câmeras para nove salas, o hall, a escada e a área de carga.

A da sala 7 queimou em março. A reposição está numa licitação que foi impugnada em maio e que ninguém espera que ande este ano, e por isso existe uma folha impressa colada no canto da tela 7 com os dizeres "aguardando substituição", na letra da chefia anterior, que se aposentou em julho.

A sala 7 é a de têxteis. É a menor, é a mais escura, e é a única do museu inteiro onde ninguém no mundo consegue ver o que está acontecendo.

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Sobre o Adilson, o que cabe dizer.

Cinquenta e um anos, vinte e dois de vigilância patrimonial, dois filhos criados. Trabalhou doze anos em agência bancária e diz que museu é melhor porque em museu ninguém chega armado querendo o cofre.

Ele faz a ronda no sentido horário. Eu aprendi a fazer no sentido dele.

Num turno de doze horas com duas pessoas, a conversa acaba na terceira semana. Depois disso o que sobra é outra coisa: a gente sabe de cor quantos passos tem da escada até o ponto 6, sabe qual tábua do assoalho da sala 4 estala, e sabe pelo barulho da porta se o outro está subindo ou descendo.

Isso demora uns quatro meses para acontecer e não tem nome.

O que a gente faz nas outras dez horas do turno é olhar tela. Doze telas, nove salas, e nada acontecendo em nenhuma delas por doze horas seguidas, trezentos e poucos dias por ano.

Vigilância noturna é o ofício mais bem remunerado de ficar sem fazer nada que existe, e quem nunca fez acha que isso é bom. Não é. O corpo cansa mais parado do que andando, e a cabeça de quem passa a noite acordada sem tarefa vai procurar tarefa em algum lugar.

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Em agosto o museu fechou onze dias para dedetização e revisão elétrica.

Fechado para o público não quer dizer fechado. A vigilância continua, o acervo continua lá, e os dois turnos continuam rodando com a diferença de que não há nenhum outro funcionário no prédio depois das dezoito.

Nos onze dias a gente foi as únicas duas pessoas dentro de um casarão de 1927 das dezenove às sete.

Na noite de 14 de agosto, uma quinta, a ronda das duas da manhã saiu do horário.

Isso está no relatório, porque tudo está no relatório. O ponto 6 foi lido às 02h09. O ponto 7 foi lido às 02h43.

Entre um e outro há quinze metros de corredor e uma porta.

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A sala 7 tem quatro vitrines verticais, um banco de madeira no centro para quem quiser sentar e olhar, e um piso de tábua corrida que é o único do museu que não estala, porque foi trocado em 2011.

A iluminação é de cinquenta lux, que é escuro o suficiente para uma pessoa levar uns trinta segundos ajustando a vista ao entrar.

O ar-condicionado da sala mantém vinte graus e cinquenta e cinco por cento de umidade o ano inteiro, e faz um ruído baixo e constante que cobre qualquer outro.

A gente não tinha combinado nada. Não houve conversa antes, não houve na hora e não houve depois, e eu já pensei muito nisso e continuo achando que foi o prédio vazio, e não a gente.

O banco de madeira do centro tem um metro e vinte e é aparafusado no chão.

Eu larguei o bastão em cima dele e foi por isso que o ponto 7 só foi lido às 02h43.

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O museu reabriu em 25 de agosto.

Com público, com estagiário, com a moça da bilheteria e com o pessoal da educativa levando escola pelas salas às terças de manhã, um turno noturno vira outra coisa: continua tendo duas pessoas, mas o prédio para de estar vazio, porque prédio que teve gente de dia não fica vazio de verdade à noite.

A gente continua fazendo quatro rondas. Ele continua no sentido horário.

O relatório de agosto foi arquivado sem observação. Trinta e quatro minutos entre dois pontos não dispara nada no sistema, que só acusa ronda não feita, e ninguém lê relatório de ronda de um museu municipal a menos que tenha acontecido alguma coisa.

Não aconteceu nada. Nenhuma peça saiu do lugar.

Na vitrine 3 da sala 7 está uma colcha de retalhos em algodão e linho, de Minas Gerais, cerca de 1890, doação de Maria Ovídia Fontes em 1974, e a sala é mantida no escuro porque algodão tingido perde cor com luz e não recupera.

Onze pontos de ronda, doze câmeras, nove salas. A sala 7 espera substituição desde março.

Três perguntas rápidas e a gente indica a próxima história.

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